Chapter 1:

Capítulo 1

Kurayami no naka no hikari(em portugues)


No início, quando tudo ainda era belo e a tecnologia havia alcançado seu auge, uma guerra nuclear teve início — e durou anos.

A Terra sofreu incontáveis explosões atômicas, cada uma deixando cicatrizes profundas no planeta.

Mas então, um dia, o destino do mundo foi definitivamente selado.

Uma bomba nuclear, de origem e local desconhecidos, explodiu com um impacto tão devastador que chegou a alterar o próprio campo gravitacional da Terra. O mundo, já arruinado por detonações anteriores, mergulhou em um caos ainda mais profundo.

A radiação espalhou-se de forma absoluta, contaminando todo o ecossistema. Mutações genéticas bizarras surgiram, transformando a vida como era conhecida em algo irreconhecível e distorcido.

No início, apenas oito mil humanos sobreviveram. Contudo, com o passar do tempo, a radiação excessiva continuou ceifando vidas.

Os mortos não encontravam descanso: seus corpos se deformavam, tornando-se aberrações maiores, mais ágeis e imprevisíveis.

Os animais também sofreram mutações severas, transformando-se em criaturas gigantes, agressivas e letais.

Diante de tamanha devastação, tudo indicava que a humanidade estava condenada à extinção.

Mas, com o corpo humano absorvendo tamanha quantidade de radiação, sua genética — frágil e complexa — sofreu mutações inesperadas. Aos poucos, ela passou a se adaptar ao ambiente caótico, cercado por predadores vindos de todos os lados.

Os mais jovens começaram a despertar habilidades que iam além de qualquer explicação científica. No entanto, por mais que tentassem, esses poderes jamais conseguiam ser transmitidos diretamente à própria linhagem. Cada indivíduo manifestava algo único, diferente de todos os outros.

Assim surgiu a primeira geração dos Fezixiossapiens.

Ainda assim, a humanidade continuava enfrentando dificuldades para sobreviver além da juventude. Foi então que, um dia, surgiu uma viajante de origem e etnia desconhecidas. Ela protegia vilarejos, enfrentava criaturas aberrantes e ensinava os jovens a controlar seus poderes, por mais diversos que fossem.

Com o tempo, esses vilarejos cresceram sob sua orientação, transformando-se em impérios.

As lendas descrevem a salvadora da humanidade como uma fera de pele semelhante ao Espinélio Negro, olhos que lembravam jade tingido de sangue, e cabelos tão longos e brilhantes quanto os próprios raios solares.

Antes de desaparecer na mata, ela deixou um aviso que ecoaria através das gerações:

“Aqueles abençoados pela Atomia levarão suas genéticas adiante.”

Não muito tempo depois de sua partida, descobriu-se um garoto em uma das vilas que havia herdado o poder de seu pai. Anos mais tarde, outras cinco famílias revelaram descendentes com a mesma característica.

Esses indivíduos passaram a ser conhecidos como os abençoados pela Atomia, dando origem à primeira linhagem nobre da humanidade: os Tomiaguinzioxssapiens.

As histórias sobre o fim do mundo, a Atomia e as linhagens nobres eram repetidas como lendas antigas, passadas de geração em geração.

Palavras que ecoavam no tempo… até se perderem no silêncio.

O branco tomou tudo.

Um jovem com uma queimadura que se estendia do maxilar até a bochecha encarava o horizonte.

Seus cabelos negros, picotados e bagunçados, caíam de forma desordenada sobre o rosto. As roupas estavam rasgadas e sujas, marcadas por uma vida de fuga e sobrevivência.

Havia cansaço em seu olhar — olheiras profundas, pesadas demais para alguém tão jovem.

À sua frente, aos lados e às costas, não existia nada.

Apenas um espaço branco, infinito e silencioso.

Ele suspirou.

— Onde eu tô…?

A voz saiu baixa, quase se perdendo no vazio.

— Eu preciso alimentar meu irmão…

Outro suspiro, mais pesado.

— Ele tá com fome…

Uma voz infantil ecoou atrás dele.

— Irmãozinho…

Era rouca, quase inaudível, como se cada palavra exigisse esforço.

Ao se virar, ele viu uma criança de pele pálida e cabelos brancos. Havia algo de profundamente errado — e ao mesmo tempo familiar — em sua aparência.

Asas se projetavam de suas costas. Uma auréola torta pairava sobre a cabeça. Chifres surgiam entre os fios claros, e um rabo fino se movia lentamente atrás do corpo pequeno.

A criança enxugava o rosto encharcado de lágrimas. Os soluços eram constantes, falhos, como se estivesse tentando conter um choro antigo demais.

O olhar do jovem se petrificou.

Choque.

Medo.

E algo mais difícil de nomear.

A criança continuou chorando. O corpo pequeno tremia enquanto tentava falar entre soluços.

— Por quê… — o ar lhe faltou. — Por que você decidiu me vender praquele cara…?

Algo dentro do garoto se partiu.

— Eu n—

— Você me cortou.

A voz infantil subiu, rasgada pelo choro.

— Você preferiu alimentar a própria barriga e vender o seu irmão… do que cuidar de mim!

O grito ecoou pelo vazio branco, misturado a soluços desesperados e lágrimas que não cessavam.

O garoto permaneceu imóvel, em choque. O pavor se refletia em seu rosto enquanto encarava a criança, que continuava a chorar sem cessar.

— Por quê, Yami…? — a voz falhou. — Você prometeu cuidar de mim…

Yami tremia. O ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões.

Seus olhos, antes de um roxo cristalino, começaram a se apagar — até se tornarem completamente negros.

O espaço ao redor reagiu.

O branco infinito foi engolido pela escuridão.

Ainda chorando, a criança continuou a falar:

— Irmãozinho… por que tá me olhando com essa cara?

A voz vacilou por um instante… e então mudou.

— É culpa? — perguntou.

— Raiva?

— Ou… nojo?

O tom doce e juvenil desapareceu por completo.

A voz agora era distorcida, macabra, ecoando pelo vazio negro enquanto o clima se tornava sufocante — como se o próprio sonho estivesse se fechando sobre Yami.

— Amura, escuta—

Antes que Yami pudesse terminar, Amura o interrompeu.

A criança avançou, segurando o rosto dele com ambas as mãos.

Um sorriso macabro se abriu em contraste com a pele pálida e encharcada de lágrimas.

— Irmãozinho… — a voz saiu baixa, venenosa. — Já pensou que aquele velho só queria me matar?

O sorriso se alargou.

— Ou talvez algo pior…

Ele sussurrou:

— Me abusar.

As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Yami, silenciosas e incontroláveis.

— Eu não… — a voz falhou. — Eu nunca quis isso…

Amura inclinou a cabeça, falando agora com um tom doce demais para ser sincero.

— Mas fez, não fez, irmãozinho?

As mãos pequenas apertaram ainda mais o rosto de Yami enquanto ele soluçava.

— Me diz… — a voz subiu, trêmula de falsa inocência. — Sua vida melhorou depois do que fez?

O sorriso desapareceu num instante.

— FALA PRA MIM, YAMI!

— Por que não cuidou de mim como prometeu pra mamãe?!

— Por favor… me perdoa! — Yami gritou entre prantos e soluços. — Eu achei que era o melhor pra você! Eu tava sem comer há dias…

A voz quebrou de vez.

— Aquele homem parecia rico… eu achei que você teria uma vida melhor…

De repente, uma corrente emergiu do chão negro.

Ela se enrolou no pescoço de Amura e o puxou violentamente para baixo.

— Amura—!

O chão se abriu como uma boca faminta, engolindo a criança em meio aos gritos.

Yami se lançou para frente no mesmo instante, tentando segurá-lo.

Não conseguiu.

— NÃO!

O desespero tomou conta de seu corpo. Ele caiu de joelhos, gritando e chorando, socando o chão com força.

— ME DEVOLVE ELE!

— ME DEVOLVE O AMURA!!!

As lágrimas escorriam sem controle.

— Por favor… por favor… eu imploro…

A voz falhou, mas ele continuou.

— Deusa Atomia… por favor… devolve meu irmãozinho pra mim!

— Eu juro que me arrependi!

Ele gritava enquanto chorava, os punhos batendo contra o chão.

— EU IMPLORO AOS DEUSES!

— ME DEVOLVAM MEU IRMÃOZINHO…

Cego de raiva e desespero, Yami tentou atravessar o chão com as próprias mãos, como se pudesse alcançá-lo de alguma forma.

Foi então que percebeu passos se aproximando.

Uma presença suave… diferente de tudo naquele pesadelo.

Uma voz gentil falou:

— Pobre criança…

— Perturbada por tentar fazer o melhor para o próprio irmão.

Yami começou a se virar.

Mas antes que pudesse ver quem falava—

Ele acordou.

O corpo estava coberto de suor frio, o peito subindo e descendo com dificuldade. Lágrimas ainda escorriam por seus olhos.

Ele suspirou, exausto, a voz carregada de tristeza.

— Por que esse sonho me atormenta tanto…?

— E quem será essa mulher…?

Yami puxou o cobertor, cobrindo o rosto.

— Ah… foda-se. Eu não ligo…

Fechou os olhos.

Uma última lágrima escorreu.

Então dias se passam—


o som tomou conta de tudo.

Vozes sobrepostas, passos apressados, o cheiro de comida quente misturado ao de poeira e metal velho.

Uma rua movimentada se estendia diante de seus olhos.

Barracas de comida se alinhavam dos dois lados, vendendo espetinhos, pães recheados e bebidas improvisadas. Mais adiante, gaiolas expunham filhotes de animais mutantes — pequenos, barulhentos, alguns com olhos brilhantes demais para parecerem normais.

A cena pulsava de vida.

Entre a multidão, duas pessoas chamavam atenção.

Uma mulher negra, de tranças bem cuidadas, mantinha o olhar atento e preocupado. Ao seu lado, um homem de wolf cut observava tudo com expressão fechada, quase indiferente.

Eles conversavam em tom baixo.

— Pois é… — disse a mulher. — Pelo jornal da manhã, o ex-dono do Beco Winbsil morreu hoje cedo.

— Tão dizendo que foi assassinado.

O homem soltou um meio sorriso frio.

— Impressionante como isso aconteceu só uma semana depois do ter passado o posto de dono.

A mulher franziu o cenho, visivelmente tensa.

— A gente devia mesmo tá falando disso? — sussurrou. — Não é proibido, nas periferias, acusar alguém assim?

Ele deu de ombros, despreocupado.

— Ah, você sabe como é, né, Cíntia.

— Quem mora em beco é despreocupado… até virar dono de um.

Ele continuou, a voz transmitida de desdém:

— Além disso, pra cidade, morador de beco é só mão de obra barata. Gente pra mandar limpar praga e morrer no processo.

Cíntia rapidamente levou a mão à boca dele.

— Vitor! — sussurrou, irritada. — Falar assim é vulgar, ainda mais na entrada de um beco!

Victor tirou a mão dela sem esforço.

— Só porque você veio de lá não significa que tem que manter esses costumes — disse, dando de ombros. — Você não é noiva do filho dos Winchester?

Ele a escalada de cima a baixo.

— Tem sorte por ser bonitinha. Mulher só se salva dos becos pela beleza… ou pelo poder.

— Cala a boca, seu idiota — Cíntia rosnou, cerrando os dentes.

Eles não são.

Mas alguém, em meio à multidão mútua rua barulhenta, escutava cada palavra.

Após uma guerra nuclear que devastou a Terra e alterou até mesmo seu campo gravitacional, a humanidade foi reduzida a ruínas. A radiação absoluta deformou mortos e vivos, criando criaturas aberrantes e forçando os sobreviventes a evoluírem de formas imprevisíveis. Assim nasceram os Fezixiossapiens — humanos capazes de manifestar poderes únicos — e, mais tarde, os Tomiaguinzioxssapiens, a primeira linhagem nobre, marcada pela herança direta da Atomia, a força divina surgida do fim do mundo.

Séculos depois, essas histórias tornaram-se lendas distantes… até o passado e o presente colidirem.

Yami, um jovem marcado pela sobrevivência e pela culpa, é atormentado por um sonho recorrente onde encara o maior pecado de sua vida: ter vendido o próprio irmão para sobreviver. Entre acusações, dor e figuras divinas que parecem observá-lo, Yami desperta sem saber se aquilo foi apenas um pesadelo — ou um julgamento.

Enquanto isso, nas ruas caóticas de uma cidade construída sobre becos, desigualdade e exploração, murmúrios de assassinato, poder e desprezo social ecoam entre a multidão. Alguém observa. Alguém escuta. E algo antigo, ligado à Atomia, começa a se mover novamente.

O destino da humanidade, que um dia pareceu selado, talvez ainda esteja sendo escrito — com sangue, culpa e heranças que jamais deveriam despertar.