Chapter 1:

Capítulo 1: Uma proposta de outro mundo

Lyvaria: Aventura Em Outro Mundo



O ar úmido e quente de Porto Alegre grudava na pele como uma segunda camada. Desci do metrô na estação Mercado, com a mochila pesada de ferramentas nas costas, sentindo o cansaço de mais um dia longo. Meu nome é Lúcio, e a exaustão já era uma companheira familiar — indesejada, mas constante.

Ex-ajudante de pedreiro, ex-entregador, ex-assistente de cozinha... a lista de "ex" só crescia. Naquela semana, as coisas não estavam fáceis. A reforma do telhado na Serra me deixou destruído, e o pagamento veio menor do que o combinado. A conta do celular venceria em três dias, e a geladeira em casa estava mais vazia do que cheia.

Três anos como fuzileiro me ensinaram algumas coisas: a ler situações rápido, a não entrar em algo sem antes avaliar as possibilidades de saída, e que quando uma oportunidade parece boa demais para ser verdade, quase sempre tem uma armadilha escondida. Mas também me ensinaram que ficar parado esperando a vida melhorar não funciona. Você vai até o problema ou ele te engole.

Foi nesse momento de desânimo que o celular vibrou no meu bolso. Não era um cliente cancelando, graças a Deus, mas uma notificação de um aplicativo de empregos que eu nem lembrava de ter baixado.

— VAGA URGENTE: CONSULTOR DE ADAPTAÇÃO EM REALIDADE ALTERNATIVA — li em voz baixa, franzindo a testa. — O que é isso?

O valor anunciado me fez parar no meio da calçada.

— Remuneração: Pagamento adiantado equivalente a R$ 50.000,00. Recursos e custos de viagem inclusos. Contrato de longa duração.

Cinquenta mil reais. Adiantados. Era o equivalente a quase três anos inteiros de bicos, daqueles que mal davam para sobreviver. Dinheiro para pagar dívidas, ajudar meus pais que sempre me apoiaram mesmo com pouco, e talvez até sobrasse para investir em algo melhor.

Parecia bom demais para ser verdade — e provavelmente era. Pensei em golpes, esquemas pirâmide, ou algo pior. Todas as possibilidades ruins passaram pela minha cabeça enquanto encarava a tela. Deixei para lidar com isso quando chegasse em casa. Não podia ficar parado na rua carregando minha mochila de ferramentas.

Mal consegui esperar até chegar, tomar um banho rápido e trocar de roupa. Quando a curiosidade e o peso financeiro falaram mais alto, cliquei no anúncio.

Em vez de um formulário padrão, a tela escureceu por um instante, e um texto apareceu, como se alguém estivesse digitando em tempo real.

— Olá, Lúcio. Suas habilidades em diversos campos e seu perfil adaptativo foram identificados como compatíveis para uma vaga crítica em um de nossos projetos, que requer atenção especial. Interessado em uma entrevista?

Meu estômago embrulhou. Como sabiam meu nome? Isso cheirava a fraude digital, daquelas que pescam dados na internet.

— Como vocês me conhecem? — digitei, tentando soar firme.

A resposta veio na hora.

— Seu perfil público e histórico profissional foram analisados por nosso sistema. Sua experiência em resolução prática de problemas e criatividade em lidar com desafios estão registrados em bancos de dados acessíveis. Além disso, seu histórico militar indica capacidade de manter a calma sob pressão, o que é valioso para a posição.

Era plausível, de certa forma. Empresas de tecnologia faziam isso o tempo todo, vasculhando redes profissionais. E o dinheiro... ah, o dinheiro era tentador.

— Qual é o trabalho de verdade? — perguntei, cortando o papo furado.

— Facilitar a transição e implementação de soluções em um novo ambiente cultural e operacional. Sua primeira tarefa seria assessorar na liberação de ativos locais críticos.

Palavras rebuscadas para algo ainda vago, mas "assessorar" eu entendia. Era basicamente o que eu fazia na vida: ouvir o problema de alguém e ajudar a consertar, fosse um telhado vazando ou uma entrega atrasada. E a menção ao histórico militar... talvez fosse algo mais sério do que eu imaginava.

— E o pagamento adiantado? Como isso funciona?

— Após assinar o contrato, a primeira metade será depositada em uma conta de sua escolha. Interessado?

Vinte e cinco mil reais logo de cara. Isso quitaria tudo: as contas atrasadas, o aluguel, e ainda sobraria para mandar algo para meus pais. O risco era alto, mas a vida que eu levava já era um risco constante. E se fosse real... se fosse real, era a chance que eu precisava.

O impulso tomou conta. Depois de anos lutando para me manter de pé, isso parecia uma chance real. Digitei:

— Estou dentro. O que preciso fazer agora?

A tela piscou, e um documento surgiu, com selos digitais dourados e termos complicados como "cláusulas de não interferência" e "ajuste de sincronização". Li por cima, focando no pagamento — que parecia legítimo — e ignorando as partes mais estranhas. Provavelmente era só jargão corporativo. Assinei digitalmente, com o coração acelerado.

Imediatamente, uma mensagem final apareceu:

— Contrato assinado. Preparando para Transferência. Obrigado por escolher a Lyvaria Soluções.

Lyvaria Soluções? Nunca ouvi falar. Mas antes que eu pudesse pesquisar, o ar no meu apartamento começou a vibrar. Um clarão âmbar, quente e pulsante, se expandiu da tela do celular, engolindo o quarto inteiro. Não era fogo, mas algo como o ar se desfazendo em partículas douradas.

— Que diabos é isso? — gritei, tentando recuar, mas já era tarde.

O mundo ao meu redor — as paredes descascadas, o cheiro de café velho, o barulho dos carros na rua — se dissolveu em um redemoinho de cores. Senti uma sensação de queda livre, não para baixo, mas para algum lugar além. Meu último pensamento foi que eu devia ter lido aquele contrato com mais calma. Seja o que Deus quiser.

---

Quando abri os olhos, eu estava em um espaço vasto e escuro, como o coração de uma noite sem fim. Estrelas distantes piscavam no vazio, algumas frias e isoladas, outras agrupadas em constelações que pareciam sussurrar segredos antigos. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo pulsar do meu próprio coração.

Diante de mim, flutuando no nada, havia duas poltronas modernas, de couro preto e design minimalista. Em uma delas, sentava-se uma figura que emanava uma presença ancestral, apesar da aparência atualizada. Ele usava um terno escuro sob medida, com linhas limpas. Seus cabelos pretos eram curtos e bem arrumados, e sua pele tinha um tom pálido, quase translúcido. Mas os olhos... os olhos eram poços infinitos de escuridão, com veios de sombra que se moviam como névoa primordial.

— Bem-vindo, Lúcio — sua voz ecoou na minha mente, suave e direta. — Vamos finalizar essa entrevista? Prometo que será rápida e clara.

Flutuei até a poltrona vazia, sentindo uma estranha calma se instalando. Meu corpo se ajustou ao assento como se fosse feito para mim. A situação era surreal, mas algo nele transmitia seriedade e propósito.

— Prazer — respondi, me acomodando. — E você é...?

— Pode me chamar de Érebo — ele disse, com um leve aceno de cabeça. — Sou o responsável pela supervisão e proteção deste planeta e de todo o sistema solar ao qual ele pertence. O nome pode soar familiar em algumas lendas antigas da humanidade. Fui eu quem autorizou seu recrutamento. Seu perfil foi considerado adequado para a função.

Érebo. A personificação primordial da escuridão na mitologia grega. Mas ali, ele parecia mais um diretor executivo explicando um projeto do que uma divindade antiga. Isso tornava tudo um pouco menos fantasioso e mais... administrável.

— Entendi — falei, ainda processando. — Então, qual é o meu papel nisso tudo? O anúncio falava em consultoria, mas imagino que seja mais do que isso.

Ele se inclinou ligeiramente para frente, os olhos sombrios fixos nos meus.

— Lyvaria, o mundo que supervisiono, está à beira de uma crise. Em quinze anos, se nada for feito, ele entrará em colapso. Preciso de você para coletar informações, identificar os focos iniciais dessa desestabilização e resolvê-los antes que escalem. É um trabalho de prevenção. Discreto e eficiente.

— Quinze anos para o fim do mundo? — perguntei, processando rápido. — Faz sentido contratar alguém de fora. Principalmente se a equipe interna não conseguiu lidar. E eu seria a pessoa para consertar esses "focos"?

— Exato — ele confirmou, sem rodeios. — Sua experiência em resolver problemas práticos, adaptando-se a situações variadas, torna você adequado. Não vamos nos aprofundar na causa raiz agora; foque no que você pode fazer: mapear pontos de falha, aplicar soluções e reportar. É como consertar uma estrutura antes que desabe. Só que em escala maior, mantendo discrição.

A conversa fluía de forma lógica, quase técnica. Eu entendia o ponto — evitar o caos sem chamar atenção. Parecia um plano de contingência.

— E o suporte? — indaguei. — Ferramentas, orientação?

— Seu celular já está adaptado — respondeu, e o aparelho flutuou entre nós, com um símbolo prateado brilhando na tela. — Há recursos extras na mochila. Aprendizado na prática, como você está acostumado. Sua missão principal será libertar oito dos doze deuses do panteão de Lyvaria. Eles foram selados por entidades hostis, e sem eles, o equilíbrio se perde. É a prioridade.

— Libertar deuses? — repeti, analisando a tarefa. Soava como uma operação de resgate em grande escala. — Entendo. Evitar o colapso restaurando as funções deles. Faz sentido, se eles são essenciais para a estabilidade.

Ele assentiu, satisfeito com minha compreensão.

— Exatamente. No entanto, preciso esclarecer alguns pontos importantes antes de sua partida.

Fiquei em silêncio, esperando.

— Primeiro: o risco de morte é real. Lyvaria não é um destino turístico. Haverá perigos, conflitos e situações onde sua vida estará em jogo. É justo que você saiba disso antes de aceitar definitivamente.

Respirei fundo. Não era novidade para mim. Três anos como fuzileiro me ensinaram a conviver com esse tipo de realidade.

— Entendi. E se eu morrer lá? O que acontece com o pagamento?

Érebo inclinou a cabeça, como se aquela pergunta fosse sensata.

— Se isso ocorrer, todo o valor correspondente ao tempo trabalhado será enviado à sua família, junto com seu corpo, que será devolvido ao seu mundo para que possam realizar o funeral adequadamente. É o mínimo que posso garantir.

Aquilo me pegou desprevenido. Não era só uma questão de dinheiro — era a dignidade de voltar para casa, de não desaparecer no nada e deixar meus pais sem respostas. Soltei o ar devagar.

— Obrigado. Isso... significa muito.

— Há outro ponto importante — continuou Érebo, com a mesma compostura. — Você não será o único invocado. Outros catorze foram contratados por entidades semelhantes, cada um com suas próprias missões e interesses. Alguns podem se tornar aliados. Outros... não.

— Concorrência — resumi.

— Algo além disso. Já houve casos, no passado, de pessoas de outros mundos que causaram grandes desastres em Lyvaria. Indivíduos que, por ambição ou ignorância, desestabilizaram reinos inteiros. Foram detidos, eventualmente — por outros invocados, na maioria das vezes — mas o custo foi alto. Por isso, recomendo cautela. Evite expor sua identidade como alguém de outro mundo. Não sabemos, inicialmente, quem é aliado e quem se tornará um problema.

Processei a informação. Fazia sentido. Em qualquer ambiente novo, você não sai contando sua história para o primeiro que aparece. Aprendi isso nos primeiros dias de quartel.

— Entendido. Disciplina de informação. Não saio por aí falando que vim de outro mundo.

— Precisamente — Érebo concordou. — Agora, sobre o pagamento...

— Antes — interrompi, educadamente —, tem uma coisa.

Ele esperou.

— Meus pais. Eles vão se preocupar se eu simplesmente sumir.

— Compreendo sua preocupação. Quando a transferência for realizada, seus pais receberão uma mensagem por meio de um intermediário especializado na Terra. Será comunicado que você foi contratado para um projeto internacional de longa duração, com remuneração adequada. Isso manterá a discrição e evitará alarmes.

Aquilo me aliviou um pouco. Pelo menos eles não ficariam no escuro.

— E sobre o pagamento adiantado? Pode descontar o valor das minhas dívidas pendentes? O resto, use para quitar a dívida do carro do meu pai — ele trabalha como motorista de aplicativo, e isso ajudaria muito.

— Os termos serão atendidos — respondeu Érebo, com eficiência. — O ajuste será processado imediatamente. Há mais algum pedido antes da transferência?

Pensei por um segundo.

— Sim. Deixe uma mensagem para eles. Algo como uma despedida. Diga que vou ficar longe por um longo período, mas que estou bem e que isso é uma grande oportunidade. Que eu amo eles e volto quando puder.

— Será feito conforme solicitado — confirmou Érebo, sem hesitar. — A mensagem será entregue de forma apropriada.

Com isso resolvido, respirei fundo.

— Só mais uma coisa. Se eu morrer lá... você garante que meu corpo volta? Que eles vão poder me enterrar?

Érebo me encarou por um momento, e pela primeira vez notei algo quase humano em seus olhos de sombra.

— Garanto. Você não desaparecerá sem deixar rastros. Sua família terá respostas e um corpo para velar. É um compromisso que assumo com todos os que envio para Lyvaria.

Agradeci com um aceno. Não havia muito mais o que dizer.

— Aceito.

Tudo começou a se dissolver em névoa estelar.

— Boa sorte, Lúcio. O trabalho começa agora.

---

Aterrissei suavemente na grama úmida, o ar carregado com o cheiro de terra molhada e pinheiros. Estava à beira de uma floresta densa, com árvores imponentes que se erguiam como sentinelas. O céu acima era de um azul vibrante, e o sol filtrava raios dourados através das copas. Tudo parecia mais vivo, mais real do que qualquer floresta que eu conhecia — como se cada folha e pedra pulsasse com energia.

Meu corpo se sentia renovado, mais leve. Olhei para as mãos: mais jovens, sem as calosidades de anos de trabalho manual.

— Status — murmurei, por instinto.

Um painel azul translúcido surgiu no ar:

___

[ JANELA DE STATUS ]

Nome: Lúcio

Idade: 15 anos

Nível: 1

Pontos de Conquista: 20

Título: Azarado Sortudo

___

SAÚDE:

Saúde: 100/100

Mana: 130/130

Vigor: 70/70

___

ATRIBUTOS:

Força: 12

Inteligência: 16

Destreza: 8

Agilidade: 7

Vitalidade: 11

Sorte: 70

___

HABILIDADES:

Aprender Rápido

Reforço de Habilidades

Bônus de Crescimento

___

Condição: Nenhuma

___

O celular vibrou. Agora com uma capa metálica iridescente, o símbolo de Érebo pulsava na tela.

___

[Mensagem]

De: Érebo

Assunto: Recursos e Orientações Iniciais

O pagamento foi depositado na conta de seu pai. Uma mensagem da empresa informando sua viagem de trabalho foi enviada. As dívidas foram quitadas, incluindo o carro. Todo final de mês, o pagamento será depositado em uma conta pessoal sua.

A mochila foi atualizada com itens essenciais. Alguns foram aprimorados para elevar suas chances de sobrevivência.

Os atributos básicos são os mesmos do seu perfil original, inclusive a Sorte alta.

Lembre-se: cautela com outros invocados. Nem todos serão amigos. Boa sorte na missão.

___

Abri a mochila: ferramentas antigas misturadas a itens novos. Um par de óculos com armação metálica escura e um manual de capa negra. Coloquei os óculos — o mundo ganhou nitidez extra, com textos azuis na visão: [Óculos da Percepção - Identificação Básica | Visão Noturna Ativada].

Peguei a faca velha: agora com lâmina escura e afiada. [Faca de Carniceiro Afiada | Atributo: Corte Preciso].

— Obrigado pelo upgrade, Érebo — murmurei, com um sorriso cauteloso. — Vai ser útil.

No aplicativo do banco, o saldo mostrava os ajustes: dívidas zeradas, e o valor restante direcionado como pedi. Pelo menos meus pais teriam um alívio — o carro quitado ajudaria meu pai a trabalhar sem tanta pressão.

Lembrei da conversa com Érebo, da garantia de que eles receberiam a mensagem sobre minha "contratação no exterior". E da promessa sobre o corpo, se tudo desse errado. Aquilo me deu uma paz estranha, um tipo de aceitação. Saber que, independente do que acontecesse, eles não ficariam sem respostas.

Respirei fundo. O ar de Lyvaria era revigorante. Tinha um contrato, salário garantido e uma missão clara: resolver problemas, libertar deuses, evitar um colapso. E agora, um aviso claro: outros como eu por aí, e nem todos do meu lado.

Realista? Nem um pouco. Mas tinha lógica, estrutura e um propósito. Era um trabalho, só que em escala cósmica.

— Vamos nessa — disse para mim mesmo, ajustando a mochila. — Primeiro, sair dessa floresta sem virar jantar de alguma criatura. Depois, descobrir quem é aliado e quem é problema.

Peguei o caminho que parecia mais rápido, seguindo o mapa do meu celular. Érebo, obrigado por modificar isso para funcionar nesse mundo. Tô empolgado pra descobrir tudo que puder daqui. Mas primeiro, vou sair dessa floresta antes que alguma coisa estranha apareça e acabe com meu dia.

Seja o que Deus quiser.

Braficio
Author: