Chapter 2:
Lyvaria: Aventura Em Outro Mundo
O ar na Grande Floresta de Monstros era pesado, daqueles que grudam na garganta. Um cheiro forte de terra molhada, folha apodrecida e um ranço de animal selvagem, como se o mato tivesse suado. Cada passo meu ecoava na quietude, rangendo no tapete de folhas secas e galhos caídos, como se estivesse anunciando onde eu estava. Seguia o mapa no celular, mas minha atenção não parava quieta — ficava dividida entre a tela piscando e as sombras que dançavam entre as árvores.
E que árvores, meu Deus. Pareciam colunas de um templo antigo, tão largas que três caras não dariam conta de abraçar. Os galhos lá em cima se entrelaçavam feito um teto vivo, transformando o sol do meio-dia num crepúsculo constante. Nunca tinha visto nada assim no Brasil — nas serras, o mato era alto, mas não assim. Aqui parecia que a floresta estava viva, e observando.
Puxei o celular do bolso para checar o mapa mais uma vez, mas acabei distraído pela janela de status que ainda estava aberta. Meus olhos bateram nos 20 Pontos de Conquista ali, parados, esperando. Desde que cheguei, não tinha parado pra pensar direito no que significavam. Só sabia que serviam pra melhorar os atributos.
— Vinte pontos... — murmurei, franzindo a testa. — Por que eu comecei com vinte? Não era pra ser nível 1, zerado?
Uma curiosidade incômoda se instalou. Toquei no ícone de ajuda no canto da tela, mas só abriu um manual genérico. Respirei fundo e fiz o que parecia mais óbvio: mandei uma mensagem direta pra Érebo.
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[Mensagem enviada]
Para: Érebo
Assunto: Dúvida sobre Pontos de Conquista
Sobre os 20 Pontos de Conquista iniciais. É algum bônus? E por que minha Sorte é 70? Porque, honestamente, com todo respeito, minha vida até agora não foi exatamente uma maré de sorte não.
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Fiquei olhando pra tela por uns minutos, esperando. A floreta ao redor continuava seu silêncio tenso. Quando já ia guardar o celular, ele vibrou.
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[Mensagem recebida]
De: Érebo
Assunto: Re: Dúvida sobre Pontos de Conquista
Lúcio,
Os 20 Pontos de Conquista iniciais são a conversão de sua experiência de vida acumulada até o momento do contrato. Cada desafio superado, cada adaptação forçada, cada conhecimento adquirido na prática — tudo isso foi processado e convertido em potencial de evolução. Pense como uma "bagagem" que você carrega, agora tornada utilizável.
Quanto à Sorte: o valor 70 não é arbitrário. Em seu mundo, você passou por situações que poderiam ter sido fatais ou devastadoras, mas encontrou saídas. Lembra-se do desabamento do andaime na obra da Serra? Do motor que fundiu no meio da estrada e você conseguiu improvisar um reparo com peças incompatíveis? Da abordagem durante o serviço militar que poderia ter terminado em baixa? Em todas essas ocasiões, a Sorte atuou não para evitar o problema, mas para garantir que, mesmo encurralado, houvesse uma brecha — e você, com sua capacidade de adaptação, a aproveitou.
Sorte, aqui, não é ausência de dificuldade. É a probabilidade de que, quando todas as opções parecerem esgotadas, uma janela se abra. Você a aproveita ou não, depende de você. Mas a janela existe.
Os 70 pontos refletem esse histórico.
— Érebo
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Fiquei paralisado, o celular tremendo levemente na mão. As lembranças vieram em avalanche: o andaime que rangeu e desabou a menos de um metro de mim, eu congelado no canto, o capacete salvo por um triz; a Kombi do meu tio que morreu no meio da BR e eu, sem ferramentas, usando um cinto e um pedaço de arame pra prender a mangueira estourada; e a noite no serviço, quando a patrulha caiu numa emboscada e eu, instintivamente, gritei pra todo mundo deitar segundos antes dos tiros. Na época, jurava que era só instinto, reflexo. Será que teve algo a mais?
— Caramba... — suspirei, guardando o celular. — Então a vida toda eu tive uma sorte doida e nem sabia.
A sensação era estranha, meio desconfortável. Sempre me considerei um azarado sortudo, como o título dizia. Agora parecia que o universo tava me dando um tapinha nas costas, dizendo: "Não, você só não percebeu".
De qualquer forma, não dava pra ficar filosofando. A floresta não esperava. Continuei andando, mas agora com um olhar diferente pros meus arredores. A sorte podia me dar janelas, mas eu precisava estar pronto pra passar por elas.
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Uns vinte minutos depois, um grunhido baixo e gutural interrompeu meus pensamentos, seguido por um som de rasgo úmido. Parei no lugar, o coração disparou na hora. Uma onda de adrenalina subiu das pernas até a nuca. Minha mão voou para o cabo da faca na cintura, os dedos fechando com força enquanto tentava entender de onde vinha o barulho. Vinha de trás de uma cortina de samambaias à frente, folhas largas tremendo sutilmente.
Com o pulso latejando no ouvido, guardei o celular no bolso e me agachei, me movendo com a cautela de quem pisava em vidro. Meu corpo estava tenso, pronto pra correr ou brigar — não sabia ainda. Mas a mente, aquela que três anos de fuzileiro tinham forjado, já começava a traçar cenários: distância, ângulo de ataque, possíveis rotas de fuga, terreno.
Espiei pelas folhas. A criatura era pequena, não maior que uma criança magra de uns dez anos. A pele era verde-acinzentada, e os membros finos pareciam gravetos secos. Ela estava agachada sobre uma carcaça meio decomposta de algum bicho que eu nem reconheceria mais, arrancando pedaços de carne podre com uns dentes amarelos e pontudos. Usava uns trapos imundos que mal cobriam o corpo, e nas mãos ossudas segurava uma lança tosca — uma pedra lascada amarrada a um galho torto.
Antes que eu conseguisse recuar, uma brisa passou e levou meu cheiro direto pra ela. O bichinho farejou o ar com força, as narinas dilatadas, e seus olhinhos pretos se arregalaram. Ele me viu. Num grunhido rouco, quase um rosnado, apontou a lança na minha direção e partiu pra cima.
— Droga… — saiu da minha boca, quase um sopro.
Não deu tempo de pensar em fugir. O goblin veio rápido, a lança mirando meu peito. O medo apertou forte, mas algo dentro de mim — os anos de aperto, cliente gritando, obra quase desabando, aquele sufoco na emboscada — se transformou em foco bruto. Ele é rápido, mas previsível, pensei. A lança vinha em linha reta, sem variação. Esperei até o último segundo, sentindo o deslocamento de ar da ponta da lança, e dei um salto pro lado, rolando no chão de folhas.
Ele passou reto, desequilibrou por um instante, os olhos piscando confusos. Foi a brecha. Mas em vez de avançar direto, like um novato, fiz o oposto: recuei meio passo, criando distância. O goblin se virou, bufando, e atacou de novo, ainda mais furioso. Dessa vez, quando a lança veio, eu não desviei totalmente — deixei ela passar rente ao meu ombro, e no movimento, agarrei o cabo com a mão esquerda, puxando o bicho pra frente. Ele tropeçou, caiu de joelhos. Antes que pudesse se levantar, cravei a faca na nuca. O corpo deu um espasmo e ficou imóvel.
Fiquei ali por uns segundos, ofegante, o alívio misturado a um nojo frio na barriga. Tática básica: usar o impulso do oponente contra ele. Funcionou.
— Ainda bem que tava sozinho… — murmurei, sentindo o corpo tremer pós-adrenalina. — Se viesse dois, tava feito.
Revistei o corpo com as mãos ainda trêmulas. Duas moedas de bronze enferrujadas e a lança quebrada. Nada mais. O manual não mentia: bicho fraco não dá tesouro.
Continuei caminhando em direção ao rio que estava marcado no mapa, mas a floresta parecia ter mudado de clima. O silêncio agora era pesado, carregado, como se o ar estivesse esperando algo acontecer. Foi quando um cheiro forte me atingiu — adocicado, nojento, como carne estragada misturada a suor velho. Parei de repente. Algo grande estava perto. Virei devagar, o coração de novo acelerado.
À minha direita, meio escondido na vegetação, tinha um goblin maior. Quase do meu tamanho, pele verde-escura e musculatura definida. Os olhos eram amarelos e brilhavam com uma inteligência perversa. Na mão, segurava uma espada de verdade, bem cuidada, que reluzia na luz fraca. Ele usava uma armadura improvisada de couro endurecido e ossos, parecendo um guerreiro de fato.
Os óculos da percepção piscaram uma informação no canto da visão:
[Hobgoblin – Nível 9 | Ameaça Moderada]
— Merda — sussurrei, o estômago gelando.
Ele não grunhiu, não hesitou — simplesmente atacou. O pânico explodiu dentro de mim. Ergui a lança de pedra que tinha pegado antes para bloquear, mas a espada dele cortou o madeiro ao meio como se fosse palito. Só um salto desesperado pra trás me salvou de ser cortado ao meio, mas a ponta da lâmina raspou meu ombro, deixando um corte quente e profundo.
— Droga! — grunhi, a dor latejante subindo pelo braço.
Ele veio de novo, numa sequência de golpes brutais, sem técnica refinada, mas com uma força selvagem. Eu desviava por milímetros, sentindo o vento da espada passar rente à pele. A mente de fuzileiro voltou a funcionar: Ele é mais forte, mais armado, mas parece confiar só na força. Se eu conseguir desequilibrar, imobilizar...
Lembrei de uma vez na Serra, encurralado por javalis. Tinha escapado com uma corda velha e uma armadilha feita na hora. A memória me deu um fio de esperança. Varri o chão com os olhos enquanto recuava: raízes, pedras, um tronco caído. Nada que servisse como armadilha imediata. Mas vi uma árvore robusta perto, com o tronco largo e uma fenda na altura da cintura.
Comecei a conduzir ele pra lá, me movendo em zigue-zague, provocando com esquivas curtas. O hobgoblin, tomado pela fúria, investia a cada passo, a espada cortando o ar. Quando chegamos perto da árvore, fingi que tropeçava numa raiz, caindo de joelhos. Ele não pensou duas vezes: ergueu a espada com as duas mãos pra desferir um golpe descendente que ia me partir ao meio.
Na hora certa, rolei pro lado. A espada cravou fundo na fenda do tronco, presa. Ele rugiu de frustração, puxando com força, mas a lâmina não saía.
Aproveitei o segundo: enfiei o que restava da lança quebrada no pescoço exposto dele. A ponta de madeira entrou, mas não fundo o bastante. Sangue jorrou, mas ele ainda estava de pé. Soltou a espada, as mãos voando para o ferimento, rugindo de dor. Me joguei por trás, puxando a faca de carniceiro, e enterrei na altura do fígado, torcendo a lâmina antes de saltar pra longe.
Ele não caiu. Virou pra mim, os olhos injetados de ódio, e atacou com as mãos nuas, tentando me agarrar. Cada movimento que eu desviava me dava um calafrio, mas notei que ele estava mais lento, mais pesado, o sangue escorrendo sem parar. A ficha caiu: Ele tá morrendo, mas ainda é perigoso. Não posso vacilar.
Continuei recuando, deixando ele gastar o que restava de energia. Quando ele tropeçou nos próprios pés e caiu de joelhos, não pensei duas vezes: avancei e dei um corte profundo no pescoço, quase decapitando. O corpo tombou de vez.
Eu caí de joelhos ao lado, ofegante, o mundo girando um pouco. Alívio e horror numa mistura azeda. Olhei pro corpo, pra espada ainda cravada na árvore, pro sangue no chão. Tinha sido por pouco. Muito pouco.
— Caralho... — foi tudo o que consegui dizer.
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O resto do dia foi mais do mesmo, seguindo o rio. Encontrei outros goblins, mas vinham sozinhos. Cada luta foi ficando mais natural, meu corpo parecia estar aprendendo na marra, os movimentos fluíam melhor, como se algo dentro de mim estivesse se ajustando. Mas o medo de encontrar um grupo nunca saía — a apreensão era constante.
Quando a noite começou a cair, estava exausto, coberto de sangue seco, suor e terra grudenta. Subi numa árvore usando uma corda que achei num dos goblins, amarrando-me a um galho grosso pra não cair durante o sono. Bebi um gole de água morna da garrafa e, por curiosidade e necessidade, abri a janela de Status.
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[ JANELA DE STATUS ]
Nome: Lúcio
Idade: 15 anos
Nível: 8
Pontos de Conquista: 34
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Título:
Azarado Sortudo
Matador de Goblins
Quebrando Limites
SAÚDE:
Saúde: 189/200
Mana: 230/230
Vigor: 87/200
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ATRIBUTOS:
Força: 24
Inteligência: 23
Destreza: 15
Agilidade: 24
Vitalidade: 23
Sorte: 70
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HABILIDADES:
Aprender Rápido
Reforço de Habilidades
Bônus de Crescimento
Defesa (Nv. 1)
Espadachim Iniciante (Nv. 2)
Lanceiro Iniciante (Nv. 1)
Redução de Dor (Nv. 1)
Culinária de Campo (Nv. 2)
Desmontar (Nv. 2)
Impulso de Velocidade (Nv. 1)
Concentração Extra (Nv. 1)
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Condição: cansado, fome leve
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Depois daquele dia e daquela luta quase fatal com o hobgoblin, percebi que não podia confiar só no que estava escrito ali. Tinha subido 7 níveis em menos de um dia, o que era absurdo, mas também mostrava que o perigo era real pra caramba. Decidi que meus atributos chave agora seriam Força, Agilidade e Vitalidade — Inteligência já tava alta por causa da bagagem de vida, e Destreza era importante, mas velocidade e resistência vinham primeiro.
Antes de gastar meus Pontos de Conquista, resolvi testar como meus atributos atuais funcionavam na prática. Para Agilidade: balancei a espada no ar. Dava pra ver que era rápido, mas sentia um delayzinho nos reflexos, como se o corpo demorasse um tiquinho pra responder. Cortei um galho fino próximo — levei dois golpes pra derrubar. Fluido, mas não instantâneo.
Para Força: golpeei um galho mais grosso, da espessura do meu braço. A espada entrou até a metade, e precisei fazer força pra puxar de volta. Senti a resistência da madeira, os músculos do braço reclamando.
Para Vitalidade: examinei o corte no ombro — ainda doía e sangrava um pouco. Nada de cicatrização rápida. Me sentia cansado, a recuperação era normal, de adolescente mesmo.
Agora, a alocação: coloquei 10 pontos em Agilidade (foi de 14 pra 24), 5 em Força (de 19 pra 24), 5 em Vitalidade (de 18 pra 23). Sobraram 14 pontos, que deixei guardados pra uma emergência.
Fui testar de novo. Com Agilidade em 24, balancei a espada — agora era nitidamente mais rápido, os movimentos mais soltos, como se o ar oferecesse menos resistência. Cortei o mesmo tipo de galho fino com um único golpe limpo. A diferença era palpável, quase como trocar uma faca cega por uma afiada.
Com Força em 24: golpeei outro galho grosso — antes a lâmina entrava pela metade, agora cortava dois terços ou mais, com bem menos esforço. Dava pra sentir a potência extra nos braços.
Com Vitalidade em 23: o corte no ombro formigou, fechando visivelmente mais rápido, a dor diminuindo. O cansaço do dia também parecia ter aliviado um pouco, como se eu tivesse tomado um energético. Fiquei pensando se Vitalidade melhorava não só a saúde, mas a resistência a cansaço e talvez até a venenos. Precisaria observar.
Olhando os números atualizados, uma parte de mim — a que cresceu lendo mangá e jogando RPG — ficou empolgada. Era real, eu estava mais forte, mais rápido, mais resistente. A outra parte, a que sentia cada músculo dolorido e cada corte, lembrava que isso aqui não era jogo, era vida ou morte. Mas pelo menos agora me sentia um pouco mais preparado.
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No dia seguinte, usando os Óculos da Percepção, achei umas plantas esquisitas e uns cogumelos de cor estranha. Seguindo as instruções confusas do manual, fiz uma pasta grossa e escura, e com muito cuidado passei no fio da espada. Agora ela estava envenenada. Sabia que precisava ter cuidado redobrado — um corte acidental em mim mesmo seria desastroso.
Por enquanto, estou mais forte, mais rápido e mais resistente. Tomara que esses upgrades façam diferença de verdade lá na frente.
O céu começava a clarear entre as copas. Respirei fundo, sentindo o cheiro de terra e a brisa fresca. A floresta ainda era perigosa, mas eu já não era mais o mesmo cara que caiu nela dois dias atrás.
— Vamo que vamo — murmurei, descendo da árvore com cuidado. — Se a sorte é minha aliada, vou fazer por onde merecer ela.
Ajustei a mochila, verifiquei a espada envenenada e segui em frente, pronto pro que viesse. Espero que nada de pior aconteça, claro.
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