Chapter 4:
Lyvaria: Aventura Em Outro Mundo
Acordei com os primeiros raios de sol filtrando pelas cortinas finas da janela do quarto. Meu corpo ainda doía dos dias na floresta, mas o sono em uma cama decente — macia o suficiente para não parecer uma tábua — tinha feito uma diferença absurda. "Finalmente uma noite sem me preocupar com goblins ou lobos rondando", pensei, esticando os músculos com cuidado para não forçar nada. O quarto era simples, com uma cama, uma mesa pequena e uma cadeira, mas limpo e seguro, o que já era mais do que eu esperava.
Tomei um banho na banheira do banheiro. Algo que realmente chamou minha atenção foi que usam um tipo de pedra de fogo para aquecer a água. Segundo as instruções na parede, você precisa esfregar elas, fazendo cair a poeira, que vai aquecer a água. "Que criatividade", pensei, observando a poeira brilhante caindo e a água começando a aquecer. Graças a isso, pude ter um banho quente — de verdade, não aquele banho morno em rio gelado — que revigorou meu corpo depois de dias passando frio na floresta. Senti os músculos relaxarem pela primeira vez em uma semana, e quase adormeci dentro da banheira.
Depois do banho, vesti as roupas que usava quando fui chamado para esse mundo: calça jeans, camisa vermelha, casaco fino e botas de obra. Sabia que não eram as roupas mais adequadas para o clima, mas pretendo comprar roupas novas logo. Não quero ficar com apenas duas mudas de roupas, sendo uma mais próxima adequada para esse clima frio, porém sem nenhuma defesa prática, exceto o fato de resistir facilmente a cortes, por ser de bom material.
Ao sair da estalagem, pude sentir o vento frio na pele, me fazendo ter certeza de comprar roupas para frio adequadas. Além das roupas, talvez eu precise passar em um barbeiro. Meu cabelo já está cobrindo quase todo meu rosto se deixar como está. "Pareço um náufrago", murmurei, passando a mão pelo cabelo despenteado.
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Caminhando pelas ruas de Micenas, calculei mentalmente o dinheiro que tinha acumulado em tão pouco tempo. "Dezessete pequenas de ouro do negócio com Borin, mais as pratas do posto da guarda e as moedas dos goblins... não é uma fortuna, mas dá para respirar por um tempo". Quem diria que quase ter morrido algumas vezes naquela floresta me fez colocar a mão em uma pequena fortuna? "Mas não posso me deixar levar com essa pequena vantagem", alertei a mim mesmo. "Uma moeda gasta rápido se você não souber o que está fazendo."
Encontrei um banco de pedra afastado do fluxo principal de pessoas e sentei, aliviando os pés que ainda protestavam. O frio da pedra penetrou pela calça, mas era melhor do que ficar em pé o tempo todo. Antes de ir para a guilda, precisava me organizar um pouco. Abri a mochila e examinei os três núcleos mágicos. O do hobgoblin era do tamanho de um pêssego, com uma tonalidade mais escura e opaca, como se carregasse a essência da bruteza daqueles monstros. "Parece pesado demais para seu tamanho", pensei, virando-o na luz.
Os dos coelhos chifrudos eram menores, como ameixas, com um tom roxo mais claro que quase parecia translúcido se você olhasse contra a luz. O chifre que guardei — quase meio metro de osso curvado e naturalmente afiado — parecia quase comum em comparação, mas eu sabia que valia algo. "Três núcleos, três possibilidades... mas quais exatamente?", ponderei, virando um deles na mão como se fosse um quebra-cabeça.
Peguei o guia de Érebo da mochila. As páginas se reorganizaram sob meus dedos, como se o livro soubesse o que eu procurava, mostrando informações sobre núcleos mágicos.
"Núcleos mágicos de monstros possuem habilidades que variam de espécie para espécie. Cada monstro pode ter um núcleo com diferentes tipos de habilidades, dependendo de sua natureza e ambiente."
Franzi a testa. "Claro que é vago assim. Érebo adora deixar as respostas em aberto para eu descobrir sozinho." O texto era intencionalmente vago, como se quisesse me forçar a descobrir por conta própria. "O do hobgoblin poderia ter algo de força bruta ou aquela resistência anormal quando tentei cortá-lo — a pele era dura, exigindo muito esforço para cortar. Os dos coelhos... bem, aquela investida perfurante era impressionante." Lembrei do que meus óculos haviam mostrado durante o combate: [Investida Perfurante] — um ataque carregado que ignora parte da defesa. "Quanto ao chifre, o guia menciona que materiais de criaturas mágicas podem ser usados em armas, armaduras ou até poções."
"Vender tudo seria o mais seguro se quero ter dinheiro... mas sinto como se fosse um desperdício me ligar de tudo.", questionei internamente. Era um risco calculado. Como saber sem usar? O guia não explicava como identificar habilidades latentes. "Preciso encontrar alguém que entenda disso... mas confiar em estranhos?" Meu lado mais desconfiado alertava: "Qualquer um pode tentar te enganar, como quase aconteceu com Borin."
Guardei os itens com cuidado extra, decidindo mantê-los por enquanto. "Melhor esperar e aprender mais antes de decidir. Primeiro descubro seu valor real, depois penso se uso ou vendo." Levantei-me com um suspiro, sentindo o peso dos dias na floresta em cada músculo, mas motivado pela perspectiva de progresso.
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Antes de seguir para a guilda, percebi que minhas roupas da Terra estavam chamando atenção demais — jeans e camisa vermelha não se encaixavam no estilo local, e eu precisava de algo mais prático para me misturar e proteger melhor. "Não posso entrar na guilda parecendo um forasteiro total; melhor investir em equipamentos decentes agora", pensei, avistando uma loja de armaduras e roupas de viagem, com uma placa de madeira entalhada que mostrava uma silhueta de aventureiro.
Entrei na loja, o sino na porta tilintando suavemente. O interior era iluminado por lâmpadas mágicas que emitiam uma luz amarelada confortável, e prateleiras lotadas de roupas e armaduras de tecido — muito mais do que esperava em um único lugar. Provavelmente sendo o dono, atrás do balcão, me cumprimentou com um aceno casual.
— Bom dia, forasteiro. Procurando algo específico? — perguntou, avaliando minha aparência com um olhar experiente que parecia catalogar cada detalhe de minhas roupas gastas.
— Sim, preciso de roupas mais adequadas para esse clima frio e que tenham boa defesa. Algo resistente, mas que não impeça minha mobilidade. E talvez uma armadura leve para proteção básica — respondi, olhando as opções nas prateleiras com interesse genuíno.
Ele assentiu, puxando algumas peças com a prática de quem faz isso todos os dias.
— Essas roupas aqui são comuns para iniciantes: calça de tecido reforçado, camisa de linho grosso tingida de verde escuro para camuflagem em florestas, botas de sola dura para terrenos irregulares e um casaco com capuz para o frio. Vêm com bolsos internos para itens pequenos — explicou, estendendo cada peça para eu examinar.
Provei as peças — a calça jeans foi trocada por uma de tecido grosso que se ajustava bem, a camisa vermelha manchada deu lugar a uma nova de tom similar mas muito mais resistente, as botas de obra foram substituídas por umas de couro tratado que pareciam feitas para longas caminhadas, e o casaco velho foi atualizado para um com forro interno e capuz que realmente bloqueava o vento. "Isso deve resolver o problema do frio", pensei, olhando-me no espelho da loja. Meu perfil físico — altura média, constituição atlética de anos de trabalhos manuais — combinava bem com o novo visual, e o cabelo castanho médio agora parecia menos bagunçado por causa do capuz. "Pareço um aventureiro de verdade agora, não um náufrago."
— Quanto por tudo? — perguntei, satisfeito com o conjunto.
— Duas pratas — respondeu ele, e eu paguei satisfeito, pensando que foi mais barato que esperava. "Que sorte; em Porto Alegre isso custaria o dobro."
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Agora com uma espada decente presa à cintura, dinheiro suficiente no bolso e roupas que eram mais adequadas, me senti como um protagonista que é invocado para outro mundo. Depois de alguns minutos pensando em besteira — tipo, quando é que um cara de Porto Alegre vira aventureiro de verdade? —, segui em direção à guilda.
As ruas de Micenas fervilhavam de vida. Carroças puxadas por lagartos de crina dourada rangiam sobre os paralelepípedos irregulares, levantando nuvens de poeira fina que grudavam na garganta. O sol da manhã já esquentava, mas o vento que vinha do oceano trazia uma brisa salgada que aliviava um pouco. Senti a sola das botas novas protestando — ainda duras, precisando de amaciamento. "Vai ser um bom par de calos até elas se ajustarem", pensei, ajustando o passo.
No caminho, passei por uma carroça a vapor estacionada, seu motor soltando baforadas brancas com um som rítmico de pistão. O maquinista, um anão com macacão sujo de graxa, gritava algo para um entregador sobre "válvula de pressão". "Engenharia a vapor num mundo de magia", refleti, fascinado. "Que mistura doida."
Foi então que ouvi uma voz cansada:
— Ô, jovem! Dá uma força aqui?
Um mercador idoso, sentado na lateral de sua carroça, segurava uma roda que parecia ter se soltado do eixo. Ele me olhou com uma mistura de esperança e desconfiança, avaliando se eu era do tipo que ajuda ou que passa reto.
Parei instintivamente. Anos de obra e bicos me ensinaram que ajuda mútua é moeda corrente em qualquer lugar.
— O que houve? — aproximei, agachando para examinar o problema.
— Eixo quebrou. Preciso levantar a roda pra encaixar de novo, mas sozinho não consigo — explicou, apontando para a madeira rachada. — Se puder segurar aqui enquanto eu...
— Deixa comigo — interrompi, já posicionando os ombros sob a lateral da carroça. — Você empurra a roda de volta, eu seguro o peso.
Ele pareceu surpreso com minha disposição, mas não perdeu tempo. Enquanto eu levantava, sentindo a madeira pressionar meus ombros, ele manobrou a roda de volta ao lugar com a prática de quem já fez isso mil vezes. Em poucos minutos, o eixo estava encaixado e a carroça apoiada.
— Pronto! — ele exclamou, limpando as mãos na calça. — Obrigado, rapaz. Não são todos que param. — Seus olhos percorreram minha espada e roupas novas. — Aventureiro iniciante?
— Ainda não oficial — admiti. — Tô indo me registrar agora.
Ele riu, um som rouco e amigável.
— Então vai ouvir muito conselho hoje. Meu conselho é: confie no seu taco, mas não seja burro. Já vi muito novato morrer por querer provar algo. — Ele montou na carroça e puxou as rédeas. — Sorte aí, guri!
Agradeci com um aceno, e ele partiu, a carroça rangendo mas firme. "Primeiro conselho gratuito do dia", pensei. "E veio de um mercador, não de um aventureiro."
Continuei andando, e alguns minutos depois avistei um grupo sentado à beira de uma fonte. Dois homens e uma mulher, todos com equipamentos gastos mas bem cuidados, compartilhavam um pedaço de pão e conversavam em voz baixa. Um deles, um homem moreno com uma cicatriz no braço, notou minha aproximação e acenou.
— Ei, novato! — chamou, com um sorriso que parecia mais cansado que ameaçador. — Vindo se registrar?
Parei, mantendo distância amigável.
— Isso mesmo. Primeira vez.
Ele apontou com o queixo para a direção que eu seguia.
— A guilda é reto, na praça central. Mas antes de entrar, deixa eu te dar um toque: não aceita o primeiro trabalho que te oferecerem sem perguntar os detalhes. Muita missão rank E é basicamente "vá morrer por dois cobres". — Os outros riram, mas não era uma risada maldosa. Era a risada de quem já aprendeu da pior forma.
— Agradeço a dica — falei, sincero. — E sobre os ranks... qual a diferença prática entre E e F?
A mulher do grupo, uma ruiva com uma adaga na cintura, respondeu:
— F é serviço de cidade: limpar esgoto, procurar gato perdido, ajudar em obra. Pagamento mixa, mas seguro. E é quando você começa a sair dos muros. — Ela me olhou com seriedade. — E aí a taxa de mortalidade sobe. Muita gente acha que matar um goblin é fácil. É, até eles virem em bando. Já viu um bando de doze?
Negativo. O máximo que enfrentei foram grupos de cinco ou seis.
— Pois é. Doze goblins com lanças cercam você, e mesmo rank D pode morrer se vacilar. — Ela partiu o pão e me ofereceu um pedaço. — Aceita?
— Obrigado — peguei o pão, ainda morno, e mordi. Era duro, meio amargo, mas comida de graça é comida de graça. — Então o segredo é não subestimar?
— Exato. — O homem da cicatriz assentiu. — Sobrevivência primeiro, lucro depois. E nunca, nunca confie cegamente em outro aventureiro até provarem que merecem. — Ele fez uma pausa. — E mais uma coisa: tem gente por aí que não é daqui. De outros mundos. Se encontrar alguém muito estranho, muito fora do padrão... cuidado.
Meu estômago deu um nó. "Outros mundos. Invocados. Ele sabe?" Mantive a expressão neutra.
— Por que o cuidado?
Ele deu de ombros.
— Já ouvi histórias. Uns são heróis, outros causam mais estrago que monstro. Dizem que um deles quase destruiu uma cidade inteira há uns anos. — Ele cuspiu no chão, como quem afasta mau agouro. — Então é isso. Fica esperto.
Agradeci novamente e me despedi, o pão ainda na mão. "Quase destruiu uma cidade", repeti mentalmente. "Érebo não exagerou quando disse pra ter cuidado."
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Faltando uma quadra para a praça central, avistei uma cena que me fez parar. Um grupo de refugiados — uns oito, entre homens, mulheres e crianças — estava sentado num canto da rua, perto de um muro. As roupas eram esfarrapadas, os rostos sujos e abatidos. Uma mulher amamentava um bebê enquanto um homem mais velho tentava acender uma fogueira pequena com gravetos úmidos.
Uma guarda municipal se aproximou deles, falando algo que não pude ouvir. O homem mais velho respondeu com gestos, a expressão cansada. A guarda acenou com a cabeça e se afastou, sem oferecer ajuda.
Parei, hesitante. Não era minha responsabilidade. Eu mal tinha dinheiro, mal tinha segurança. Mas algo na cena me lembrou das vezes em que vi gente na rua em Porto Alegre, no frio, e passei direto porque não podia ajudar. Porque ajudar um significava não ajudar outro. Porque o problema era grande demais para uma pessoa só.
Respirei fundo e fui até o homem mais velho.
— Com licença — falei, me agachando perto dele. — O que aconteceu?
Ele me olhou com desconfiança, mas viu que eu não era uniformizado, não era autoridade.
— Nossa vila foi atacada. Goblins. Muitos. Perdemos tudo. — A voz dele era rouca, como se tivesse chorado até secar. — A guarda deixou a gente entrar, mas não tem abrigo. Tamo esperando... sei lá o quê.
Olhei para as crianças. Uma delas, um menino de uns seis anos, me encarava com olhos grandes e assustados. Segurava um pedaço de pão tão duro que parecia pedra.
Não pensei muito. Tirei do bolso as duas pratas que tinha ganhado no posto da guarda e entreguei ao homem.
— Compra comida. Pão, fruta, algo que dê pra todos.
Ele arregalou os olhos, olhando para as moedas como se fossem um milagre.
— Mas... por quê? A gente não te conhece.
— Porque precisam — respondi, simples. — E porque um dia eu também precisei.
Levantei antes que ele pudesse agradecer, e segui em frente. Não queria ouvir discursos de gratidão. Já bastava o peso no peito de saber que não podia fazer mais.
"Se fosse no Brasil, eu estaria vendendo churrasquinho de goblin pra ajudar", pensei, tentando aliviar a tensão. Não funcionou muito bem.
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Finalmente, depois de algumas curvas, pude ver o imponente prédio da Guilda dos Aventureiros.
A construção era impressionante. O prédio tinha três andares e era feito de pedra regular, com uma grande porta que parecia pesada o suficiente para resistir a um ataque de monstro. A guilda de mercenários não era muito diferente, entretanto com um visual mais militar, com uma placa contendo o símbolo de lança e escudo, em contraste com o de espadas cruzadas e escudo da guilda dos aventureiros. "Se eu não estivesse em busca de solucionar o problema da destruição desse mundo, consideraria a dos mercenários", refleti, enquanto observava as pessoas entrando e saindo. "Mas minha experiência como ex-fuzileiro não me traz boas lembranças de conflitos entre pessoas — melhor focar em monstros por enquanto." Vamos para a guilda de aventureiros mesmo.
Ao atravessar as largas portas, vi o que podia facilmente ser comparado a um ginásio de esporte, de tanto espaço. "Brincadeira, não era assim tão grande, mas era bem mais organizado que esperava", pensei, observando o interior. Definitivamente não se parecia com um bar cheio de gente bebendo cerveja ou gritando feito louco — era mais profissional que isso.
Notei que as mesas estavam estrategicamente posicionadas nas laterais — provavelmente para não atrapalhar o fluxo de pessoas até os balcões da guilda. "Um layout prático; facilita o movimento em horários de pico", pensei, analisando o ambiente com olhos calculistas de quem passou anos em canteiros de obra.
Enquanto observava, uma voz grave como trovão me chamou a atenção.
— Ei, você parece novo por aqui — disse um homem que mais parecia um armário com pernas.
Me virei lentamente, mantendo uma distância segura instintiva. O sujeito tinha facilmente dois metros de altura, com ombros tão largos que quase bloqueavam minha visão. Seu machado de batalha parecia uma ferramenta de trabalho mais que uma arma, pendurado nas costas como se fosse leve — o que provavelmente não era. "Caramba, esse cara é grande demais", foi meu primeiro pensamento.
Mas não era só grande. Havia algo nos olhos dele — uma experiência, uma calma de quem já viu muita morte. E, apesar do tamanho, ele não exalava ameaça. Era mais como um cachorrão que parece feroz mas só quer saber de um carinho.
— Sim, é minha primeira vez — respondi, com tom neutro enquanto avaliava suas intenções. — Estou pensando em me inscrever.
— Boa escolha! — Ele deu um tapinha no meu ombro com força suficiente para fazer um homem comum cambalear, mas eu me mantive firme, absorvendo o impacto com os joelhos. "Meu Deus, esse cara é forte demais." — Sou Gregor, um dos veteranos. Se precisar de ajuda, é só chamar. Mas antes, vá se registrar. O balcão de inscrições é o primeiro à direita. A Lilian cuida disso.
— Obrigado, Gregor. Já ajuda saber por onde começar — agradeci, notando que ele não era do tipo encrenqueiro. Apenas... excessivamente entusiasmado, como alguém que já viu muitos novatos chegarem e partirem. "Provavelmente perdeu alguns amigos nesse caminho", pensei, com uma ponta de empatia.
Com um aceno que quase causou uma brisa, ele voltou para seu grupo. Segui para o balcão indicado, observando cada detalhe do caminho. "Duas saídas de emergência, escadaria para os andares superiores, área de reuniões fechada... bom saber caso precise sair rápido." Meus instintos de sobrevivência ainda estavam ligados, mesmo dentro de um prédio seguro.
Lilian estava atrás do balcão, uma mulher jovem com cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo prático, seus olhos azuis brilhando com uma eficiência profissional. Ela ergueu os olhos de uma pilha de papéis e sorriu quando me aproximei.
— Bom dia. Sou Lilian, responsável pelas inscrições e dúvidas sobre os trabalhos. Em que posso ajudar?
— Olá, sou Lúcio. Como faço para me tornar aventureiro? — perguntei à jovem atrás do balcão.
— Você vai precisar preencher um formulário. Se não souber ler e escrever, eu posso preenchê-lo para você — explicou ela, com uma paciência que parecia genuína.
— Sem problema. Onde preencho o formulário?
— Aqui mesmo. — Ela pegou uma prancheta e me explicou rapidamente o processo, seus olhos percorrendo meu equipamento de forma avaliadora. As novas roupas pareciam se encaixar melhor agora, mas ainda carregavam o cheiro fresco da loja. "Ela está avaliando se sou um novato de verdade ou só um turista", pensei.
O documento era básico: nome, idade, habilidades conhecidas, experiência prévia. "Melhor manter as informações mínimas", decidi, preenchendo apenas o essencial para não revelar mais do que o necessário. Quando terminei, levantei uma dúvida calculada:
— Vocês pagam algum tipo de recompensa por monstros mortos? Trouxe provas de subjugação.
— Claro, mas preciso verificar. O que trouxe? — perguntou, seu interesse genuinamente despertado.
Abri a mochila com cuidado, revelando apenas o necessário: as orelhas de 22 goblins, uma de hobgoblin e os chifres de dois coelhos chifrudos. "Vou deixar os núcleos guardados; não preciso que todo mundo saiba o que tenho."
— Acho que isso basta.
A expressão alegre de Lilian foi substituída por uma de surpresa genuína, seus olhos se arregalando.
— Uau, isso é bastante para alguém tão jovem. Não é comum ver tantas provas de subjugação de alguém não registrado, ainda mais de um hobgoblin. Parabéns! — disse, com uma admiração que parecia real. — Mas, além do registro, precisa passar pela avaliação de combate. Vou te levar ao instrutor. Algum problema com isso?
— Sem problema. Podemos ir agora?
— Claro! — Ela saiu do balcão com agilidade surpreendente, e eu a segui. — A área de treinamento é por aqui.
No caminho, comentou com genuíno interesse:
— É raro ver pessoas comuns trazerem mais que algumas provas de subjugação. A maioria mal sabe segurar uma arma ou entra em pânico e foge dos monstros. Vai ser bom ter um novato promissor em ação depois de tanto tempo — disse, com um sorriso que parecia sincero.
Enquanto faz o teste, vou processar sua recompensa após te apresentar ao instrutor da avaliação.
Antes que eu respondesse, uma aventureira que passava nos lançou um olhar curioso. Seu equipamento era prático mas bem cuidado, e carregava duas espadas com naturalidade impressionante. Seus cabelos castanhos estavam presos em um rabo de cavalo prático, e seus olhos verdes pareciam avaliar cada detalhe ao redor com uma inteligência afiada. "Caramba, essa mulher é... bem, ela é impressionante", pensei, sentindo meu rosto esquentar um pouco.
— Ei, você! Você parece bem cansado. Está indo fazer a avaliação de combate? — perguntou, com um olhar sério que parecia genuinamente preocupado.
Eu estava um pouco cansado de fato, mas já vim aqui pra acelerar tudo de qualquer jeito. "Não posso parecer fraco agora", pensei, mesmo sentindo o cansaço nos ossos. A noite anterior tinha sido de sono reparador, mas o acúmulo de dias de luta ainda pesava. Meus ombros doíam, e havia um tremor residual nas mãos que a [Redução de Dor] não eliminava completamente.
— Estou, sim — admiti, com um suspiro e sorriso discreto. — Mas como sabe, é bom terminar o que tem de ser feito logo. Mas obrigado pela preocupação, senhorita.
— Boa sorte então! — respondeu ela, com um sorriso que me fez esquecer por um segundo onde eu estava. — Se precisar de dicas com o instrutor, é só pedir. Se lembre que aventureiros priorizam a sobrevivência acima do lucro.
— Valeu pelo conselho! — respondi, surpreso. O pessoal daqui estava sendo mais amigável que o esperado. Era a primeira vez conhecendo tantas pessoas diferentes em um único lugar e também estava em um mundo diferente, onde esse pessoal convivia com perigos que talvez os tornasse mais receptivos. "Quer dizer, ser aventureiro nesse tipo de mundo é colocar a vida em risco constantemente. Claro que os veteranos tentariam fazer os novatos relaxarem e não se sentirem intimidados. Às vezes esqueço que as light novels que tanto li não podem ser levadas ao pé da letra."
Vendo a aventureira se afastar, pensei o quão impressionantes as mulheres daqui eram. E essa que falou comigo... "meu Deus, que pessoa atraente". Deveria ser tão forte quanto bela, levando em consideração sua percepção em notar que eu ainda estava cansado. "Foco, Lúcio", repreendi a mim mesmo mentalmente. "Você está aqui para se registrar, não para ficar babando em mulheres bonitas."
Deixando de lado esse monólogo interno, precisei focar no que iria fazer. "Vamos terminar isso logo, estou ficando com fome", pensei, meu estômago protestando como se confirmasse o pensamento.
Lilian, que observara a interação com um sorriso divertido, me guiou até a área de treinamento. Chegando lá, havia vários outros aventureiros que pareciam ser novatos também, alguns nervosos, outros confiantes demais. Um homem na casa dos quarenta anos, com orelhas que lembravam as de um urso — um homem-besta, percebi —, supervisionava o grupo. "Então é assim que eles são de perto", pensei, observando suas feições misturadas. "Parece um cara normal, só que com orelhas peludas e uma expressão... sei lá, mais animal." Não era estranho, apenas diferente. "Como se um pastor alemão virasse gente e resolvesse trabalhar com segurança."
Notando nossa presença, ele caminhou até nós com passos pesados que ecoavam no chão.
— Este é Lúcio — apresentou Lilian. — Ele trouxe algumas provas de subjugação. Entre elas, uma orelha de hobgoblin, 22 orelhas de goblins comuns e chifres de coelho chifrudo.
O instrutor me avaliou com um olhar que parecia dizer: "Alguém tão jovem assim?" — um olhar que eu estava começando a conhecer bem.
— Isso é incomum para alguém de sua idade — disse ele, me surpreendendo um pouco. — Deixe suas coisas ali e pegue uma arma de madeira para a avaliação — completou, apontando para um banco onde havia outros pertences. "Mais uma pessoa surpresa com minha idade. Será que pareço tão jovem assim?"
"Que estranho", era a palavra que me vinha à cabeça. Já era a quinta pessoa me tratando com algum respeito incomum. "Não que estivesse reclamando — muito melhor que várias pessoas agindo de forma desagradável comigo." Mas deixaria isso de lado por hora e terminaria logo isso.
Deixando minhas coisas no banco, peguei uma espada longa de madeira — já que futuramente pretendia usar uma arma desse tipo. A madeira era mais leve que esperava, mas ainda tinha peso suficiente para simular um combate real.
Assumi uma guarda alta, e o instrutor atacou com um golpe potente de seu machado de madeira. Mesmo sendo de treino, a força por trás do movimento era absurda. "Caramba, esse cara é forte demais", pensei, sentindo o impacto reverberando pelos meus braços.
Tentei defender e contra-atacar, mas fui interceptado ao tentar atacar seu flanco.
— Foque nos movimentos — ele disse, sua voz um rugido baixo. — Seu ataque foi bom, mas falta potência.
Era claramente um teste para avaliar o básico: condição física e noções de defesa. "Faz sentido para quem lidaria com monstros; eles querem saber se você não vai morrer no primeiro trabalho." Respirei fundo e tentei novamente, aplicando mais força.
Ele continuou dando dicas — postura, respiração, como manter o corpo em movimento para não dar brecha. Cada instrução era prática e direta, sem floreios.
— Seus golpes são previsíveis. Varie mais. Até goblins montam estratégias.
"Até goblins montam estratégias", repeti mentalmente. "Ele tem razão; aqueles goblins que enfrentei trabalhavam em conjunto."
Me esforcei ao máximo, mas o cansaço pesava. Mesmo assim, absorvia cada instrução como uma esponja, ajustando na hora. Meu corpo estava respondendo melhor agora, os movimentos se tornando mais fluidos.
— Você aprende rápido. Isso é bom. Use mais fintas e evite ataques diretos. Você é muito direto em seus ataques. Nem sempre vai lutar apenas contra monstros.
"Nem sempre vai lutar apenas contra monstros", ecoou em minha mente. "Ele está me alertando para a possibilidade de lutar contra pessoas também."
Tentei aplicar as dicas, mas, num vacilo, errei um golpe e fui facilmente bloqueado. O machado de madeira veio em minha direção com força suficiente para derrubar o ar do meu pulmão.
— Boa tentativa, mas mantenha a defesa firme. Se o adversário for mais forte, busque alternativas — aconselhou, sua voz menos áspera agora.
No fim, ele me derrotou. Era óbvio que venceria; a diferença entre um novato e um veterano é gritante. Mas eu tinha durado mais que os outros novatos que observei — alguns caíram em menos de um minuto.
— Mostrou potencial. Continue treinando e vai longe. Passou no teste com classificação E+. — Ele carimbou um documento e entregou a Lilian que retornara. "E+? Isso significa que pulei o básico", pensei, satisfeito apesar da derrota. "Talvez toda aquela experiência na floresta tenha contado mais do que esperava."
De volta à recepção, ela completou meu registro usando uma gota do meu sangue em uma máquina estranha que preencheu um cartão com minhas informações. A máquina brilhou quando meu sangue tocou a superfície, e informações começaram a aparecer no cartão como se fossem escritas magicamente. Notei que habilidades como [Aprender Rápido] não apareciam, mas ignorei por enquanto. "Melhor assim; mantém meus trunfos escondidos."
Antes de me despedir, ela me entregou a recompensa: 40 moedas de cobre pelos goblins, 5 de prata pelo hobgoblin e 2 de prata pelos chifres. O cartão da guilda funcionava como carteira, armazenando o valor digitalmente. "Prático; menos peso para carregar. Caramba, quanto dinheiro", pensei, vendo os números aparecerem no cartão.
Com o registro feito, perguntei sobre o próximo passo lógico:
— Agora que estou classificado como E+, quais trabalhos estão disponíveis para esse rank?
Lilian puxou um livro de registros e folheou rapidamente, seus dedos deslizando pelas páginas com prática.
— Para rank F, é só coleta e serviços na cidade, como entregas ou reparos gerais. Mas para E e acima, você pode pegar caça e eliminação de animais ou monstros. A principal fonte de recursos é a Grande Floresta dos Monstros, dividida em zonas: norte para lobos, oeste para goblins comuns, sul é o território dos aranhas gigantes. Como você já tem experiência com goblins, recomendo algo na zona oeste — eliminação de um bando pequeno de goblins que tem atacado caravanas na borda da floresta. É para rank E, paga bem e fica apenas duas horas da cidade. Interessado? — perguntou, apontando para uma descrição no livro.
Pensei por um momento. "Alinha com o que eu já enfrentei; goblins eu conheço, e na zona oeste devo lidar com os comuns, sem surpresas como Hob-goblins, assim espero. Perfeito para conhecer melhor os perigos dessa região e coletar informações." Além disso, eu já tinha experiência com esses monstros, já participei de incursões pelos para combater grupos terroristas que tinham o costume de agir como goblins, só que mais sofisticados, claro.
— Sim, aceito. Como procedo?
— Ótimo! — Ela carimbou o pedido e entregou um mapa simples com marcações. — Relate de volta quando terminar. Boa sorte, Lúcio. E descanse um pouco antes; você parece precisar — disse, com aquele sorriso genuíno.
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Depois que tudo foi processado como de costume em organizações desse tipo, saí da guilda. Estava ficando com fome e queria saborear a comida de rua. "Finalmente posso relaxar um pouco", pensei, respirando o ar fresco da cidade e sentindo o peso das responsabilidades diminuir — pelo menos por enquanto.
Enquanto caminhava em direção às barracas de comida, senti o celular vibrar no bolso. Uma mensagem de Érebo.
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[Mensagem recebida]
De: Érebo
Assunto: Atualização
Registro concluído com sucesso. Boa escolha ao manter os núcleos — eles podem ser úteis no futuro, quando suas afinidades mágicas se desenvolverem mais.
Sobre a interação com os refugiados: não foi desperdício. Pequenos atos geram ondas que você nem imagina. A Sorte não age apenas em combate.
E um aviso: um dos outros quatorze está em Micenas. Não o procure ativamente, mas fique atento. Ele pode ser um aliado crucial no futuro.
— Érebo
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Li a mensagem duas vezes. "Um dos outros quatorze está aqui." O pensamento me acompanhou enquanto comprava um pedaço de carne assada numa barraca e me sentava num canto da praça.
A carne era boa — temperada com ervas que eu não conhecia, suculenta. O pão que veio junto era macio, diferente do pão duro que o aventureiro tinha me oferecido. Enquanto comia, observei as pessoas passarem. Comerciantes, aventureiros, famílias, crianças correndo atrás de uma bola de pano. Parecia tão normal. Tão pacífico.
Mas eu sabia que não era.
Em algum lugar dessas ruas, havia outra pessoa como eu. Alguém que também tinha sido arrancado do seu mundo, que também carregava segredos e habilidades. Alguém que poderia ser um aliado... ou alguém que "já matou por menos do que eu carrego na mochila".
Terminei a comida, limpei as mãos na calça nova — "já sujando, ótimo" — e me levantei. O sol já ia alto, e o movimento na cidade só aumentava.
"Primeiro, descanso de verdade", decidi. "Depois, missão. E enquanto isso, olhos abertos."
Atravessei a praça em direção à estalagem, sentindo o peso da espada na cintura e dos núcleos na mochila. A cidade pulsava ao meu redor, viva e indiferente aos meus pensamentos.
Mas em algum lugar, escondido entre a multidão, alguém me observava.
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