Chapter 3:

Capítulo 3: Micenas. Primeira Grande Cidade!

Lyvaria: Aventura Em Outro Mundo



O rio serpenteava pela floresta, abrindo caminho entre as árvores como se fosse uma veia viva carregando água fresca para algum lugar distante. Eu o seguia de perto, calculando cada passo nas pedras lisas e cobertas de musgo que pareciam armadilhas prontas para me derrubar. O barulho constante da correnteza abafava meus movimentos, mas também podia esconder qualquer coisa se aproximando sem que eu percebesse.

— Pelo menos é um guia confiável — murmurei, enquanto um galho seco estalava sob minha bota, o som ecoando mais alto do que eu gostaria naquela quietude pesada.

A floresta tinha mudado nos últimos dias. Mais silenciosa, mais opressiva, como se estivesse contendo algo ruim, esperando o momento certo para soltar. Eu sentia isso na pele, na forma como os pelos do braço eriçavam sem motivo, no jeito que os pássaros calavam a boca de repente. Instinto de fuzileiro, talvez. Ou só paranoia de quem já escapou da morte por pouco várias vezes nos últimos dias.

Foi nesse instante que os ruídos chegaram. Não só o clangor metálico distante, mas grunhidos roucos que pareciam vir do fundo da garganta de algo selvagem. Galhos se quebrando sob peso. Um guincho agudo que soava como um animal lutando pela vida.

Meu corpo reagiu antes que eu pudesse raciocinar direito. Os músculos tensionaram em alerta automático — aprendizado da pior forma. Dois dias na Grande Floresta dos Monstros me ensinaram que hesitar era o mesmo que convidar a morte para uma visita.

— Humanos? — o pensamento surgiu rápido, acelerando meu pulso.

Se fossem pessoas, poderia ser minha chance de finalmente sair dessa selva infernal. Talvez conseguir informação útil, ou até uma refeição que não fosse carne seca de coelho chifrudo. Qualquer coisa para quebrar essa rotina de sobrevivência que me deixava exausto no corpo e na mente.

Os sinais ao redor confirmavam que alguém — ou algo — tinha passado por ali recentemente. Cinzas ainda mornas de uma fogueira apagada às pressas. Pegadas humanoides impressas na lama fofa da margem, como marcas de botas comuns. Um retalho de tecido rasgado preso em um espinho, balançando levemente com a brisa.

Peguei o celular do bolso, conferindo o mapa que Érebo tinha ajustado para mim.

— Oito quilômetros até a saída — alívio genuíno percorreu meu corpo. Comparado aos trinta que eu enfrentava dois dias atrás, era uma caminhada de tarde.

Mas aquele acampamento destruído não era um bom sinal. E o cheiro azedo, quase doce de podridão que grudava na garganta... deixava claro quem eram os culpados.

— Goblins outra vez — pensei, sentindo um nó de nojo no estômago.

Eles eram nojentos até para os padrões de monstros que eu já tinha enfrentado. Nem se davam ao trabalho de esconder a bagunça que faziam: pilhas de ossos roídos espalhados como lixo, entulhos de coisas quebradas, e aquele fedor característico de carne apodrecendo que parecia impregnar até as árvores. O manual de Érebo não tinha exagerado: "Organizados em bandos, oportunistas e cruéis. Sua presença é marcada por devastação e sujeira." Era como se deixassem uma trilha de caos por onde passavam, sem se importar com as consequências.

Escondido atrás de um tronco apodrecido, observei a cena adiante, tentando manter a respiração controlada para não fazer barulho.

Dois Coelhos Chifrudos — feras do tamanho de javalis grandes, com chifres curvados e afiados como lâminas de foice — enfrentavam seis goblins. Três dos monstros já estavam no chão, mortos com ossos esmagados ou estocadas profundas que deixavam poças de sangue escuro na terra. Um dos coelhos jazia dilacerado, sua carne sendo disputada por aves carniceiras de bicos longos e curvos que bicavam sem piedade.

Os goblins sobreviventes agiam com uma astúcia que me pegou de surpresa. Dois distraíam a fera restante balançando ossos e gritando roucamente, como se estivessem coordenando uma caçada primitiva. Outros dois atacavam pelos flancos com lanças enferrujadas, mirando os pontos fracos. E os últimos esperavam com porretes de osso em punho, prontos para explorar qualquer brecha.

— Caramba — refleti, sentindo um respeito relutante misturado ao desprezo. — Eles não são só bestas burras. Há uma inteligência aí, por mais rudimentar que seja.

Fiquei ali, avaliando. Três anos de fuzileiro me ensinaram a ler situações de combate antes de entrar nelas. Ângulos de ataque. Pontos de vantagem. Rotas de fuga. A mente funcionava em piloto automático, processando informações enquanto o corpo ficava imóvel.

Se eu entrar agora, pego eles desprevenidos. Mas se tiver mais escondidos...

Olhei em volta, buscando sinais. Nenhum movimento nas árvores próximas. Nenhum grunhido de reforço. Parecia um grupo isolado.

— Não vou ficar aqui só assistindo — decidi internamente.

Não ligava tanto para os coelhos, mas era uma oportunidade de eliminar goblins sem chamar o bando inteiro para cima de mim. E, honestamente, depois de dois dias sendo caçado por essas criaturas, um pouco de iniciativa não cairia mal.

Minha mão encontrou uma pedra lisa e pesada na margem do rio, do tamanho certo para um arremesso.

— Vamos ver se aqueles treinos improvisados de arremesso em garrafas vazias valeram de algo na vida real — pensei, inspirando fundo.

Balancei o braço e soltei. A pedra cortou o ar com um sibilo e acertou a têmpora de um goblin distraidor com um baque seco que ecoou na minha cabeça. Ele cambaleou, os olhos vidrados de confusão, como se o mundo tivesse girado de repente.

Foi o suficiente para virar o jogo. Senti uma pontada de satisfação ao ver o caos se desenrolar.

O coelho chifrudo, sentindo a fraqueza no ar, revidou com uma fúria que me deu um frio na espinha. Como se toda a raiva da floresta estivesse concentrada nele. Seu chifre brilhou por um instante antes de atravessar o goblin mais próximo como se fosse papel, erguendo-o no ar em um arco grotesco e o arremessando contra uma árvore próxima. O impacto foi úmido e definitivo. O som me fez cerrar os dentes.

[Investida Perfurante] — os óculos de identificação piscaram a informação na minha visão.

— Agora é comigo — pensei, saindo da cobertura em passadas rápidas e silenciosas.

A agilidade que eu tinha impulsionado nos últimos dias fazia diferença. Meus pés encontravam os pontos firmes no chão irregular sem hesitação, como se meu corpo já soubesse onde pisar antes mesmo de eu pensar.

O goblin atordoado mal virou a cabeça a tempo. Minha espada de aço negro cravou no seu pescoço com um som satisfatório de carne se partindo. Ele desabou com um baque surdo que ecoou no silêncio repentino.

Os últimos, vendo o caos se espalhar, tentaram fugir rio abaixo, tropeçando na margem escorregadia. Mas o coelho, agora enlouquecido pela dor e pela vitória parcial, saltou em um arco impressionante que me deixou admirado apesar de tudo. O chifre perfurou as costas de um, e o grito agonizante cortou o ar antes de silenciar de vez.

O último goblin sumiu na vegetação densa, provavelmente chamando reforços. Mas eu não podia me preocupar com isso agora.

O silêncio caiu de novo. Pesado como uma manta úmida.

Agora, só eu e o coelho gigante restávamos. Seus olhos vermelhos injetados fixos em mim, transbordando um ódio primal que parecia pessoal. Ele ofegava, as patas traseiras se tensionando para outro salto, o corpo tremendo de exaustão. Sangue escorria do flanco onde uma lança ainda estava cravada. O cheiro metálico se misturava ao fedor da luta, tornando o ar quase irrespirável.

— Ele me vê como o próximo inimigo — refleti, ajustando o punho na espada. — E eu não posso culpá-lo.

A lâmina tremia levemente sob a luz filtrada pelas folhas. Ou era minha mão? Difícil dizer.

Hora de ver se isso tudo foi só sorte até agora, ou se eu realmente aprendi algo nesses dias.

O coelho atacou. E o mundo pareceu desacelerar por um instante.

Agindo por instinto puro, impulsionado pelos reflexos afiados da [Técnica Básica de Espada] e [Impulso de Velocidade] , peguei uma lança caída no chão e a finquei no solo, inclinando a ponta para cima como uma armadilha improvisada. A fera, cega pela dor e raiva, não desviou a tempo.

— Idiota — pensei, não sem uma ponta de respeito pela criatura. — Isso que dá confiar só em ataque carregado.

O chifre brilhou novamente antes do corpo se empalar com um estalo úmido e horrível que me revirou o estômago. Mas não morreu na hora. Ele se debateu com uma força surpreendente, os chifres raspando perigosamente perto de mim.

Enquanto ele lutava, preso e sangrando profusamente, avancei com cuidado. Golpes curtos e precisos, mirando pontos vitais que agora eu entendia por instinto. Garganta. Olhos. Só estocadas, garantindo dano profundo sem me expor demais. [Concentração Extra] mantinha minha mão firme e a mente clara, ignorando o fedor e a violência.

— Isso é necessário — repeti para mim mesmo, como um mantra. — É sobreviver ou ser comido.

Demorou mais do que eu queria. Cada segundo uma eternidade de esforço físico e mental. Mas finalmente o coelho tombou, o último suspiro um bafo quente e fétido contra meu rosto. Cheiro de morte fresca.

Fiquei ali por um longo momento, ofegante, sentindo o sangue quente respingado no rosto. Depois, respirei fundo e me pus a trabalhar.

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Primeiro, chequei ao redor para garantir que nada mais se aproximava. O ouvido atento a qualquer ruído fora do comum. Depois, vasculhei os corpos com eficiência, ignorando o cansaço que começava a pesar.

Nos goblins, moedas de cobre sujas e uma faca enferrujada que mal valia o peso extra na mochila. Mas os coelhos... carne fresca. Couro resistente. E os chifres que pareciam valer algo.

Lembrei de verificar o primeiro também. Nada devia ser desperdiçado nesse mundo.

Foi quando [Aprender Rápido] ativou mais uma vez. Minha mente foi inundada com conhecimentos práticos que pareciam vir de anos de experiência: como esfolar presas grandes sem estragar a pele, preservar o couro com sal e ervas encontradas por perto, cortes precisos para evitar contaminação com bile ou outros fluidos.

Ao abrir perto dos corações, encontrei dois núcleos roxos pequenos, grudados na musculatura como pedras preciosas escondidas. Núcleos Mágicos de 1 Estrela. Minúsculos, mas algo me dizia que eram valiosos. Os chifres, quase meio metro cada, curvados e afiados naturalmente, pareciam perfeitos para ferramentas ou armas.

— Bom — murmurei, enrolando as mangas. — Pelo menos hoje não durmo com fome.

Guiado por [Desmontar] , agora no nível 2, improvisei o melhor que pude. Usei as peles como base perto do rio para não sujar tudo de sangue. Acendi uma fogueira controlada com pedras em círculo para conter as chamas. Montei uma estrutura de galhos para defumar a carne, posicionada longe o suficiente para não atrair atenção imediata de predadores.

Desmembrei os coelhos com cortes precisos. Retirei as entranhas (enterrei longe para evitar o cheiro). Cortei as patas. Removi as peles com cuidado, como se tivesse feito isso a vida toda — embora, na verdade, fosse a primeira vez. Os chifres, limpos com a água do rio, foram embalados à parte, embrulhados em folhas para não arranhar nada.

Durante o processo, que levou horas que pareciam intermináveis, lobos cinzentos de dentes longos e mais três goblins solitários apareceram, atraídos pelo cheiro de sangue. [Impulso de Velocidade] me ajudou a pegar a espada a tempo. [Concentração Extra] me manteve focado, lidando com eles um por um sem entrar em pânico, mesmo quando o cansaço ameaçava me derrubar.

— Essas habilidades estão salvando minha pele — pensei, sentindo a fadiga acumulada pesar como chumbo nos ombros. — Mas e se eu depender demais delas? O que acontece quando algo maior aparecer?

Uma resistência nova — talvez da vitalidade aumentada — me impedia de desabar completamente.

Horas depois, exausto mas satisfeito, finalizei tudo. Temperei a carne que não carregaria com uma pasta de cogumelos paralisantes que encontrei por perto. Qualquer bicho que tentasse comer os restos ficaria fora de combate por um bom tempo.

— Melhor prevenir do que remediar — pensei, olhando para o trabalho feito. — Não quero atrair mais problemas do que já tenho.

Com a carne útil enrolada em folhas largas, peles dobradas e chifres seguros na mochila, continuei a jornada.

Ainda enfrentei grupos pequenos de goblins ao longo do caminho, mas nada que me parasse como nos primeiros dias. Os atributos aumentados e as novas habilidades faziam uma diferença absurda. Cada luta mais fluida. Cada decisão mais instintiva. Como se meu corpo estivesse se adaptando a esse mundo de forma natural.

— É estranho — refleti, enquanto avançava. — Lá na Terra, levaria anos para me sentir assim preparado. Aqui, em dias, já estou diferente.

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Finalmente, a floresta começou a rarear. As árvores dando espaço para arbustos e gramados abertos. A luz do sol da tarde bateu no meu rosto sem o filtro constante das folhas.

À frente, uma planície vasta se estendia, ondulando suavemente até encontrar o azul profundo do oceano no horizonte. Aninhada entre a terra e o mar, Micenas reluzia como uma joia. Muros de pedra clara refletindo o sol poente, altos e imponentes. Uma promessa de segurança e civilização após dias de puro instinto selvagem.

— Finalmente — suspirei, sentindo um peso sair dos ombros. — Algo que parece humano. Ou pelo menos civilizado.

Após mais vinte minutos de caminhada pela planície, cheguei aos portões principais.

Uma fila longa se formava na entrada. Comerciantes com carroças puxadas por lagartos de crina dourada que bufavam impacientes. Aventureiros em armaduras gastas e cheias de marcas de batalha. Camponeses com sacos de grãos pendurados nos ombros. E até um grupo de elfos esguios em vestes elegantes que pareciam flutuar ao andar.

Minha aparência — sujo de terra e sangue seco, carregando pacotes improvisados que cheiravam a caça fresca — atraía olhares curiosos e desconfiados.

— Eles me veem como um selvagem — pensei, ignorando os murmúrios. — Mas eu sou o que sobrou depois de sobreviver àquilo tudo.

Quando chegou minha vez, o capitão da guarda se aproximou. Um homem robusto, com uma cicatriz profunda no queixo e armadura de couro reforçado com insígnias de bronze que brilhavam ao sol. Seus olhos experientes me avaliaram de cima a baixo, como se pudesse ler minha história só pelo estado das minhas roupas.

— Boa tarde, forasteiro. — Sua voz era grave, autoritária, mas sem hostilidade desnecessária. — Parece que encontrou a fauna local de forma intensa. Conte o que houve.

Mantive a voz calma e direta, sem floreios:

— Encontrei dois Coelhos Chifrudos enfrentando um bando de goblins. Intervi para evitar que mais se agrupassem na área. Derrotei os sobreviventes e abati a fera restante. Aproveitei o que pude — carne, couro e chifres.

Mostrei os pacotes e as armas na cintura, com movimentos lentos para não alarmar ninguém.

Ele estudou meu rosto por um instante, como se pesasse minhas palavras. Depois acenou em aprovação.

— Sábio. Deixar carcaças atrai mais problemas do que resolve. — Fez sinal para um subordinado. — Registro padrão para novatos. E cuidado com os chifres — comerciantes adoram barganhar baixo no valor real.

Fui levado a uma guarita na muralha. Uma estrutura simples de pedra com uma mesa e estantes cheias de papéis amarelados e pequenos artefatos que pareciam saídos de um conto antigo.

Um oficial em vestes mais refinadas, com um emblema prateado no peito, apresentou um prisma de cristal multifacetado que pulsava com uma luz suave, quase hipnótica.

— Vamos registrar uma identidade provisória para a entrada. Segure o artefato e foque em dados básicos. O sistema cuida do resto.

Segui as instruções, sentindo o cristal aquecer na minha mão como se estivesse vivo. Uma tela azul translúcida surgiu no ar entre nós, exibindo informações que me lembravam minha janela de status, mas mais simples, mais oficial.

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[Registro de Identidade - Cidade de Micenas]

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[ JANELA DE STATUS ]

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Nome: Lúcio

Idade: 15 anos

Nível: 8

Pontos de conquista:??

Título:

Azarado Sortudo

Matador de Goblins

Quebrando Limites

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SAÚDE:

Saúde: 189/200

Mana: 230/230

Vigor: 87/200

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ATRIBUTOS:

Força: 24

Inteligência: 23

Destreza: 15

Agilidade: 24

Vitalidade: 23

Sorte: 70

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HABILIDADES:

Defesa (Nv. 1)

Espadachim Iniciante (Nv. 2)

Lanceiro Iniciante (Nv. 1)

Redução de Dor (Nv. 1)

Culinária de Campo (Nv. 2)

Desmontar (Nv. 2)

Impulso de Velocidade (Nv. 1)

Concentração Extra (Nv. 1)

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Condição: Levemente cansado

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Notei que as habilidades de Érebo — [Aprender Rápido] , [Reforço de Habilidades] , [Bônus de Crescimento] — e os 14 pontos de conquista não apareciam.

— Meus segredos ficam protegidos — pensei, aliviado. — Bom, porque não quero que todo mundo saiba o que eu tenho na manga.

O oficial assentiu, e a tela sumiu como se nunca tivesse existido.

— Tudo certo. Aqui, sua plaqueta provisória. — Entregou um disco de bronze gelado ao toque, com runas que brilharam fracamente quando o peguei. — Não perca. A multa é uma prata, e a burocracia é pior do que enfrentar goblins.

— Entendido. — Guardei a plaqueta em um bolso seguro. — O sistema é mais eficiente do que esperava.

Ele examinou a carne e o couro que eu carregava, cheirando e tocando para avaliar.

— O açougueiro da guilda compra caça fresca. Pelas peles e carne, em bom estado... duas pratas e cinco cobres. O couro do Chifrudo é resistente o suficiente para armaduras leves. Os chifres, pode negociar bem com artesãos ou alquimistas — eles pagam mais por materiais como esses.

Aceitei na hora. Aliviar o peso na mochila e ganhar dinheiro inicial era essencial para me estabelecer. Guardei as moedas, agradeci com um aceno e finalmente cruzei os portões para dentro de Micenas.

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O burburinho da cidade me envolveu como uma onda quente. Uma mistura de vozes, risadas e o clangor de ferramentas. Cheiros de comida de rua — pães assando, carnes grelhadas, cerveja derramada, animais e gente se misturando no ar.

A arquitetura era sólida. Pedra clara com varandas de madeira entalhada, telhados de telha vermelha e ruas de paralelepípedos irregulares que faziam as carroças rangerem. Algumas delas dividiam espaço com veículos estranhos a vapor, cuspindo fumaça branca e rodas dentadas girando com um zumbido mecânico.

E as pessoas... humanos comuns, sim. Mas também anões barbudos discutindo alto perto de forjas abertas. Elfos de orelhas pontudas e olhos amendoados examinando tecidos coloridos em barracas. E até seres com traços felinos ou caninos — orelhas peludas no topo da cabeça, rabos balançando sob capas longas.

— Caramba — pensei, absorvendo tudo com uma mistura de fascínio e cautela. — Esse lugar é um caldeirão de raças. Faz Porto Alegre parecer monótona.

Na rua principal, uma banca de armas chamou minha atenção. Uma tenda robusta, com armas simples jogadas em barris na frente como se fossem mercadorias comuns, e peças mais refinadas — espadas, machados, lanças — em suportes de madeira escura atrás do vendedor.

O dono, um anão de barba negra entrançada e braços musculosos tatuados com runas que pareciam antigas, era Borin, pela placa na bancada.

— Boa tarde — cumprimentei, aproximando com respeito, sem invadir o espaço dele. — Tenho algumas armas para vender ou trocar, e itens para avaliar.

Borin me mediu de cima a baixo. Os olhos pequenos e perspicazes avaliando cada detalhe da minha aparência e equipamentos, como se pudesse estimar meu valor só pelo jeito que eu carregava a mochila.

— Hmph. Outro novato com espólio de goblin... — murmurou, a voz grave e rosnada, quase teatral. — Mostra aí, garoto.

Coloquei na mesa o que tinha coletado: a espada de ferro gasta dos hobgoblins, duas lanças e três machados rudimentares, todos sujos de uso recente.

Ele pegou a espada, flexionou-a com um desdém profissional que me fez arquear uma sobrancelha, e a jogou de volta na pilha com um clangor.

— Ferro ruim, mal forjada, desbalanceada. Uma prata por ela. As lanças e machados... — fez um gesto dismissivo — duas pratas pelo lote. Nada de especial.

— Entendo — respondi, mantendo a voz neutra, sem demonstrar frustração. — E se eu quiser trocar por algo melhor daqui?

Ele apontou com o queixo para os itens atrás dele, os olhos brilhando com um orgulho genuíno.

— Espadas retas de aço temperado das minas do norte. Claymores pesadas — não para magricelas como você. Lanças curtas boas para floresta. — Parou, como se saboreasse o momento. — E essas aqui: facas de ferro negro das montanhas orientais. Mantêm o fio por luas, resistem à ferrugem mesmo em pântanos. Não são mágicas, mas fazem o serviço melhor que essa sucata.

— Achei isso também — disse, tirando do bolso o pedaço de minério avermelhado e denso que encontrei enterrado perto de uma toca de goblin. Guardei os núcleos mágicos para mim, ainda não sabendo o valor real. — Um minério bruto. Parece pesado para o tamanho.

Os olhos dele se arregalaram quase comicamente. Pegou o minério com um cuidado repentino, pesando-o na mão experiente e passando o dedo caloso sobre a superfície irregular.

— Isso... — murmurou, tentando manter um disfarce de desinteresse, mas falhando de forma óbvia. — Ferro comum, provavelmente. Com algumas impurezas. Te dou uma prata extra por ele.

Ativei os óculos de identificação discretamente. Novas linhas de texto apareceram na minha visão:

[Minério de Ferro-Diamantino Bruto] | Raridade: Raro | Valor de mercado estimado: ~50 pequenas de ouro/kg | Peso: ~1.78 kg.

Quase perdi a compostura ali mesmo.

— Ele está me oferecendo uma fração do valor real — pensei, contendo um sorriso interno. — Típico de comerciantes.

— Melhor guardar — disse calmamente, estendendo a mão para pegar o minério de volta. — Talvez consiga uma avaliação mais precisa na Guilda dos Mercadores.

— Espera! — a voz dele soou aguda, quase em pânico. Segurou o minério com força possessiva. — Não seja precipitado, garoto! Duas pratas extras, então! E uma lança decente!

— Senhor Borin — falei, fixando-o com um olhar firme, sem elevar a voz. — Ou você me diz o que isso realmente é, ou levo para alguém que o fará.

Ele olhou ao redor nervosamente, como se temesse ser ouvido. Baixou a voz para um sussurro áspero:

— Maldito seja, garoto. Você me encurralou. — Sua expressão mudou de avarenta para resignada. — É ferro-diamantino. Raro. Muito raro. — Suspirou profundamente, como se doesse admitir. — Olha, não tenho muito capital circulante... te dou dez pequenas de ouro, a espada de aço temperado, a faca de ferro negro... é o máximo que posso oferecer.

Fingi considerar a oferta por um momento. Sabia que ainda era ridiculamente baixa, mas calculava o valor das informações que eu poderia extrair.

— Dez é pouco — refleti. — Mas as armas e o conhecimento podem valer mais a longo prazo.

— Vinte pequenas de ouro, as duas armas, uma bainha de qualidade, e informações honestas sobre onde posso vender núcleos mágicos sem ser roubado.

Ele pareceu fisicamente dolorido. O rosto se contorceu.

— Quinze! — suplicou, a voz tremendo um pouco. — E as armas, e a bainha de couro de lagarto verde juvenil! E te digo sobre o Velho Theron na Guilda dos Mercadores — o único homem honesto nesta cidade maldita!

Calculei rápido na mente. Ainda abaixo do valor real, mas as informações valiam ouro nesse lugar desconhecido.

— Melhor um acordo justo agora do que ser enganado depois — pensei.

— Dezessete pequenas de ouro, as armas, a bainha, e você me apresenta pessoalmente ao Theron amanhã.

Ele cerrou os punhos, mas acenou com a cabeça derrotado.

— Combinado. Maldito garoto de olho afiado.

Contou as moedas — dezessete pequenas de ouro, uma fortuna considerável que tilintava na minha mão — e me entregou as armas e a bainha magnificamente trabalhada, com couro escuro e resistente.

— Apareça aqui ao nascer do sol. Theron não atende depois do meio-dia.

— Obrigado, senhor Borin. Aprecio a honestidade tardia.

Guardei tudo, sentindo-me significativamente mais rico e preparado.

— Hmph. Some daqui antes que eu mude de ideia. — Mas havia um traço de respeito em seus olhos quando ele se virou para atender outro cliente.

Enquanto me afastava da banca, uma notificação familiar surgiu diante dos meus olhos, pairando no ar como um lembrete sutil:

| Missão Opcional: Entre na Guilda dos Aventureiros ou na Guilda dos Mercenários. |

| Recompensa: Item Mágico. |

— Conveniente — pensei, com um sorriso interno escapando apesar do cansaço. — Érebo está de olho, guiando sem interferir diretamente.

Não ia reclamar de um presente. Podia ser exatamente o que eu precisava para progredir aqui.

Perguntei direções para um guarda que parecia menos ocupado, um homem jovem com expressão mais aberta e menos endurecida pela rotina.

— Guilda dos Aventureiros? Claro, novato! — disse com um sorriso despreocupado que me fez sentir um pouco mais à vontade. — Siga a rua principal até a praça central. É o prédio grande de três andares, com a placa de espada e escudo cruzados. Não tem como errar. A dos Mercenários é do outro lado da praça, de pedra escura, com lança e escudo.

Memorizei as direções, agradecendo com um aceno.

O sol já começava a se pôr, pintando o céu de tons de laranja e roxo que refletiam no oceano distante. O cheiro de pão fresco e estrogonofe de uma taverna próxima fez meu estômago roncar alto, lembrando-me de quão faminto eu estava. A fadiga pesava nos ombros como uma mochila extra, os músculos doendo de dias de luta constante.

— Primeiro, uma pousada decente — decidi. — Um banho quente para lavar essa sujeira toda. Uma refeição que não venha de uma fogueira improvisada. E uma cama macia para descansar de verdade.

A guilda podia esperar até amanhã. Não adiantava nada chegar lá exausto e cometer erros bobos.

Virei na direção que o guarda indicou, sentindo que, pela primeira vez desde que cheguei a Lyvaria, as coisas começavam a se alinhar.

E, enquanto caminhava pelas ruas de paralelepípedos, observando a cidade se acender com luzes mágicas e lanternas a óleo, uma coisa me veio à mente: sobrevivência é importante, mas viver também é. E depois de dias no inferno, um pouco de vida não cairia mal.

Braficio
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