Chapter 7:

O Vento Sussurrou: Forte Frostbane

O Vento Que Sussurrou Teu Nome



O entardecer tingia a estrada de tons alaranjados quando a voz do guarda que guiava nossa carruagem ecoou animada:
— Estamos chegando ao Forte Frostbane!

Eu imediatamente enfiei metade do corpo para fora da porta da carruagem, segurando na borda como uma criança empolgada em um brinquedo de parque. O vento frio bateu no meu rosto… e então meus olhos viram.

No alto de uma colina distante, erguia-se uma muralha cinzenta colada ao céu. Torres com bandeiras negras ondulando, guardas em patrulha e uma ponte de pedra larga levando ao portão principal. Era algo saído de um filme medieval, intimidador e completamente sensacional.

— H-herói Arven! — Brianna quase arrancou meu braço. — Volte pra dentro! Você pode cair!

— Relaxa! — respondi, rindo. — Tô firme aqui!

A carruagem diminuiu conforme nos aproximávamos. O portão do forte se abriu com um ranger pesado, e um grupo de guardas veio ao nosso encontro.

Assim que entramos, Arthur virou o rosto para mim, impaciente:

— Rapaz. Capuz. Agora. E fique sentado. Vou falar com a comandante. Não saia da carruagem até eu voltar.

— Certo, certo — murmurei, ajustando o tecido sobre o rosto.

Arthur desceu, caminhando em direção ao quartel principal. Eu fiquei ali, sentado, com Brianna ao meu lado, observando o movimento do forte pela fresta da cortina.

Guardas treinando, espadas tilintando, cheiro de ferro e suor… e olhares desconfiados na direção da carruagem. Muitos olhares. Quase todos.

— Nossa… eles estão bem focados na nossa direção — sussurrei.

— Eles não sabem quem somos — explicou Brianna. — Mas sabem que alguém importante está aqui. Então… bom, é um forte. Eles sempre esperam o pior.

Ótimo. Exatamente o que eu precisava para acalmar o coração, né?

O tempo passou devagar. Até que, finalmente, Arthur voltou, acompanhado de passos suaves e firmes.

A porta da carruagem abriu.

— Pode sair — disse Arthur. — Mas mantenha o capuz. A comandante já está informada.

Eu desci.

E então vi ela.

Uma mulher jovem, com um sorriso que parecia luz do sol entrando em uma sala escura. Cabelos longos num tom cinza-azulado caíam sobre os ombros, e seus olhos brilhavam com uma energia quase travessa. O uniforme militar era impecável: casaco preto ajustado, detalhes dourados, capa elegante e um boné com o símbolo de uma fênix.

Ela parecia forte e perigosa de um jeito difícil de explicar.

— Bem-vindo ao Forte Frostbane! — ela disse com uma alegria tão genuína que até os guardas mais carrancudos relaxaram um pouco. — Eu sou a Comandante Caelia Frostbane, a responsável por aqui. Você deve ser o Herói Arven!

— Ahn… sim, sou eu — respondi, meio sem saber onde colocar as mãos. — É um prazer conhecê-la, comandante.

Ela sorriu ainda mais, como se tivesse encontrado um gatinho perdido.

Brianna fez uma reverência desengonçada.

— M-maga Brianna, à sua disposição, comandante!

— Ahhh, a tal maga prodígio! — Caelia bateu palmas. — Que gracinha!

O rosto de Brianna ficou vermelho na hora.

Eu olhei para Arthur. Ele só deu de ombros.

— Venham. Vamos conversar em um lugar mais reservado — disse Caelia.

Nós a seguimos.

O caminho até o prédio principal foi… intenso.

Todos os guardas paravam o que estavam fazendo para encarar. Homens e mulheres olhavam para mim, mas não os culpo. Imagine ver andando por aí um estranho de capuz cobrindo completamente o rosto.

O capuz realmente não ajudava.

Senti cada olhar como uma pontada.

Finalmente, Caelia abriu a porta de uma sala fechada e nos fez entrar. Ela fechou a porta atrás de nós.

Agora estávamos só nós quatro: ela, Arthur, Brianna e eu.

— Muito bem — disse Caelia, colocando as mãos na cintura. — Podem relaxar. Estamos só nós aqui.

Ela então me encarou… e sorriu de um jeito malicioso.

— Arven… você poderia tirar o capuz?

Eu olhei para Arthur, que fez um gesto afirmando que estava tudo bem.

Respirei fundo e puxei o capuz para trás.

A expressão dela mudou imediatamente.

Sorriso abrindo.

Olhos brilhando.

Um passo à frente.

— Mas que raridade… — murmurou ela, inclinando o rosto perto demais do meu. — Com todo respeito, posso tocar nas suas orelhas?

Eu engasguei com o próprio ar.

— C-como é?!?

Arthur resmungou:

— Caelia. Não começa. Se comporte como uma comandante.

— Ah, Arthur, pare de ser chato! — reclamou ela, aproximando as mãos com os dedos mexendo como garras felpudas. — Eu nunca estive tão perto de um elfo negro! Me deixe tocar, Arven. Só uma vez. Prometo que não arranco nenhuma.

Eu não consegui responder.

Brianna conseguiu, gaguejando, é claro, mas conseguiu:

— C-comandante! S-se comporte! O Herói Arven não é brinquedo pra ficar mexendo em suas orelhas!

— Ai, menina, que dramática! — Caelia bufou. — Você é sempre assim, ciumenta?

— N-não sou ciumenta! — rebateu Brianna, vermelha. — Só… não acho certo ficar… apalpando orelhas de pessoas!

Eu levantei as mãos, desesperado para mudar de assunto.

— Err… você disse que nunca viu um elfo negro tão de perto, né?

Ela suspirou e cruzou os braços.

— Pois é. É difícil encontrá-los. Eles nunca saem da Floresta do Medo. E mesmo dentro dela… vivem nas regiões mais profundas. Muito difíceis de alcançar.

— Então como vamos encontrar eles? — perguntei. — Só andando até lá…?

Arthur respondeu primeiro, firme:

— Não vamos encontrá-los.

— Como assim??

Caelia sorriu de lado, daquele jeito perigoso.

— Arven… nós não achamos os elfos negros. Eles é que nos acham.

Eu franzi o cenho.

Ela continuou:

— Sempre que avançamos fundo na Floresta do Medo… chegamos num ponto onde a vegetação fica mais densa, o ar mais pesado e onde surgem mais monstros. — Ela ergueu um dedo. — E então começamos a ser observados.

— Nós os chamamos de Observadores — explicou Caelia. — Acreditamos que são elfos negros de elite, que se escondem nas sombras mais escuras da floresta. Movem-se sem som. Escalam árvores enormes com facilidade. São quase impossíveis de ver.

Eu engoli seco.

— É… me disseram que os elfos dessa floresta matam qualquer um que encontrarem… — murmurei.

Caelia riu.

— Exagero.

Pausa.

— Bom… nem tanto exagero.

Outra pausa.

— Pra ser sincera… é verdade mesmo. Eles matam qualquer um.

— ENTÃO É VERDADE?!

Antes que meu coração saísse correndo, Arthur falou firme:

— Por isso você está aqui. Existe a probabilidade de te verem e não atacarem você, como Sir Provolon nos explicou antes de sairmos do palácio.

— Sim, me lembro disso. Mas Sir Provolon disse que era só uma probabilidade — respondi.

— Vamos torcer para que essa probabilidade seja boa, Herói — disse Arthur.

Caelia bateu no ombro dele com uma risadinha.

— Calma, Arthur! Assim ele vai entrar na floresta chorando!

Ela voltou-se para mim:

— Mas tem uma exceção. Eles não atacam quem eles não conseguem matar.

Arthur acrescentou:

— A comandante Caelia Frostbane. Eles nem tentam enfrentar ela. Devem saber só pela presença dela que é perigosa.

Eu fiquei calado.

Arthur continuou:

— Ela é extremamente poderosa. Facilmente uma das pessoas mais fortes do continente.

Caelia sorriu, colocando as mãos nas bochechas.

— Awwwnn, você me elogiou, Arthur! Que fofo!

— Não se acostume — rosnou ele. — Você é uma completa lunática. Vive se enfiando em perigo. É obcecada por elfos daquela floresta maldita.

Ela piscou para mim.

— Viu? Sou durona mesmo. É por isso que ainda não virei um cadáver ambulante.

— Cadáver ambulante? Tipo um zumbi? — perguntei.

— Sim. Dependendo de onde você morrer na floresta, pode voltar como um morto-vivo. Que doidera, né? — disse Caelia sorrindo como se isso não fosse nada demais.

Beleza. Informação anotada.

Eu não fiquei mais calmo. Mas entendi: se Caelia estivesse comigo, talvez eu não morresse.


Depois disso, falamos do plano.



Entraríamos a cavalo até certo ponto; depois seguiríamos a pé. A comandante levaria uma certa quantidade dos soldados do forte, e nossos oito guardas se juntariam a eles.



A reunião terminou.



Quando saímos, suspirei.



— Esse foi o resumo mais assustador que já ouvi.



Arthur respondeu:



— Bem-vindo ao meu mundo, herói.



A comandante então nos levou ao palanque central.



— QUERIDOS SOLDADOS! — sua voz ecoou como um trovão alegre.



Todos pararam e formaram fileiras.



— A invocação dos Sete Heróis foi um sucesso!



O forte vibrou em celebração.



— E UM DELES ESTÁ AQUI!



Mais gritos.



Ela olhou para mim, com um sorriso malicioso.



— Herói Arven, venha até aqui.



Subi tremendo. Minhas mãos suavam.



Então alguém gritou:



— TIRA O CAPUZ, HERÓI!



E outros repetiram:



— MOSTRA O ROSTO!

— QUEREMOS VER O HERÓI!



Eu travei.



Olhei para Caelia.



Ela fez um gesto: “Pode tirar.”



Engoli seco.



Devagar… muito devagar… puxei o capuz.



Assim que meu rosto apareceu…



Silêncio total.



Então:



— U-UM ELFO NEGRO?!

— ARMAS!

— É UM MONSTRO!

— É UM IMPOSTOR!



Dezenas de lanças e espadas se ergueram contra mim.



Brianna imediatamente deu um passo à minha frente, tremendo, mas firme.



E então—



A voz de Caelia cortou o ar:



— Soldados… abaixem as armas.



Era calma.



Educada.



Ninguém obedeceu.



Então…



Caelia mudou.



A aura dela explodiu como uma tempestade de gelo. Uma energia azul e fria se espalhou, e a temperatura despencou. Os soldados engasgaram. O ar ficou pesado.



— Eu disse…

ABAIXEM.

SUAS.

ARMAS.



O chão tremeu.



As armas caíram como chuva metálica.



— M-mil perdões, comandante! — vários gritaram. — N-não vai acontecer de novo!



A aura desapareceu de repente.



E o sorriso ensolarado voltou.



— Perfeito! Agora sim está tudo certo!



Ela se virou para o forte.



— Arven é um dos Sete Heróis. Meu convidado. Quem levantar uma arma contra ele… lida comigo.



Ninguém ousou responder.



Ela olhou para mim, doce.



— Pronto. Tudo certo agora. Partiremos amanhã ao amanhecer. A Floresta do Medo fica a duas horas daqui. Vamos a cavalo até a entrada e depois seguiremos a pé. Descanse bem, meu querido Arven.



— Certo… — respondi, ainda tentando recuperar a alma.



Ela piscou.



— Ah, e lembre-se… se alguém encher seu saco, me avise.



E saiu andando com Arthur.



Eu virei para Brianna.



— …eu estou assustado — confessei.



Mas ela não estava ouvindo.



Estava murmurando baixinho, com a expressão fechada:



— Meu querido Arven? Quem ela pensa que é? Que intimidade é essa? Deveria ser Herói Arven…



Eu ri, e ela percebeu.



Pulou um pouco, corando.



— C-claro que ouvi! O que você disse, Herói Arven?



— Nada demais. Vamos indo.



— C-certo! Como desejar, Herói Arven!



Eu a encarei, sorrindo.



— Brianna… fizemos uma viagem longa. Passamos muito tempo juntos. Pode me chamar só de Arven.



Ela congelou.



Corou até as orelhas.



Abraçou o cajado como se quisesse esconder o rosto atrás dele.



— C-certo… como… como o senhor quiser, Herói… digo… Arven…



Eu sorri.



Depois que Caelia e Arthur foram resolver coisas do forte, Brianna e eu acabamos ficando… meio soltos pelo lugar.



— A-a gente podia… dar uma volta? — Brianna sugeriu, segurando o cajado contra o peito.



Eu concordei. Na verdade, ficar parado pensando na missão do dia seguinte parecia uma péssima ideia.



Então começamos um pequeno tour improvisado pelo Forte Frostbane.



O lugar era muito maior do que parecia de fora.



Passamos primeiro pelo pátio de treinamento. Vários soldados ainda praticavam mesmo com o sol já se pondo. Espadas batiam umas nas outras, escudos rangiam e o chão de terra estava marcado por centenas de pegadas.



Alguns pararam o treino quando passamos.



Outros continuaram.



Mas todos olharam.



Todos.



Alguns curiosos.



Outros… claramente desconfiados.



Um deles chegou até a rosnar baixo quando passei.



Eu fingi que não ouvi.



Brianna apertou o cajado com mais força.



— I-idiotas… — murmurou ela.



Continuamos andando.



Depois passamos pela cozinha do forte.



O cheiro de comida quente era forte ali dentro. Panelas gigantes estavam no fogo, e cozinheiros corriam de um lado para o outro preparando o jantar para dezenas de soldados.



Um deles olhou para mim por um segundo… depois voltou a cortar legumes como se nada tivesse acontecido.



Isso já era um progresso.



Brianna ficou parada olhando para uma bandeja de pães recém-assados.



— P-podemos pegar um?



— Acho que sim — respondi.



Pegamos dois e saímos rapidamente antes que alguém resolvesse reclamar.



Enquanto comíamos, seguimos para as muralhas.



De lá de cima dava para ver o horizonte.



Um vento frio passou pelas pedras da muralha.



Brianna ficou em silêncio.



Eu também.



— Amanhã… — ela murmurou.



— É — respondi.



Nenhum dos dois terminou a frase.



Depois disso, continuamos andando mais um pouco pelo forte.



Mas, mesmo enquanto explorávamos o lugar…



…eu sentia os olhares.



Sempre os olhares.



Alguns soldados cochichavam quando eu passava.



Outros apenas ficavam olhando.



Como se esperassem que eu fizesse algo.



Como se esperassem que eu provasse que era um monstro.



Eu não disse nada.



Só continuei andando.



Eventualmente voltamos para o alojamento onde ficaríamos aquela noite.



Brianna parecia cansada.



— B-bom… acho que vou tentar dormir… — disse ela, já bocejando.



— Boa ideia — respondi.



Ela entrou primeiro.



Eu fiquei alguns segundos olhando para o teto do forte… ouvindo o vento passar pelas torres.



Amanhã entraríamos na Floresta do Medo.



E alguma coisa me dizia que aquela noite seria a última noite tranquila por muito tempo.



Então entrei também.



E tentei dormir.



Tentei.



Mas minha cabeça claramente tinha outros planos...



A noite havia tomado completamente o Forte Frostbane.



O céu escuro pairava sobre as muralhas como um oceano infinito, salpicado de estrelas frias. O vento soprava constante entre as torres, carregando o cheiro de ferro, pedra e cinzas.



Eu não conseguia dormir.



Virei de um lado para o outro sobre a cama simples mais algumas vezes, encarando o teto de madeira enquanto meus pensamentos giravam sem parar.



Amanhã.



A Floresta do Medo.



Os elfos negros.



Meu próprio povo… ou algo próximo disso.



Soltei o ar devagar.



Não dava.



Levantei.



Coloquei o manto, puxei o capuz por costume e saí do quarto tentando não fazer barulho.



Ou pelo menos… tentando.



O forte ainda estava acordado, mesmo naquele horário. Alguns guardas patrulhavam as muralhas, suas armaduras refletindo a luz das tochas. Outros conversavam baixo perto de uma fogueira, interrompendo a conversa quando me viam passar.



Os olhares.



Sempre os olhares.



Alguns curiosos.



Outros desconfiados.



Outros… claramente hostis.



Ouvi um deles murmurar quando passei.



— Ele anda como um predador…



Outro respondeu, em voz baixa:



— Não tire os olhos dele.



Continuei andando, fingindo não ouvir.



Eu só precisava de ar.



Subi uma escada de pedra que levava até uma das partes mais altas da muralha.



E foi então que a vi.



Caelia estava lá.



Sozinha.



De pé, olhando para a escuridão além do forte.



Ela não virou o rosto.



Nem se moveu.



Mas falou.



— Herói Arven… não está conseguindo dormir?



Meu coração deu um pequeno salto.



— C-como… como você sabia que era eu?



Ela respondeu calmamente, ainda olhando para frente.



— Diferente dos elfos da Floresta do Medo, que conseguem ser extremamente silenciosos… você é muito barulhento. Sua respiração é alta. Seus passos são pesados.



Pisquei algumas vezes.



— Ah… entendi — falei, meio sem graça. — Então… não sou um elfo negro completo, né?



Ela virou o rosto lentamente e me observou com atenção.



— Não é bem isso.



Ela cruzou os braços.



— Na verdade, vendo que você não é nada silencioso… posso confirmar uma teoria minha.



Franzi a testa.



— Que teoria seria essa?



— Os elfos da Floresta do Medo são extremamente silenciosos — explicou ela. — Movem-se sem som.



Ela deu um pequeno passo em minha direção.



— Mas você não.



Ela me analisou da cabeça aos pés.



— Porém você é um elfo negro como eles. Então… o que isso significa?



Eu abri a boca.



Mas não tinha resposta.



— Eu… não sei.



Ela sorriu levemente.



— Isso significa que o silêncio extremo deles não é uma habilidade de espécie.



Ela levantou um dedo, como um professor dando uma aula.



— É treinamento.



Ela continuou:



— Tenho certeza de que você nunca viveu na floresta como eles vivem. Nunca precisou sobreviver como eles sobrevivem. Seu corpo nunca foi moldado por aquele ambiente.



Ela me encarou diretamente.



— Você não é silencioso… porque não viveu como eles vivem.



Pensei por um momento.



— Ah… entendo.



Assenti.



— É uma boa teoria.



O sorriso dela apareceu instantaneamente.



— Obrigada!



Ela pareceu genuinamente feliz.



— Eu adoro fazer teorias sobre a Floresta do Medo. Tenho várias.



Ela se virou novamente para a escuridão da floresta.



— Ficaria feliz em te contar algumas delas.



Sorri.



— Ah… tá bom. Eu adoraria ouvi-las.



Ela ficou em silêncio por um instante.



Então perguntou:



— Quero saber uma coisa… você consegue enxergar bem no escuro?



Inclinei a cabeça.



— Eu li isso em um livro no palácio. Que elfos conseguem enxergar no escuro.



Balancei a cabeça.



— Mas eu não consigo. Pra mim o escuro continua sendo... escuro.



Ela congelou.



Os olhos focados em mim.



Então começou a murmurar para si mesma.



— Mas por quê…?



Ela levou a mão ao queixo.



— Será algum tipo de habilidade que não nasce com eles… mas é treinada… aprendida com o tempo…?



Ela começou a andar lentamente de um lado para o outro.



— Ou talvez seja o ambiente… adaptação progressiva… exposição contínua à escuridão da floresta…



Ela continuou falando sozinha, completamente imersa no próprio raciocínio.



Eu fiquei apenas observando.



Ela parou de repente.



Os olhos brilhavam.



— Fascinante…



Ela começou a andar em círculos ao meu redor, me analisando como se eu fosse um experimento vivo.



— Tem todas as características físicas de um elfo negro…



Ela inclinou a cabeça.



— Mas não demonstra as mesmas habilidades…



Ela sorriu.



— Isso é bastante intrigante.



Ela parou bem na minha frente.



Muito perto.



Perto demais.



— Você não faz ideia do quão interessante você é, Arven.



Pisquei algumas vezes.



— É…?



Ela balançou a cabeça imediatamente, confirmando com entusiasmo.



— Muito.



Os olhos dela brilhavam intensamente.



Então ela voltou a olhar para a escuridão fora do forte, no horizonte.



— Eu realmente não vejo a hora de levá-lo até a Floresta do Medo.



Ela disse aquilo com uma animação quase infantil.



Como se estivesse falando sobre uma excursão divertida.



Não sobre a floresta mais perigosa do continente.



O vento frio soprou entre as muralhas.



Eu olhei para a escuridão junto de Caelia.



Depois olhei para ela.



Caelia parecia genuinamente empolgada.



Animada.



Quase feliz.



Para me levar a um lugar onde praticamente todo mundo que entra morre.



Engoli em seco.



Talvez eu devesse estar feliz por ter uma comandante tão confiante liderando a missão.



Mas naquele momento, um pensamento passou pela minha cabeça.



Talvez ela estivesse animada demais para alguém que estava prestes a me levar para o lugar mais perigoso que eu pisaria na vida.



E, por algum motivo…



isso não me tranquilizava nem um pouco.

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