Chapter 7:
O Vento Que Sussurrou Teu Nome
Depois disso, falamos do plano.
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Entraríamos a cavalo até certo ponto; depois seguiríamos a pé. A comandante levaria uma certa quantidade dos soldados do forte, e nossos oito guardas se juntariam a eles.
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A reunião terminou.
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Quando saímos, suspirei.
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— Esse foi o resumo mais assustador que já ouvi.
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Arthur respondeu:
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— Bem-vindo ao meu mundo, herói.
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A comandante então nos levou ao palanque central.
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— QUERIDOS SOLDADOS! — sua voz ecoou como um trovão alegre.
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Todos pararam e formaram fileiras.
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— A invocação dos Sete Heróis foi um sucesso!
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O forte vibrou em celebração.
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— E UM DELES ESTÁ AQUI!
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Mais gritos.
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Ela olhou para mim, com um sorriso malicioso.
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— Herói Arven, venha até aqui.
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Subi tremendo. Minhas mãos suavam.
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Então alguém gritou:
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— TIRA O CAPUZ, HERÓI!
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E outros repetiram:
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— MOSTRA O ROSTO!
— QUEREMOS VER O HERÓI!
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Eu travei.
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Olhei para Caelia.
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Ela fez um gesto: “Pode tirar.”
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Engoli seco.
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Devagar… muito devagar… puxei o capuz.
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Assim que meu rosto apareceu…
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Silêncio total.
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Então:
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— U-UM ELFO NEGRO?!
— ARMAS!
— É UM MONSTRO!
— É UM IMPOSTOR!
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Dezenas de lanças e espadas se ergueram contra mim.
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Brianna imediatamente deu um passo à minha frente, tremendo, mas firme.
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E então—
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A voz de Caelia cortou o ar:
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— Soldados… abaixem as armas.
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Era calma.
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Educada.
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Ninguém obedeceu.
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Então…
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Caelia mudou.
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A aura dela explodiu como uma tempestade de gelo. Uma energia azul e fria se espalhou, e a temperatura despencou. Os soldados engasgaram. O ar ficou pesado.
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— Eu disse…
ABAIXEM.
SUAS.
ARMAS.
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O chão tremeu.
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As armas caíram como chuva metálica.
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— M-mil perdões, comandante! — vários gritaram. — N-não vai acontecer de novo!
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A aura desapareceu de repente.
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E o sorriso ensolarado voltou.
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— Perfeito! Agora sim está tudo certo!
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Ela se virou para o forte.
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— Arven é um dos Sete Heróis. Meu convidado. Quem levantar uma arma contra ele… lida comigo.
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Ninguém ousou responder.
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Ela olhou para mim, doce.
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— Pronto. Tudo certo agora. Partiremos amanhã ao amanhecer. A Floresta do Medo fica a duas horas daqui. Vamos a cavalo até a entrada e depois seguiremos a pé. Descanse bem, meu querido Arven.
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— Certo… — respondi, ainda tentando recuperar a alma.
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Ela piscou.
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— Ah, e lembre-se… se alguém encher seu saco, me avise.
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E saiu andando com Arthur.
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Eu virei para Brianna.
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— …eu estou assustado — confessei.
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Mas ela não estava ouvindo.
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Estava murmurando baixinho, com a expressão fechada:
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— Meu querido Arven? Quem ela pensa que é? Que intimidade é essa? Deveria ser Herói Arven…
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Eu ri, e ela percebeu.
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Pulou um pouco, corando.
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— C-claro que ouvi! O que você disse, Herói Arven?
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— Nada demais. Vamos indo.
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— C-certo! Como desejar, Herói Arven!
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Eu a encarei, sorrindo.
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— Brianna… fizemos uma viagem longa. Passamos muito tempo juntos. Pode me chamar só de Arven.
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Ela congelou.
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Corou até as orelhas.
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Abraçou o cajado como se quisesse esconder o rosto atrás dele.
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— C-certo… como… como o senhor quiser, Herói… digo… Arven…
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Eu sorri.
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Depois que Caelia e Arthur foram resolver coisas do forte, Brianna e eu acabamos ficando… meio soltos pelo lugar.
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— A-a gente podia… dar uma volta? — Brianna sugeriu, segurando o cajado contra o peito.
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Eu concordei. Na verdade, ficar parado pensando na missão do dia seguinte parecia uma péssima ideia.
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Então começamos um pequeno tour improvisado pelo Forte Frostbane.
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O lugar era muito maior do que parecia de fora.
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Passamos primeiro pelo pátio de treinamento. Vários soldados ainda praticavam mesmo com o sol já se pondo. Espadas batiam umas nas outras, escudos rangiam e o chão de terra estava marcado por centenas de pegadas.
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Alguns pararam o treino quando passamos.
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Outros continuaram.
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Mas todos olharam.
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Todos.
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Alguns curiosos.
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Outros… claramente desconfiados.
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Um deles chegou até a rosnar baixo quando passei.
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Eu fingi que não ouvi.
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Brianna apertou o cajado com mais força.
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— I-idiotas… — murmurou ela.
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Continuamos andando.
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Depois passamos pela cozinha do forte.
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O cheiro de comida quente era forte ali dentro. Panelas gigantes estavam no fogo, e cozinheiros corriam de um lado para o outro preparando o jantar para dezenas de soldados.
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Um deles olhou para mim por um segundo… depois voltou a cortar legumes como se nada tivesse acontecido.
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Isso já era um progresso.
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Brianna ficou parada olhando para uma bandeja de pães recém-assados.
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— P-podemos pegar um?
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— Acho que sim — respondi.
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Pegamos dois e saímos rapidamente antes que alguém resolvesse reclamar.
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Enquanto comíamos, seguimos para as muralhas.
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De lá de cima dava para ver o horizonte.
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Um vento frio passou pelas pedras da muralha.
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Brianna ficou em silêncio.
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Eu também.
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— Amanhã… — ela murmurou.
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— É — respondi.
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Nenhum dos dois terminou a frase.
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Depois disso, continuamos andando mais um pouco pelo forte.
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Mas, mesmo enquanto explorávamos o lugar…
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…eu sentia os olhares.
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Sempre os olhares.
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Alguns soldados cochichavam quando eu passava.
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Outros apenas ficavam olhando.
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Como se esperassem que eu fizesse algo.
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Como se esperassem que eu provasse que era um monstro.
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Eu não disse nada.
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Só continuei andando.
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Eventualmente voltamos para o alojamento onde ficaríamos aquela noite.
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Brianna parecia cansada.
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— B-bom… acho que vou tentar dormir… — disse ela, já bocejando.
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— Boa ideia — respondi.
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Ela entrou primeiro.
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Eu fiquei alguns segundos olhando para o teto do forte… ouvindo o vento passar pelas torres.
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Amanhã entraríamos na Floresta do Medo.
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E alguma coisa me dizia que aquela noite seria a última noite tranquila por muito tempo.
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Então entrei também.
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E tentei dormir.
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Tentei.
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Mas minha cabeça claramente tinha outros planos...
A noite havia tomado completamente o Forte Frostbane.
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O céu escuro pairava sobre as muralhas como um oceano infinito, salpicado de estrelas frias. O vento soprava constante entre as torres, carregando o cheiro de ferro, pedra e cinzas.
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Eu não conseguia dormir.
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Virei de um lado para o outro sobre a cama simples mais algumas vezes, encarando o teto de madeira enquanto meus pensamentos giravam sem parar.
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Amanhã.
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A Floresta do Medo.
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Os elfos negros.
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Meu próprio povo… ou algo próximo disso.
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Soltei o ar devagar.
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Não dava.
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Levantei.
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Coloquei o manto, puxei o capuz por costume e saí do quarto tentando não fazer barulho.
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Ou pelo menos… tentando.
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O forte ainda estava acordado, mesmo naquele horário. Alguns guardas patrulhavam as muralhas, suas armaduras refletindo a luz das tochas. Outros conversavam baixo perto de uma fogueira, interrompendo a conversa quando me viam passar.
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Os olhares.
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Sempre os olhares.
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Alguns curiosos.
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Outros desconfiados.
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Outros… claramente hostis.
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Ouvi um deles murmurar quando passei.
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— Ele anda como um predador…
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Outro respondeu, em voz baixa:
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— Não tire os olhos dele.
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Continuei andando, fingindo não ouvir.
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Eu só precisava de ar.
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Subi uma escada de pedra que levava até uma das partes mais altas da muralha.
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E foi então que a vi.
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Caelia estava lá.
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Sozinha.
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De pé, olhando para a escuridão além do forte.
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Ela não virou o rosto.
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Nem se moveu.
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Mas falou.
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— Herói Arven… não está conseguindo dormir?
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Meu coração deu um pequeno salto.
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— C-como… como você sabia que era eu?
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Ela respondeu calmamente, ainda olhando para frente.
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— Diferente dos elfos da Floresta do Medo, que conseguem ser extremamente silenciosos… você é muito barulhento. Sua respiração é alta. Seus passos são pesados.
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Pisquei algumas vezes.
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— Ah… entendi — falei, meio sem graça. — Então… não sou um elfo negro completo, né?
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Ela virou o rosto lentamente e me observou com atenção.
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— Não é bem isso.
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Ela cruzou os braços.
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— Na verdade, vendo que você não é nada silencioso… posso confirmar uma teoria minha.
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Franzi a testa.
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— Que teoria seria essa?
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— Os elfos da Floresta do Medo são extremamente silenciosos — explicou ela. — Movem-se sem som.
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Ela deu um pequeno passo em minha direção.
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— Mas você não.
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Ela me analisou da cabeça aos pés.
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— Porém você é um elfo negro como eles. Então… o que isso significa?
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Eu abri a boca.
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Mas não tinha resposta.
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— Eu… não sei.
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Ela sorriu levemente.
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— Isso significa que o silêncio extremo deles não é uma habilidade de espécie.
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Ela levantou um dedo, como um professor dando uma aula.
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— É treinamento.
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Ela continuou:
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— Tenho certeza de que você nunca viveu na floresta como eles vivem. Nunca precisou sobreviver como eles sobrevivem. Seu corpo nunca foi moldado por aquele ambiente.
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Ela me encarou diretamente.
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— Você não é silencioso… porque não viveu como eles vivem.
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Pensei por um momento.
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— Ah… entendo.
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Assenti.
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— É uma boa teoria.
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O sorriso dela apareceu instantaneamente.
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— Obrigada!
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Ela pareceu genuinamente feliz.
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— Eu adoro fazer teorias sobre a Floresta do Medo. Tenho várias.
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Ela se virou novamente para a escuridão da floresta.
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— Ficaria feliz em te contar algumas delas.
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Sorri.
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— Ah… tá bom. Eu adoraria ouvi-las.
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Ela ficou em silêncio por um instante.
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Então perguntou:
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— Quero saber uma coisa… você consegue enxergar bem no escuro?
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Inclinei a cabeça.
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— Eu li isso em um livro no palácio. Que elfos conseguem enxergar no escuro.
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Balancei a cabeça.
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— Mas eu não consigo. Pra mim o escuro continua sendo... escuro.
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Ela congelou.
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Os olhos focados em mim.
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Então começou a murmurar para si mesma.
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— Mas por quê…?
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Ela levou a mão ao queixo.
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— Será algum tipo de habilidade que não nasce com eles… mas é treinada… aprendida com o tempo…?
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Ela começou a andar lentamente de um lado para o outro.
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— Ou talvez seja o ambiente… adaptação progressiva… exposição contínua à escuridão da floresta…
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Ela continuou falando sozinha, completamente imersa no próprio raciocínio.
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Eu fiquei apenas observando.
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Ela parou de repente.
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Os olhos brilhavam.
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— Fascinante…
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Ela começou a andar em círculos ao meu redor, me analisando como se eu fosse um experimento vivo.
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— Tem todas as características físicas de um elfo negro…
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Ela inclinou a cabeça.
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— Mas não demonstra as mesmas habilidades…
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Ela sorriu.
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— Isso é bastante intrigante.
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Ela parou bem na minha frente.
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Muito perto.
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Perto demais.
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— Você não faz ideia do quão interessante você é, Arven.
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Pisquei algumas vezes.
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— É…?
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Ela balançou a cabeça imediatamente, confirmando com entusiasmo.
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— Muito.
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Os olhos dela brilhavam intensamente.
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Então ela voltou a olhar para a escuridão fora do forte, no horizonte.
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— Eu realmente não vejo a hora de levá-lo até a Floresta do Medo.
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Ela disse aquilo com uma animação quase infantil.
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Como se estivesse falando sobre uma excursão divertida.
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Não sobre a floresta mais perigosa do continente.
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O vento frio soprou entre as muralhas.
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Eu olhei para a escuridão junto de Caelia.
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Depois olhei para ela.
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Caelia parecia genuinamente empolgada.
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Animada.
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Quase feliz.
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Para me levar a um lugar onde praticamente todo mundo que entra morre.
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Engoli em seco.
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Talvez eu devesse estar feliz por ter uma comandante tão confiante liderando a missão.
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Mas naquele momento, um pensamento passou pela minha cabeça.
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Talvez ela estivesse animada demais para alguém que estava prestes a me levar para o lugar mais perigoso que eu pisaria na vida.
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E, por algum motivo…
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isso não me tranquilizava nem um pouco.
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