Chapter 6:

O Vento Sussurrou: Pequenos Heroismos

O Vento Que Sussurrou Teu Nome


O balanço suave da carruagem embalava o silêncio quando Brianna finalmente acordou, depois de ter desmaiado algumas horas atrás. Era por volta do meio da tarde; o sol dourava a estrada e pintava sombras longas das árvores que passavam devagar pela pequena fresta da cortina.

Um som baixinho escapou dela. Seus cílios tremeram, piscou algumas vezes, confusa, franzindo o nariz como quem tenta lembrar o próprio nome.

— Ugh… onde…? — murmurou, tentando se sentar. Logo levou a mão à testa, sentindo a cabeça pesada. — Ahn… Herói Arven…?

Eu me inclinei, preocupado.

— Você desmaiou — expliquei. — Usou mana demais. Atravessou o rio, fez um espetáculo… e depois simplesmente caiu.

Os olhos dela se arregalaram por um instante, e então um rubor subiu instantaneamente até as orelhas.

— A-ah… é… agora eu lembro… foi muita mana mesmo… eu… eu exagerei… — admitiu, torcendo o tecido da túnica entre os dedos.

Cruzei os braços, tentando encarnar a figura responsável, mas provavelmente só pareci um professor cansado.

— Você devia ter feito aos poucos, Brianna. Era pra ser uma carruagem por vez. Você podia ter se machucado feio.

Ela afundou um pouco no banco, encolhendo os ombros.

— E-eu sei! Eu só… eu só queria… — apertou o cajado contra o peito, olhos fugindo dos meus — mostrar que era forte. Pra você. Que… que você ficasse impressionado…

Ela terminou quase num sussurro.

Eu pisquei… e depois comecei a rir, incapaz de segurar.

— Então foi isso? Você quis fazer cena? Poxa, conseguiu. Fiquei impressionado, sim — admiti, rindo. — Ainda mais agora que sei da sua motivação secreta.

— N-não precisava repetir em voz alta! — protestou, escondendo metade do rosto atrás do cajado. — Eu só… não queria parecer inútil.

Meu riso foi diminuindo até virar um sorriso.

— Eu entendo. De verdade. Mas você não precisa provar nada pra mim. Você já é incrível.

Ela congelou por um segundo. O rosto inteiro ficou vermelho, mas, pela primeira vez, Brianna sorriu sem gaguejar.

Algumas horas depois, a estrada começou a se aproximar de uma pequena aldeia. Eu percebi primeiro pelo cheiro de fumaça de lenha e pelo som de vozes misturado ao cacarejar de galinhas.

E então ouvi gritos.

— Eles voltaram! — uma voz masculina, desesperada.

— Corram! Peguem as panelas! — outra, mais aguda.

A curiosidade cutucou minha alma cansada.

Abri um pouco a cortina. Do lado esquerdo da estrada, um campo de plantação, aparentemente de algum tipo de grão, estava sendo atacado por uma nuvem viva de pássaros escuros, corvos em sua maioria. Vários aldeões corriam em volta, batendo panelas, pedaços de madeira e pedras, tentando enxotar os invasores.

A carruagem continuou avançando. Eu mordi os lábios.

Sou um dos heróis invocados, certo? Herói da Tocha, mas ainda assim herói. Eu não conseguia apenas… passar reto.

— Só um minuto — falei, já abrindo a porta.

Brianna ergueu a mão, alarmada.

— H-herói Arven, e-espera! Você não deve sair da carruagem!

Ergui o capuz, cobrindo bem os cabelos e parte do rosto.

— Capuz, Brianna. Capuz. Tô seguindo o protocolo.

Ela suspirou, derrotada.

— Só não demore… por favor…

Saltei da carruagem ainda em movimento, ouvindo um dos guardas gritar atrás de mim:

— Herói Arven, volte para dentro!

— Já vou! — respondi, mentindo descaradamente. — Só vou dar uma olhada!

Eu senti o olhar pesado do Capitão Arthur queimando minha nuca, mas, dessa vez, ele não disse nada. Talvez já tivesse entendido que eu era teimoso demais pra ser controlado cem por cento do tempo.

Aproximei-me do campo. Um dos aldeões, uma mulher de meia-idade com uma panela de barro na mão, batia nela com uma colher de madeira freneticamente.

— Senhora! — chamei, me aproximando, com as mãos erguidas em sinal de paz. — O que está acontecendo?

Ela me olhou rapidamente de cima a baixo, tentando me enquadrar em alguma categoria: viajante, nobre, maluco, tudo ao mesmo tempo.

— Quem é o senhor? — perguntou, ofegante.

— Só um viajante que tá de passagem. Mas talvez eu possa ajudar.

Ela hesitou. Olhou de relance para o comboio de soldados, depois de volta pra mim.

— Esses malditos corvos vivem destruindo nossas plantações — resmungou. — Todo ano é a mesma coisa. A gente se reveza pra ficar de vigia batendo panela, jogando pedra, gritando… e mesmo assim eles voltam.

Eu observei o campo. O cenário era familiar demais.

— Vocês já tentaram fazer espantalhos?

Silêncio.

Ela franziu o cenho.

— Esp… o quê?

— Espantalho. Um boneco pra parecer um humano no meio da plantação. Vocês põem roupas velhas, chapéu, braços abertos… os pássaros pensam que tem alguém lá e evitam o lugar.

Ela piscou.

— Nunca ouvi falar. Isso… funciona?

— Claro que funciona — respondi. — Vamos tentar?

Em poucos minutos, aproveitando restos de madeira, palha e roupas velhas, montamos um boneco tosco, mas funcional. Enfiamos um chapéu rasgado na “cabeça” e o colocamos bem no meio do campo.

Os corvos planavam numa dança caótica acima das plantas… e então, quando notaron a figura parada no centro, começaram a se afastar, desconfiados. Aos poucos, o bando se dispersou, até desaparecer completamente no céu.

Os aldeões ficaram olhando, em silêncio, como se tivessem presenciado um milagre.

— Isso é feitiçaria? — murmurou um rapaz.

— Não — respondeu a mulher, um brilho surgindo nas pupilas. — Isso é… isso é… isso é genial!

Sorri, um pouco sem graça.

— Vão precisar de mais alguns. Um só espantalho pode funcionar por uns dias, mas se espalharem quatro ou cinco pelo campo, eles praticamente não voltam.

As pessoas começaram a falar todas ao mesmo tempo, me agradecendo, me abençoando, querendo saber meu nome, minha origem, se eu um sábio enviado dos deuses. Eu só queria voltar vivo pra carruagem.

Quando finalmente consegui me desvencilhar, o comboio retomou movimento, e os aldeões ficaram acenando, como se eu tivesse devolvido um pedaço da colheita que eles ainda nem tinham perdido.

Mais à frente, já com o sol descendo um pouco, encontramos um mercador ajoelhado no meio da estrada, desesperado, recolhendo caixas espalhadas pelo chão.

A carroça dele estava inclinada, quase tombando, uma das laterais completamente desamarrada.

— Minhas mercadorias! Minhas mercadorias! — ele lamentava. — Se quebrar tudo, tô arruinado!

Desci mais uma vez, ignorando o olhar exausto de Arthur. Examinei a carroça. A corda que prendia as caixas tinha sido amarrada de qualquer jeito, um emaranhado frouxo.

— O problema é esse nó aqui — expliquei, apontando. — Com a vibração da estrada, ele escapa fácil. Tem um jeito melhor de prender isso.

O mercador me olhou como se eu tivesse entrado na cabeça dele e consertado as finanças da família.

— Tem?

Mostrei um tipo de amarração que eu via todos os dias nos caminhões da fábrica. Um padrão cruzado, firme, com pontos de travamento.

Ele testou, sacudindo uma das caixas. Nada se moveu.

— Jovem… — ele respirou, quase emocionado. — Você salvou minha carga.

E, como todo bom NPC grato, me presenteou com garrafas de vinho tinto forte e outras de bebidas transparentes com um cheiro suspeito de “isso vai queimar sua garganta até a alma”.

Os guardas olharam para as garrafas como crianças que veem doce.

— Acho que alguém acabou de virar nosso herói favorito — murmurou um deles, dando uma cotovelada no outro.

Os outros dias seguiram nesse ritmo.

Uma roda emperrada que eu consegui destravar usando uma pedra grande como alavanca.

Um camponês que não sabia fazer o telhado com inclinação suficiente, e eu expliquei o básico: “se a água não escorrer, vai juntar peso, e aí desaba”.

Uma cerca que vivia abrindo com o vento, resolvida com um simples reforço diagonal.

Coisas simples. Coisas pequenas. Coisas que, no meu mundo, qualquer vídeo de cinco minutos explicaria, mas que ali, naquele lugar, eram coisas até que bem comllicadas. Esse mundo realmente mesmo com magia ainda era muito atrasado.

Cada parada rendia um “obrigado”. Cada rosto desconfiado se transformava em surpresa. E, aos poucos, essa surpresa virava admiração.

Naquela noite, acampamos perto de um pequeno bosque, sob um céu que começava a ficar lilás.

Dessa vez, não montaram o acampamento fingindo que eu não existia.

Dessa vez… me chamaram.

— Ei, Herói Arven! — um dos soldados acenou, com um sorriso sincero. — Venha aqui beber conosco!

Olhei para Brianna. Ela me encarou com um brilho satisfeito.

Fui.

A fogueira estalava, jogando faíscas para o alto. Os soldados sentaram em círculo, copos improvisados em mãos. O hidromel e o vinho foram abertos como se fossem tesouros de uma guilda perdida.

— Primeiro gole é seu — disse o soldado que mantinha a garrafa. — Foi você quem conseguiu isso.

Tomei um gole. Era forte, doce e quente ao mesmo tempo.

As histórias começaram a surgir. Batalhas na fronteira. Patrulhas em noites de neve. Histórias de amores deixados pra trás, de azar em tavernas, de sorte em cartas.

Em algum momento, um dos soldados me puxou pra um lado, com uma adaga na mão.

— Já que o senhor é um dos heróis deve saber usar melhor essa adaga. — Ele estava meio bêbado. — Segure assim.

Passei a próxima meia hora aprendendo a golper com a adaga. Eles me ensinaram a estocar, não cortar. A usar o peso do corpo, a mirar em pontos vitais

— Você aprende rápido — comentou um soldado robusto. — Se continuar assim, pode ser um ótimo ladino usando essa adaga.

— Ou morrer tentando — outro completou, rindo alto.

E eu ri junto.

Até Brianna se aproximou da fogueira. Com um copo de bebida nas mãos, ela foi ficando… diferente. Cada gole a deixava mais falante, mais corajosa, mais risonha.

— Herói Arven! — disse, já um pouco corada demais. — Eu… eu acho você incrível.

Fiquei corado e não consegui dizer nada em resposta.

Os guardas riram alto com a cena.

Aquele momento tinha cheiro de “noite tranquila de taverna de RPG”, e minha alma isekai agradeceu.

Mas nem tudo era calor.

Um pouco afastado, na sombra de uma árvore, estava Arthur.

Sentado, sem beber. Imóvel. Apenas observando.

Sempre observando.

Quando a risada já estava alta e o álcool aquecia o espírito, eu levantei com uma das garrafas na mão e fui até ele.

— Capitão. — ergui a garrafa. — Quer beber com a gente?

Ele virou o rosto apenas o suficiente para me encarar.

— Não bebo durante o trabalho — respondeu, seco. — E sempre estou em trabalho.

— Mas… só um pouco…

— Eu disse não.

A lâmina na voz dele cortou o ar. Não era um grito. Era pior: uma negativa absoluta.

Assenti, sem argumentar, e voltei para a fogueira.

Enquanto eu ria com os outros, ele permaneceu lá atrás, uma sombra rígida contra a noite. E foi assim todos os dias: eu me aproximando dos guardas, e Arthur permanecendo uma muralha distante.

Os dias seguintes passaram como páginas dobradas.

Outras aldeia. Outros problema simples.

Outros mercadores. Outros nós malfeitos corrigidos.

Mais risadas à noite. Mais goles divididos. Mais tentativas de me ensinar golpes com a adaga.

Brianna, cada vez mais à vontade, brigava com o próprio cajado quando tropeçava nele.

Os guardas passaram a me tratar como “um de nós”, não só como “o fardo do Rei”. Eu já não me sentia tão inútil. Eu era o cara que resolvia coisas. O cara do espantalho. O cara dos nós. O cara das pequenas soluções.

Mas Arthur continuava sendo Arthur.

Distante.

Sério.

Olhos sempre atentos, especialmente quando se tratava de mim. Acredito que ele não confia ainda em mim, esta sempre me vigiando.

Ao final do oitavo dia de viagem, o ar mudou.

O vento parecia mais frio, mesmo com o sol ainda acima do horizonte. Os pássaros, que costumavam cantar durante o caminho, desapareceram. A estrada estava… silenciosa demais.

Eu estava dentro da carruagem, brincando de girar a adaga na mão (pela milésima vez), quando senti o silêncio pesar nos ouvidos.

Foi então que a voz de Arthur cortou o ar, forte e afiada:

— Formação! Bandidos!

A carruagem freou. Meu corpo jogou para frente.

Puxei a cortina instintivamente e, antes mesmo de ver qualquer coisa, uma flecha atravessou o espaço entre as cortinas, passando a poucos centímetros da minha bochecha e saindo pelo outro lado da carruagem.

O ar quente cortou meu rosto.

Eu pulei para trás, o coração disparando.

— Arven! — Brianna se virou para mim, assustada. — Você está bem?!

Toquei o rosto, sentindo apenas um fio de ardor.

— T-tô. Por pouco… — respondi, engolindo em seco.

Ela apertou o cajado com força.

— Fique na carruagem! — ordenou, com mais firmeza do que eu esperava. — Não saia! Eu volto assim que acabar!

Antes que eu pudesse responder, ela abriu a porta e pulou pra fora.

Imediatamente, o som da batalha invadiu a carruagem: o choque metálico de espadas, gritos, relinchos, o assobio do vento sendo manipulado pela magia de Brianna.

Eu fiquei ali, respirando rápido, com as mãos tremendo.

Eu devia sair? Eu podia fazer algo?

A resposta racional era não. Se eu saísse, só atrapalharia. E, honestamente, eu ainda não tinha nenhuma vontade de descobrir como era morrer num mundo de fantasia.

Então permaneci ali, ajoelhado no chão da carruagem, ouvindo o caos do lado de fora.

Até que a porta se abriu com um estrondo.

Eu virei na hora, mão indo automaticamente à adaga.

Um homem entrou cambaleando na carruagem. Roupas de couro gastas, barba por fazer, uma cicatriz atravessando o queixo. Cheirava a suor, sangue e má intenção.

Ele olhou para mim e sorriu com uma crueldade cansada.

— Então é aqui que guardam o tesouro, hein? — rosnou, avançando. — Mandaram eu conferir o que tinha nessa carruagem especial.

Eu tentei puxar a adaga, mas ele foi mais rápido.

As mãos dele agarraram meu pescoço com força. Fui empurrado contra a parede interna, o ar escapando dos meus pulmões.

— Vamos matar todos esses idiotas de armadura… — sussurrou, o hálito quente e azedo batendo no meu rosto. — E depois vamos levar tudo o que tiver de valor aqui.

Apertei os dedos dele, tentando afastá-los. Nada. Era como tentar mover uma prensa hidráulica.

Ele riu.

— E aquela maguinha bonita lá fora… — continuou, com um sorriso nojento. — Ah, ela vai dar um ótimo brinquedo depois que acabarmos o trabalho.

Algo dentro de mim… quebrou.

Raiva. Desespero. Medo. Tudo misturado em um nó quente.

Minha visão começou a escurecer nas bordas. A mão que ainda conseguia se mexer subiu, tremendo, até o rosto dele.

Ele viu o movimento e riu.

— O que vai fazer, hein, fracote? — apertou mais.

Eu puxei o pouco de mana que tinha, o treinamento repetido do Lux Minima ecoando na cabeça.

Concentrar. Luz. Palma da mão.

Uma explosão de luz branca e dourada brilhou nos olhos dele, a centímetros do rosto.

Ele gritou.

— Aaaaah!

O aperto em meu pescoço afrouxou. Ele cambaleou para trás, levando as mãos aos olhos.

— Maldito! O que você fez?! Eu não tô enxergando!

Eu caí de joelhos, engasgado, puxando o ar para meus pulmões. A luz sumiu, mas o efeito estava feito. Meus dedos ainda tremiam, mas consegui fechar a mão em volta do cabo da adaga.

Ele voltou a avançar, tropeçando um pouco.

— Vou te matar… vou te matar, seu desgraçado!

Ergui a adaga e fiz o que os soldados tinham me ensinado: em vez de balançar a lâmina de qualquer jeito, avancei com uma estocada.

A ponta cortou o braço dele, deixando uma linha vermelha brilhante.

— Argh! — ele recuou, segurando o ferimento. — Seu rato!

Ele veio de novo, dessa vez agarrando o meu manto. Com um puxão, o capuz saiu, revelando meu rosto inteiro.

Por um segundo, ficamos frente a frente.

Eu vi a raiva no rosto dele.

Depois, vi a raiva sumir.

A expressão dele se contorceu.

Os olhos se arregalaram.

— N-não… — murmurou. — Não… não… um daq… daqueles…

Ele recuou mais um passo, tropeçando na própria perna.

— Um dos demônios da Floresta do Medo…

Ele estava mais pálido do que o próprio medo.

Eu, ainda ofegante, só conseguia encará-lo de volta.

— M-me perdoe… — ele gaguejou, erguendo uma das mãos em súplica. — Por favor… por favor, não me mate…

Eu levantei a adaga por instinto. O brilho metálico se refletiu nos olhos apavorados dele.

Ele virou e correu, tropeçando pela porta da carruagem, caindo de cara no chão lá fora. Se levantou às pressas e começou a se arrastar, desesperado, como se o próprio inferno estivesse atrás dele.

Eu saí da carruagem, ainda atordoado, com o peito ardendo e a mão firme na adaga.

O bandido continuava engatinhando pela estrada suja, até bater a cabeça contra algo sólido.

Uma bota.

Ele ergueu o olhar.

O Capitão Arthur o encarava de cima, espada ainda manchada de sangue, respiração firme.

— P-por favor… — o bandido implorou, tremendo. — Eu… eu me entrego! Eu me rendo! Só não deixa ele chegar perto de mim! — apontou para mim com a mão trêmula. — Aquele… aquele monstro!

Arthur olhou para o bandido, depois virou levemente o rosto na minha direção, como se quisesse ter certeza de que eu estava ouvindo.

— Fique tranquilo — disse, a voz baixa e gelada. — Ele não vai fazer nada com você.

Por um segundo, o bandido pareceu acreditar. Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios, quase um começo de alívio.

Então Arthur completou:

— Porque eu vou te matar antes disso.

A espada desceu em um arco limpo.

O som foi seco.

A cabeça do bandido se separou do corpo como se fosse apenas mais um problema prático resolvido. Rolou pela estrada, manchando o chão de vermelho, parando a poucos passos de mim.

Eu fiquei paralisado.

Os olhos, ainda arregalados, pareciam fixos em mim. A boca aberta, congelada em um último pedido que ninguém ia ouvir.

Meu estômago virou. Minha garganta fechou.

Era a primeira vez que eu via uma cabeça… separada… tão perto. Eu não sabia se queria vomitar, chorar ou apenas desligar a consciência por uns minutos.

Ao redor, o mundo começou a voltar em pedaços.

Corpos.

Corpos por toda parte.

Bandidos espalhados pela estrada, alguns caídos de bruços, outros de costas, sangue escorrendo pela terra e misturando-se ao pó. A floresta em volta parecia ter prendido a respiração.

Soldados nossos, ofegantes, limpando lâminas, ajeitando armaduras.

— Quinze… — ouvi um deles dizer. — Contando esse aí, são quinze.

— Algum de nós caiu? — Arthur perguntou, sem olhar para ninguém em específico.

— Não, Capitão. Dois feridos, cortes superficiais. Nada grave.

Arthur assentiu, como se a resposta fosse apenas mais um número em um relatório.

Eu ainda encarava a cabeça no chão. Era difícil descrever o que eu sentia. Parte de mim sabia que aquele homem teria me matado sem hesitar, que teria feito coisas muito piores com os outros se tivesse chance. A outra parte… a parte humana, de fábrica, metrô e noticiário… só via um corpo que não se mexia mais.

— Brianna! — ouvi minha própria voz, rouca. — Brianna, onde você está?!

— Aqui! — a voz dela veio da lateral da estrada.

Virei na direção do som. Ela estava apoiada no cajado, respiração pesada, cabelo grudado na testa pelo suor. Algumas folhas secas tinham se prendido à túnica. Mas ela estava inteira.

Antes que ela pudesse se aproximar mais, eu fui até ela e a abracei com força, quase esmagando o cajado entre nós.

— Que bom que você está bem… — murmurei, só então percebendo quão tenso eu estava.

Ela congelou por um segundo, depois relaxou lentamente, as mãos flutuando no ar até pousarem, hesitantes, nas minhas costas.

— M-me desculpe… — ela sussurrou, envergonhada. — Eu vi um dos bandidos correndo em direção à carruagem, mas eu estava cercada… eles tinham um mago de vento também, ele me atrapalhou… não consegui chegar a tempo…

Me afastei o bastante para olhar nos olhos dela.

— Ei. — balancei a cabeça. — Você não tem que se desculpar de nada. Se não fosse você, isso aqui teria sido bem pior.

Ela mordeu o lábio, mas assentiu, os olhos ainda brilhando com adrenalina.

Ao nosso redor, os guardas começaram o trabalho silencioso do pós-batalha.

Recolher armas que valessem alguma coisa.

Puxar os corpos dos bandidos para fora da estrada.

Cavar uma vala rasa em um ponto afastado, onde a terra era mais macia.


— Não podemos deixar tantos cadáveres aqui perto da estrada — disse um soldado, ao perceber que eu observava. — Atrai bicho… e problema.

Dois homens arrastavam um corpo pelas axilas. Um terceiro carregava as bolsas dos bandidos, vasculhando por moedas e documentos.

Arthur deu as ordens com a mesma frieza de sempre, como se organizar a morte fosse só mais uma função da sua patente.

— Joguem todos na mesma vala — determinou. — Recolham qualquer coisa que identifique uma guilda ou bando. Se forem só ladrões comuns, a terra cuida deles.

Eu me forcei a guardar a adaga. Minha mão ainda tremia levemente.

Um dos guardas se aproximou de mim, batendo de leve no meu ombro.

— Bom golpe, herói. — Ele apontou para o meu pescoço. — E boa luz. Se não fosse isso, ele tinha te estrangulado.

— Eu só… fiz o que deu pra fazer — respondi. Minha voz não soou heroica. Só cansada.

Quando o buraco ficou pronto, começaram a empurrar os corpos para dentro. Uma fila de formas humanas, anônimas, indo para o mesmo lugar final. Quinze bandidos, uma cova coletiva, um monte de terra devolvido ao mundo como se nada tivesse acontecido.

No fim, colocaram algumas pedras maiores sobre o montinho recém-fechado. Não era exatamente respeito. Era mais… praticidade.

A noite começou a cair devagar, tingindo o sangue seco de marrom escuro. A fogueira que montamos depois parecia menor do que nos outros dias, mesmo sendo do mesmo tamanho.

Os soldados ainda riram, ainda beberam um pouco das bebidas que restavam, mas havia uma camada de silêncio por baixo de tudo, um cansaço mais fundo.

Arthur, como sempre, ficou afastado. Ainda desconfiado.

Mais tarde, quando me deitei dentro da carruagem, o balanço conhecido não me acalmou como antes.

Eu fechei os olhos, mas a imagem da cabeça rolando, dos olhos arregalados, voltava sempre que o escuro se fechava.

Os pequenos heroísmos do dia, o espantalho, os nós de corda, as risadas na fogueira, pareciam muito distantes, como se tivessem acontecido com outra pessoa.

Eu estava a caminho da Floresta do Medo.

E, pela primeira vez, comecei a me perguntar se o que os outros viam quando olhavam pra mim… era mesmo um herói ou seria aquela mesma visão que o bandido teve, Lembro-me do que ele disse, "um daqueles demônios da floresta do medo".

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