Chapter 4:

A vontade

Falso Céu


Os olhos dourados me analisam de cima a baixo, julgando a pobre alma diante dele. As franjas de seu longo cabelo verde são levadas pela suave brisa que paira no corredor, os fios cobrem parcialmente os óculos circulares. Ele veste um terno preto impecável, gravata verde-escura presa por um broche à direita. A face já madura me observa em silêncio — até os sussurros do longo corredor chegaram a um fim. A pressão deixa de existir.

É respeito? Provável, este homem parece ser alguém importante. O longo manto cinza esconde meu corpo trêmulo à sua frente. Não tenho certeza se ele percebe, mas espero que não.

Por um momento minha voz hesita em respondê-lo, entretanto... isso não importa, se desejo estudar aqui, não posso me deixar levar por momentos tão triviais como esse.

— ... M-me chamo, Aldric. — Droga, na minha mente isso era mais fácil.

??? — Tudo bem, Aldric. Não tenha medo. Sou o seu mais novo professor, Lucien da família nobre Thorne. — Sua voz é acolhedora, e o rosto sério dá lugar a um belo sorriso direcionado a mim.

O peso em meus ombros se mantém, mas sou capaz de ao menos caminhar. A minha resposta nunca veio, apenas um aceno.

Lucien — Siga-me, vou te levar até sua sala. — Obedeço às suas ordens enquanto atravessávamos o enorme corredor. As crianças abrem o caminho, como se uma força invisível as empurrasse para os lados. Os pequenos sussurros ainda ressoam no ambiente, mas não sou capaz de escutá-los. Meus instintos dizem que o que devo focar está bem a minha frente.

Que pensamento mais unilateral. O silêncio é cortado por uma voz firme.

Lucien — De fato, uma grande coincidência.

— O que quer dizer com isso, Senhor Lucien? — Movi minha mão até o queixo, levantando a sobrancelha.

Lucien — Antes de encontrá-lo, estava olhando os alunos da sala que você pertence. Graças a isso pude saber qual seria sua sala. — Virou o olhar para mim com o grande sorriso estampado no rosto.

Será que isso realmente é considerado sorte? A presença desse homem ainda me incomoda. Talvez seja a bondade que é estranha. Talvez ele não saiba. E é Melhor assim.

Mas nesse caso eu pareço um plebeu, ele é um nobre... então no fim não tem sentido algum. Parando pra pensar... caralho, eu estou questionando a bondade de alguém sem razão alguma... devo ser idiota.

— pff

Uma breve risada escapa dos meus lábios.

Lucien — Está tudo bem, Aldric? — Questiona-me com certa preocupação no olhar, enquanto se mantém parado à frente de uma porta.

— Ah, sim, Senhor Lucien. — Respondo antes mesmo de terminar de falar, não quero manter ninguém preocupado. — Mas por que você parou, Senhor Lucien?

Lucien — Primeiro, apenas Lucien, ou professor. Segundo, essa é a sua sala. — Sua face me repreendia por algo que nem eu mesmo sou capaz de entender. Não devo chamar alguém da nobreza de forma mais formal?

— Vou tentar, Sen- professor. — Por um momento esqueço do que me foi dito. Tudo isso é muito estranho. O mundo é tão diferente assim?

Lucien — Agradeço o seu esforço. — Levando sua mão em direção à maçaneta, abrindo-a. — Bem-vindo à sua mais nova vida, Aldric.

Sinto o ar fugir do meu peito ao olhar através da porta. As palavras travam na minha garganta; só posso entrar e aceitar aquele lugar. Passo à frente do professor e observo a sala.

As grandes janelas em formato quadriculado são detalhadas pelo dourado da matéria celestial do céu. As mesas são brancas, feitas com uma espécie de madeira que brilha mesmo no lugar mais escuro que se possa imaginar. Me pergunto como podiam haver tantas — é uma madeira rara. O chão é coberto por um material negro que reflete o brilho intenso da sala.

Quantas pessoas há aqui?

Antes mesmo de conseguir a resposta, vou em direção à mesa da direita, no fundo da sala. Ao entrar, o professor fecha a porta e senta-se na mesa à frente. Agora que percebo, em nenhum momento pediu para que eu me apresentasse.

Por que?

Não consigo pensar. Todos falam ao mesmo tempo, enquanto o professor apenas observa em silêncio, esperando que todos se calem. Não faço parte do barulho, afinal, ainda não me aproximei de ninguém.

BAM

A batida de mesa ecoa pela sala barulhenta, rapidamente se tornando silenciosa.

Lucien — Agora, vamos começar. — Ele retira a mão da mesa, levantando-se de sua cadeira. Breves sussurros percorrem sorrateiramente pela sala.

Aluno ao fundo — Aquele garoto de manto não parece ser pobre?

Aluno ao fundo — Agora que mencionou... realmente ele não tem traços nobres.

Devo ignorar? Devo espancá-los? Quebrá-los assim como Caelion me disse? Minha mãe se esforçou demais para me trazer até aqui.

Eu não vou estragar isso.

— Merda... —

Lucien — Silêncio! — Sua voz se torna rígida. — Podemos começar? — Ele se vira para a sala com um rosto fechado e, em minha visão, todos os alunos acenam. — Perfeito! — O sorriso retorna a sua face.

Lucien — Primeiro, me chamo Lucien, da casa nobre Thorne. — O professor disse, enquanto escreve o nome em um grande quadro. — Caros alunos, o que a escola de Celestia prega?

Pergunta, retornando sua visão para nós.

Uma mão se ergue.

Lucien — Diga-me, Tess.

Seus fios loiros caem sobre seus olhos azuis. Uma roupa e calça sociais tão brilhantes quanto a mesa da sala cobrem suas pequenas asas angelicais. E ao lado direito de sua roupa um pequeno broche, semelhante ao do professor.

Tess — A escola prega a superioridade dos mais fortes, mas além disso, raças puras. Não é, professor? — Ao olhar em sua direção, vejo o mesmo se inclinando na mesa.

Por um momento o professor parece hesitar, mas não por muito tempo.

Lucien — É uma resposta parcialmente certa, Tess. De fato, Celestia prega a força. Mas... independente da raça ou classe, caso alguém for forte, qual nosso direito de julgá-lo, não é mesmo? Então, caso alguém seja tão talentoso quanto você, sendo de classe "inferior", qual será seu direito de se pôr acima de tal pessoa?

O lábio superior do menino se levanta com nojo de tal coisa.

— Ele realmente acha que é superior a alguém só pela raça? Farei questão de quebrá-lo.

Fecho os punhos com a promessa.

O professor pôs a mão em seu próprio queixo e franze levemente a sobrancelha.

Outra mão se ergue em busca da permissão.

Lucien — Ah! Zatória, sinta-se à vontade.

Cabelos brancos contrastam os olhos negros do garoto. Uma roupa formal preta é seguida por uma calça social cinza. Por que não consigo ver suas asas? O broche reside no mesmo local.

— Então essa é a roupa da Escola de Celestia... mas por que a presença desse garoto é tão familiar?

Sem nem ao menos perceber, meus pés começam a levemente bater no chão. O chão frio começa a entrar em conflito com o calor do meu corpo.

— Eu preciso relaxar...

Fixo meu olhar no menino de cabelos brancos.

O garoto sem pressa alguma, levantou-se do lugar.

Zatória — Eu discordo da opinião de Tess. Mesmo que a força seja o tópico mais pregado na escola, não devemos desqualificar o fato de que diversas pessoas podem ter talento, porém, não tiveram um ambiente favorável para despertá-lo.

Tess — Então o plebeu ficou ofendido? — Balbucia olhando em direção a Zatória.

— Esse filho da puta...

Então o mercador estava errado. O mundo nunca tratará todos de forma igual, não sei como pude acreditar em algo tão idiota.

Meus punhos se fecham, mas são impedidos pela voz do garoto de cabelos brancos.

Zatória — Entenda que a vida não se baseia apenas em títulos, Tess. Se você realmente acredita que um título define quem você é... você não vale mais do que um lixo a ser descartado. Afinal... quem você seria sem isso? — Retruca com o tom zombeteiro.

Tess — Ora, seu-

Lucien — Basta! — Sua voz interrompe a próxima palavra de ódio de Tess. — Mais uma pessoa deseja falar, não é, Aldric?

Não fui capaz de perceber, o ódio distorceu minha visão por um momento, então só fui capaz de perceber agora, mas... por que meu braço está erguido?

— B-bom... — Minha voz se recusa a me obedecer, diversos olhares se fixam em mim. Tudo que eu menos queria.

Atenção.

Apoio minha mão na mesa e levanto-me, puxando todo ar que me resta para respondê-lo.

— T-talvez... se só a força importasse... para que os professores serviriam? — Meu corpo tenta se manter firme, mas as pernas trêmulas começam a ser visíveis. — A escola serve para tornar os fracos em pessoas fortes e para que os fortes aprendam a proteger os fracos.

Sem respostas, sem palavras.

Lucien — E se a pessoa não tem talento, Aldric? — Há algo curioso em seu sorriso.

— E-existem muitas pessoas com talento que não chegam ao seu ápice por... arrogância, professor. — Sigo com uma breve pausa, logo continuando. — J-já alguém sem talento se esforça mais, justamente por não ter um dom natural... além disso, muitas vezes o que nós chamamos de talento é derivado de um esforço que ninguém viu.

Não é difícil perceber o ódio direcionado a mim, principalmente por parte do Tess. Mas por quê o Zatória parece satisfeito? Foco. Desvio o olhar.

Lucien — Então... você pensa que todos podem ser talentosos, caso se esforcem?

— É exatamente o que quero dizer, professor. — Nossos olhos se encontram. Minhas palavras são firmes, mas ele parece achar a situação engraçada. Não entendo o porquê ele está rindo, afinal, não há graça alguma em rir de pessoas que se esforçam.

Droga, aceita logo isso maldito professor.

Nossos olhares ainda estão fixos um no outro, até que sua boca se abre.

Lucien — E o que te torna diferente de alguém, Aldric? Se todos podem ser fortes, esforçados, o que define você? — Em sua mesa, apoia o braço e se inclina-se.

O que... me torna diferente? Nunca parei pra pensar em algo assim, afinal, quem sou eu? Apenas mais um garoto em busca do reconhecimento do pai? Não... eu me recuso a acreditar nisso. Eu irei matá-lo.

— Vontade... e instinto.

O sorriso permanece, mas algo no olhar dele mudou.

Lucien — Para um primeiro dia, hoje foi muito agitado! Mas é isso que espero de vocês. Quero que todos mostrem seus pensamentos e argumentem para descobrir qual o mais "útil". — Vejo-o levantando da mesa. — Mas lembrem-se, não existe uma forma definitiva de viver.

Esse professor... até parece que ele quer causar uma guerra na sala.

tsc

Olho ao redor. Diversos alunos ainda me encaram. O som de passos ecoa pela sala — vindo na minha direção. Atenção demais... muito mais do que eu gostaria.

Zatória — Aldric, não é? — Ao escutá-lo, viro-me em sua direção.

— A-ah, sim. E você é o Zatória, correto? — Estendi minha mão em sua direção. — Prazer em te conhecer. — Um pequeno sorriso toma meu rosto.

Zatória — O prazer é meu. — Ele aperta minha mão sem hesitar.

Por algum motivo, os olhares diminuíram com sua presença. Quem caralhos é esse cara? O Tess mentiu? Foi só uma provocação?

Vejo Zatória se aproximando de mim.

Zatória — A aula já acabou, quer sair? Podemos comer algo juntos. — Sussurra próximo ao meu ouvido.

— Por favor. — Me levantei da cadeira e seguimos em direção a porta.

No meio do caminho, algo muda. Uma dor aguda atravessa minha nuca. Um arrepio.

Viro-me imediatamente.

??? — Interessante... você realmente chamou atenção, Aldric.

Então esse é o mundo que eu escolhi enfrentar... ótimo.

Falso Céu