Chapter 3:
Falso Céu
Olhares enojados, desprezo, nada disso me importa. Afinal, finalmente estamos entrando na grandiosa Celestia.
— Parece que chegamos, meu pequeno... — Ainda estamos na carroça. Por que ela parece tão... deprimida?
— Está tudo bem, mãe? — Eu não quero ela mal.
Inclino a cabeça para a direita, confuso.
Desde sempre me preparo para sofrer por ela, mas nunca penso no contrário acontecer. Talvez seja egoísmo...
É pelo bem dela.
— Está... só espero que fique bem, meu filho.
Seus olhos lentamente começam a ficar úmidos, pesados. Seu corpo desmorona à minha frente, não há o que eu possa fazer, apenas... aceitar.
E é isso que faço, rodeio meus braços em meu maior refúgio... minha mãe.
O som dos animais ecoa pela entrada de Celestia. As vozes e os olhares já não importam. Logo, uma voz corta o silêncio.
Caelion — Ei, pivete.
Meus olhos se fixam nos dele.
Caelion — Antes de ir, gostaria de te ensinar algo, então me escute. Pessoas — Vejo-o respirar fundo. — Fortes protegem os mais fracos, caso uma pessoa machuque alguém que você gosta ou fira uma mulher...
Ele levanta o braço, cerrando o punho.
Caelion — Quebra a cara dele.
Um grande sorriso surge em nossos rostos.
— Nem precisava me dizer.
Levanto meu punho à sua frente.
Caelion — Claro, Aldric.
Com o punho fechado, ele toca o meu.
— Isso é um até mais, não um adeus.
Levo minha mão até a cabeça da minha mãe, ainda de joelhos. Aproveito que ela está abaixada para entrelaçar meus dedos em seus fios prateados, acariciando-os.
— Eu irei voltar, mãe... não se preocupe.
Por reflexo, minha mão foi ao seu queixo, levantando-o.
— Isso é uma promessa.
Mesmo depois de tanto tempo preso ao passado, dei meu primeiro passo para o mundo saindo da carroça.
O ambiente à minha volta é familiar, mesmo que eu nunca tenha presenciado um lugar tão grandioso quanto este. Cada passo traz dúvidas: capacidade e incapacidade, força e fraqueza. Tudo anda lado a lado, mas será que o mesmo se aplica ao bem e ao mal? Provavelmente não... quem é "puro" sempre será bom, é assim que a moral foi criada, afinal.
As pessoas olham em minha direção com surpresa... mas não é uma surpresa agradável. É como se eu fosse merda.
Meus punhos se fecham. Minhas unhas cravam na palma... até rasgar. O sangue rubro goteja no chão. O sangue escorre, mas não é o suficiente. Quero fazê-los engolir esse ódio... mas ainda não tenho força para isso.
Além disso, Caelion e minha mãe são mais importantes que esses seres desprezíveis.
Minha boca se abre em um longo suspiro enquanto olho direto nos olhos deles. Não há tempo a perder; devo ir para a Grande Escola de Celestia e participar da primeira aula da minha vida, afinal, nunca tive ninguém além de minha mãe.
Não preciso de ninguém.
Theia — Filho?! Por que sua mão está sangrando? — Ela percebe e, rapidamente, agarra minha mão.
Não... preciso?
Meu rosto queima em vergonha, soltando a força contra a palma. Não há o que ser dito, não há o que negar. Apenas posso aceitar seu amor... assim como sempre fiz.
Odeio preocupá-la, mãe, me perdoe.
Mesmo com todos os sussurros e esses malditos olhares... sua voz se sobrepõe às maldições direcionadas a mim, só posso agradecer a sua existência, mãe.
Meus passos cessam, meu corpo se vira para a pessoa que mais amo nesse oculto inferno. Um grande sorriso.
— Muito obrigado, mãe.
Volto meu foco para a grande cidade, não posso vê-la chorando novamente. Não sou capaz de me manter firme mais uma vez. Não há mais volta... e isso torna tudo mais interessante.
À minha frente, as grandes muralhas de Celestia erguem-se como montanhas, onde um gigantesco portão exibe toda a luxuosidade da cidade. Ao entrar, as casas radiantes iluminam tudo ao redor, porém aquela luz desaparece diante dos olhares frios. Eu sou um maldito intruso, não é?
Tch, tudo bem. Se Deus nunca me ajudou, não será agora que irei pedir ajuda.
Cada passo revela um novo caminho, as grandes torres rasgam as nuvens, anjos voam pelo vasto céu, a cidade não parece ter fim.
Anjo ao fundo — Aquilo é... um mestiço?
Anjo ao fundo — Urgh, por que ainda deixam escórias como essa andarem livres?
Essas vozes malditas. Mordo meus lábios até que fosse capaz de sentir o gosto de ferro. Não posso atacá-los, isso acabaria com meu objetivo antes mesmo de começá-lo.
Como um quadro cheio de cores, uma única mancha negra já é suficiente para arruinar a pintura. Então vou estragar esse "belo" quadro pelos meus próprios ideais.
— Talvez eu devesse comprar um manto...
Murmuro para mim mesmo, enquanto troco o caminho em direção a uma pequena loja. Abro a porta e entro no pequeno local.
Vendedor — Oh, meu primeiro cliente do dia. O que gostaria, pequeno?
Por um momento, meu corpo paralisa. Como se fala com pessoas que eu não conheço?
— P-perdão... gostaria de um manto cinza.
Vendedor — Claro! Me siga, pequeno.
Caminhando ao meu lado, diversas cores e tipos de tecido tomam o local. A loja é muito mais vibrante do que qualquer lugar de onde venho.
Vendedor — O que acha desse aqui?
Ele ergue um manto pesado diante de mim. O tecido é cinza-escuro, grosso o bastante para esconder quase todo o corpo. A capa desce até as pernas e o capuz é largo, projetando uma sombra profunda sobre o rosto.
Não é uma roupa luxuosa como as que vejo pela cidade, mas parece resistente... e discreta. Talvez seja exatamente do que eu preciso.
— E-ei, vendedor.
Vendedor — Diga, pequeno!
Sua voz transborda entusiasmo. Como alguém pode ser tão feliz?
— Por que... não me olha como eles?
Abaixo minha cabeça para que não encontrasse seus olhos.
Vendedor — Huh? O que quer dizer- — Seus olhos então caem sobre minhas asas, o sinal da minha "raça inferior" — Pequeno... raça, sangue... isso não define ninguém.
Por um momento, nenhuma palavra ecoou novamente na loja. Então... não somos tão diferentes assim?
As palavras se prendem em minha garganta. Pego uma pequena moeda de ouro e entrego em sua mão.
— Obrigado.
Meu corpo só consegue fazer uma coisa: sair daqui. Rapidamente visto o manto, ocultando-me sob o capuz.
Ando em direção à porta por onde entrei e a abro.
Vendedor — Volte sempre!
Ele se despede com um grande sorriso.
Mesmo após fechar a porta, não fui capaz de cessar meus pensamentos. Se somos iguais... por que sou tratado assim?
Os olhares haviam diminuído, graças ao manto, porém ainda existiam por não ser algo muito luxuoso. Agora não me julgam por raça, mas sim, classe.
Os passos se tornam apressados, é como se a escola estivesse me puxando para dentro. Essa é... a Escola de Celestia?
Meu queixo cai.
— Eu vou estudar nisso? — A voz soa baixa, se esvaindo com o vento.
As grandes torres brancas contrastam com o dourado e o vermelho, os portões são tão grandes quanto os da cidade. Quanto mais me aproximo, mais a pressão me sufoca. O suor gelado, as pernas trêmulas, a mente não para por um segundo sequer.
Armaduras polidas, prata refletindo a luz, silhuetas altas e imponentes — meus instintos me dizem para tomar cuidado.
Guardas — Nome?
Ambos questionam, conforme fixam seus olhares em mim.
— ...Aldric.
Um deles apenas acena com a cabeça.
Os grandes portões se abrem, revelando um enorme corredor repleto de estudantes. Centenas de olhares se voltam para mim, e entre as diversas vozes que circulam no ar, uma toma minha atenção. Um ser alto bloqueia o caminho à frente.
??? — Ei, quem é você?
Minha visão escurece nas bordas. O ar não entra... minhas pernas cedem.
Eu te odeio... mundo maldito.
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