Chapter 2:

O Vento Sussurrou: O Herói da Tocha

O Vento Que Sussurrou Teu Nome


A dúvida ainda latejava na minha mente como um coração assustado. O baque da queda foi seco, um choque violento que me despertou do breu total. Por alguns segundos, meu corpo registrava apenas a dor surda na lombar e o cheiro estranho de incenso e pó. A fábrica, o cheiro de papelão úmido e ferro oxidado, o zumbido irritante das geladeiras, toda aquela rotina pesada e sem propósito se dissolveu, sumindo como um sonho esquecido ao despertar.
Lentamente, forçosamente, meu cérebro começou a processar o novo ambiente. As paredes eram de pedra cinzenta, pesadas, trabalhadas em blocos que pareciam ter desafiado o tempo por milênios. Tapeçarias enormes, penduradas como bandeiras de guerra, exibiam cenas de batalha contra criaturas que só existiam em livros. Tochas, presas em suportes de ferro oxidado, lançavam uma luz quente, dançante, que contrastava de forma violenta com a luz fria e doentia das lâmpadas fluorescentes que me davam um tom de cera no estoque da fábrica.
O chão, um mármore polido que refletia a luz das chamas, brilhava. Tudo gritava a mesma coisa, numa língua que eu entendia perfeitamente: Fantasia Medieval.
E bem à frente, no ponto focal do salão, sentado num trono largo, entalhado com cabeças de leões, estava um homem. Ele vestia um manto vermelho escarlate, a coroa era pesada e dourada, e a barba bem cuidada descia até o peito. Ele parecia ter saído diretamente de uma abertura de anime.
Eu fui invocado.
É um Isekai.
A frase explodiu na minha mente com a força de um trovão, uma epifania que apagou todas as dores e todas as preocupações. A vergonha da fábrica, o esgotamento de um trabalhador, tudo isso não importava mais. Eu estava livre. Livre da inércia, livre da mediocridade, livre do meu eu inútil.
Um sorriso involuntário, quase histérico, tomou conta do meu rosto. Era um sorriso que eu não conseguia segurar, o sorriso de alguém que acaba de ganhar na loteria da vida e, de quebra, o prêmio de protagonista.
Mas a euforia teve que esperar. Eu estava sorrindo, sim, mas percebi que os meus companheiros de sorte, ou infortúnio, e as figuras importantes no salão tinham expressões que fariam qualquer protagonista de anime tenso.
Ao lado do trono real, a hostilidade era palpável.
À esquerda do Rei, estava um anão, baixo e largo, barba espessa, trançada com anéis de prata, e olhos como carvões em brasa. Sua carranca era natural, mas quando seus olhos encontraram os meus, o único entre os recém-chegados que estava sorrindo, a hostilidade dele simplesmente dobrou. Era como se ele estivesse olhando para um erro de cálculo, um defeito na fundição.
Ao seu lado, uma mulher que me tirou o fôlego: uma elfa. Sua beleza era etérea, mas o olhar era cortante. Bela, pálida, olhos esverdeados e cabelos longos de um dourado perfeito que pareciam escorrer como seda prateada sob a luz do ambiente. Quando ela me observou, seus olhos estreitaram. Era um olhar de repulsa aristocrática, como se eu fosse um inseto esmagado no chão.
Mais à esquerda, havia um homem que aparentava ser jovem, embora sua postura fosse de veterano. Ele vestia um uniforme militar impecável, capa branca limpa demais para quem estivesse em um campo de batalha. Segurava sua espada embainhada, a mão repousando sobre o pomo como se estivesse pronta para sacala se fosse necessário. Seu olhar era neutro, mas tão focado, cara estranho esse. Pensei.
Então, o Rei se levantou. Sua voz grave e potente preencheu o salão como um trovão educado, um som majestoso que faria o zumbido das geladeiras da fábrica parecer um miado.
— Meus caros heróis, peço desculpas por tê-los trazido aqui sem aviso prévio. Contudo, foi de extrema necessidade. Uma profecia…
Eu quase sorri de novo. Exatamente como nos animes teríamos um monólogo sobre o porque de sermos invocados e etc.
Mas, antes que o monólogo real pudesse continuar, uma voz cortou o ar como uma lâmina de adaga.
— Quem é você?
Uma mulher deu um passo à frente, sua postura irradiando uma confiança assustadora. Ela não parecia com medo.
Os guardas reagiram imediatamente. O atrito do metal das lanças erguidas em nossa direção foi tão intenso que ecoou pelo salão inteiro. O clima mudou na hora, de solene para letal. Um movimento errado e uma chacina começaria.
Eu engoli seco, sentindo o suor frio na nuca.
A mulher nem piscou. Ela usava roupas de treino simples, mas funcionais: uma regata preta que realçava a definição de seu abdômen e um shorts solto. Seus cabelos estavam presos, e era visível o suor fresco em seu corpo, indicando que ela tinha acabado de sair de um treinamento puxado.
— Abaixem as armas. — ordenou o Rei, num gesto brusco e impaciente.
Os guardas obedeceram imediatamente, recuando com rigidez militar. A mulher permaneceu imóvel por alguns segundos, o rosto firme, o olhar de quem estava menos assustada com a ameaça de morte do que eu com a ideia de trabalhar no domingo.
O Rei respirou fundo, tentando manter a compostura.
— Peço perdão por minha falta de tato. Sou o Rei de Unthor, Castran Valongo III. E esta é minha esposa, Rainha Elunnara.
A rainha fez uma mesura elegante, um movimento tão leve que parecia flutuar como água cristalina.
— É uma honra recebê-los… apesar das circunstâncias trágicas.
O Rei continuou, apresentando os aliados.
— E esses ao meu lado esquerdo são os aliados mais antigos do reino de Unthor. Permitam-me apresentá-los. Este é Thurgan, o Rei das Montanhas do Oeste, o Rei Anão.
O anão deu um passo à frente e fez um cumprimento que parecia mais um grunhido desdenhoso.
— Sou Thurgan. Fiquem sabendo que fui totalmente contra trazer pessoas que nunca vimos antes, oara depositar nossos destino. Espero que isso tudo tenha válido apena.
Ele voltou para sua posição, a hostilidade irradiando de seu corpo baixo e largo.
— Ao seu lado está Lady Carey de La Vontana, Matriarca do Reino Élfico.
A bela elfa de olhar arrogante fez uma mesura que, embora educada, exalava superioridade.
— É um prazer, Heróis. Que a luz do Arcanjo Zarieh guie seus caminhos.
Ela se virou para o Rei Anão, Lady Carey sorriu de forma maliciosa.
— Vossa Majestade Thurgan, é assim que se faz um cumprimento decente a heróis, demonstrando o mínimo de civilidade e modos. Não como um selvagem igual você.
O Rei Anão soltou um palavrão, pelo menos eu creio que seja um palavrão, e rosnou para a elfa:
— Sua magrela! Você acha que um floreado inútil de palavras é melhor do que a honestidade de um anão?! Não sou eu o selvagem aqui! — Ele diz olhando diretamente a mim.
Eu engoli em seco. Será que ele fala de mim? O Rei Anão parecia me odiar particularmente.
Um homem jovem interveio, sua voz calma cortando a tensão entre os dois.
— Por favor, Rei Thurgan, Lady Carey. Não comecem com isso. Estamos na frente dos Heróis.
O Rei Castran assentiu e aproveitou para apresentá-lo.
— E este é o nosso Mestre Cavaleiro de Unthor, Sir Provolon Porstre II. Ele será o principal elo entre vocês e o exército do reino.
Sir Provolon deu uma breve, mas firme, reverência militar.
A mulher que desafiou os guardas, porém, não recuou em seu questionamento.
— Meu nome é Cecília Kurogawa. E antes que continue: onde estamos? E por que fomos sequestrados?
A palavra “sequestrados” era uma âncora de gelo no meio do salão. Os outros invocados começaram a murmurar, assustados, irritados, confusos.
Eu estava tentando acompanhar o caos, mas minha mente só conseguia pensar: Um Isekai real. Sete pessoas. Magia. Rei. Profecia. Isso é perfeito demais.
O Rei ergueu a mão novamente, restaurando o silêncio.
— Silêncio. Eu explicarei tudo.
E explicou. A história era de uma beleza trágica e épica.
A guerra de vinte anos. O mal supremo: o Rei Demônio Astaroth, uma entidade de pura destruição que tinha coberto o continente com uma névoa sombria de caos. A queda dos reinos aliados, um a um, transformados em fortalezas de monstros. O abandono dos deuses, que haviam silenciado seus oráculos e fechado os portões celestiais. A destruição lenta, mas inevitável, que estava se aproximando.
O Rei Castran tinha lágrimas nos olhos ao narrar a desesperança.
— A única coisa que nos restou foi a fé na Profecia dos Sete Heróis.
Todos ficaram em silêncio. O ar estava carregado de peso. Medo. Raiva. Confusão.
E eu?
Eu estava sorrindo que nem um idiota.
Eu finalmente era o protagonista.
Magia. Aventura. Missão de salvar o mundo. O oposto exato da minha vida anterior, onde meu único propósito era levantar caixas úmidas sob luzes fluorescentes. O meu peito parecia explodir de empolgação.
Eu vou aprender magia. Eu vou ganhar habilidades.
Eu podia sentir o fervor do protagonista de anime queimando em minhas veias. Era uma felicidade inapropriada, mas totalmente genuína.
E então, eu percebi os olhares ao meu redor.
Os outros seis invocados não estavam animados. Não estavam felizes. Eles estavam sofrendo, chocados, intrigados pela súbita e brutal perda de suas vidas.
E eu… eu era o único com um sorriso no rosto.
Foi então que percebi que alguém ao meu lado me observava fixamente, uma jovem mulher de pele parda, olhos grandes e brilhantes, e uma beleza tão marcante que até entre nobres de um mundo de fantasia ela se destacaria.
O olhar dela, porém, não tinha nada de encantado. Era repulsa. E muita confusão.
— Por que você está tão animado? — perguntou ela, a voz melodiosa, porém fria como aço.
Havia julgamento, o tipo de olhar que se dá para alguém que está rindo num velório.
Tentei responder sem parecer um idiota, mas a empolgação era um rio que transbordava.
— Bom… estamos em um mundo novo… e com magia! Isso vai ser divertido! — falei, com a voz embargada pela felicidade.
O rosto dela se fechou imediatamente. Ela parecia ter mordido um limão amargo.
— Divertido? É extremamente rude da parte dele nos trazer aqui! Eu tinha uma vida, uma carreira em progresso. Eu estava prestes a realizar meu sonho!
— Carreira? Do quê? — perguntei, sem pensar, impulsionado apenas pela curiosidade.
Ela ergueu o queixo, com a postura de quem nasceu para ser encarada.
— Meu nome é Amélie Fontaine. Eu sou uma atriz. E estava prestes a estrear na série Le Secret de la Mer… que, por sinal, é um sucesso colossal.
— Nunca ouvi falar. — respondi, sincero demais. O choque no rosto dela foi satisfatório.
— O quê?! O que você faz da sua vida?! É a série mais assistida da França!
— Brasil — corrigi, encolhendo um pouco os ombros. — Sou do Brasil.
Ela franziu a testa, confusa.
— Mas… você fala francês fluentemente.
— Eu estou falando português… e você também.
— Impossível. Eu estou falando francês! Eu nem falo esse seu idiominha.
A discussão só não continuou porque uma voz grave cortou o ar.
— Na verdade, ambos estão falando inglês.
Viramos na direção da voz. Era um homem baixo, muito baixo. O anão-policial, provavelmente da mesma estatura que o tal de Thurgan, Rei Anão. O que chamava a atenção era seu uniforme policial, totalmente desproporcional ao tamanho atual do corpo. A barra da calça cobria os pés. A camisa parecia uma lona.
— Inglês? — repeti, tentando ouvir de novo. Mas tudo que eu ouvia era o meu bom e velho português.
— Incrível! — exclamei, já vibrando. — Deve ser uma habilidade dos heróis invocados! Tipo… tradução automática! Caramba, isso é muito legal!
O Rei Castran interveio, aproveitando meu entusiasmo para retomar o controle do salão.
— Sim. Para nós, todos vocês estão falando a língua humana de Unthor. É uma habilidade concedida somente a heróis para facilitar a comunicação.
Amélie suspirou, sem paciência, mas eu vibrei como um doido.
Aos poucos, os outros invocados também começaram a se apresentar. O ambiente, antes tenso, transformou-se em uma estranha reunião de estranhos.
— Eu estava indo para um jogo importantíssimo da minha carreira. Final do campeonato. Ia vencer meu quinto título seguido. — A voz profunda veio de um homem enorme, careca, com ombros largos como portas de celeiro.
O anão-policial o encarou.
— Espera… eu te conheço. Você é o astro da NBA, Anthony “A.J.” Beaumont!
Anthony sorriu de lado.
— Vejo que tenho um fã.
— Não curto muito basquete, na verdade. — respondeu o anão, com sinceridade dolorosa.
— Dá para ver pelo seu tamanho, hahaha! — zombou um ruivo sardento, com ar debochado.
O anão-policial virou-se para ele, os olhos castanhos faiscando.
— Para constar, no meu mundo eu não era anão. Eu era bem alto, na verdade. Sou um policial de Nova Iorque. Trabalhava numa patrulha quando — gesticulou, irritado, para seu corpo minúsculo — acabei aqui e assim.
O ruivo estreitou os olhos.
— Então você era policial… só isso?
— “Só isso”? — o anão-policial bufou. — Garoto, eu já sei que tipinho você é! Certamente deve ser um mimado que acha que pode fazer o que der na telha e não obedece às leis. Já tive que perseguir muitos de vocês, filhinhos de papai.
— Cale a boca, seu… seu… seu policial em miniatura! — retaliou o ruivo.
Então ele virou para o ruivo novamente, analisando-o.
— E você parece a taça da Champions League com essas orelhas longas.
O ruivo empalideceu. A vaidade dele era uma armadura, e o anão acabara de encontrar a fresta.
Então ele começa a tocar suas orelhas com as pontas dos dedos.
— Minhas… orelhas?! O que aconteceu com minhas orelhas?! Um espelho rápido, me deem um espelho!
Um criado trouxe rapidamente um espelho de prata. O ruivo se olhou, respirou fundo e suspirou, aliviado.
— Pelo menos meu rosto continua perfeito.
Cecília, sempre séria, comentou:
— Não é só você. Parece que entre nós sete também há outro elfo.
— Outro elfo? Onde, onde está? — perguntei, curioso e empolgado.
Ela moveu o queixo, apontando para mim.
Todos me olharam. O rubor subiu rápido. Peguei o espelho das mãos do ruivo, que protestou no mesmo instante.
Meu reflexo não mentia.
Pele igual. Rosto igual. Mas… Cabelo branco, bagunçado, orelhas pontudas, olhos azuis brilhantes.
— Uau… — murmurei. — Meu rosto é o mesmo… mas o resto…
— Minha vez! — o ruivo arrancou o espelho da minha mão.
— Desculpa… — sussurrei, encolhendo os ombros.
Amélie se aproximou, agora menos arrogante e mais curiosa, a atriz em modo de análise.
— Então seu cabelo e seus olhos mudaram quando chegou? Nunca vi alguém tingir tão mal a ponto de ficar… assim.
— Mudaram quando cheguei — confirmei. — Acho que virei… um tipo de elfo.
— Hmph. — Ela ajeitou o cabelo. — Bom, muito prazer, como você disse que se chamava mesmo?
— Bom, na verdade não disse — respondi meio sem jeito. Era difícil falar com ela, não só por ser extremamente bonita, mas pela maneira de seu olhar, parecendo analisar tudo em mim, como quem estava pronto para me criticar a qualquer momento. — Me chamo Arven.
— Prazer… o meu é Amélie.
Trocamos um pequeno aceno. Estranho, mas… quase amistoso.
— Prazer Amélie e Arven.
Olhei para o lado e vi um jovem de asas brancas se aproximar com um sorriso gentil, estendendo a mão. Nossa, como não tinha reparado nessas asas antes!
— Lucian Atreide, estudante de direito… vinte e seis anos. Sou da Grécia. — Ele abriu um pouco as asas, quase envergonhado. — Bom… eu não tinha isso aqui antes. Elas apareceram quando caí nesse lugar.
Todos nós ficamos em silêncio por um instante.
As asas eram enormes, brancas como neve recém-caída. Eram asas de anjo.
— Uau! — escapou de mim. O nerd dentro de mim pulou. — Cara… isso é MUITO mais legal do que orelhas pontudas!
Lucian riu, e deu de ombros, tímido com o fascínio.
Cecília então se voltou ao grupo, braços cruzados:
— Bom, já que as apresentações estão seguindo um certo padrão, vou me apresentar corretamente. Cecília Kurogawa. Vinte e oito anos. Inglesa. Professora de defesa pessoal feminina. — Sua postura era tão firme que parecia que ela estava em um tatame invisível.
Amélie ajeitou os cabelos e ergueu o queixo, teatral:
— Minha vez. Amélie Fontaine, dezenove, atriz francesa… e sim, uma carreira brilhante estava florescendo. — Sua voz tinha a doçura ensaiada de uma atriz, mas a arrogância de quem já imagina seu próprio pôster em um cinema.
Anthony deu um leve aceno, casual, como se estivesse sendo apresentado em uma entrevista esportiva:
— Anthony Beaumont. Vinte e seis anos. Estados Unidos. Jogador profissional da NBA.
O anão policial quase bateu palma.
— Vi sua cara no noticiário mês passado, agrediu um repórter! — Ele disse sério, ignorando a fama.
Anthony cerrou o maxilar.
— Então é por isso que me conhece, Policial? Bom, aquele repórter mereceu, depois de ter me acusado de assédio contra uma torcedora, uma enorme mentira que ele inventou para subir na carreira.
— Bom, só dá para saber que é mentira quando tiver provas do contrário, Sr. Beaumont. — retrucou, cruzando os braços.
— Qual é o seu problema, cara? Quem é você?! — Anthony questionou, sua voz subindo uma oitava.
— Eu sou Marcus Doyle, trinta e seis, policial de Nova Iorque. E você está falando com uma autoridade, não levante a voz.
— Não estamos nos EUA! Não me dê ordens, policial!
Antes que a briga entre o anão e o gigante pudesse escalar, Lucian interveio, movendo suas grandes asas brancas entre eles, num gesto calmo.
— Por favor, precisamos de união, não de conflito. Lembrem-se do que o Rei disse: a guerra.
Eu ri discretamente. Ver um policial americano como anão tentando arranjar briga com um jogador de basquete de quase dois metros parecia o início de uma cena de comédia estilo Trapalhões.
Por fim, o ruivo se colocou no centro, empurrando o próprio cabelo para trás como se estivesse diante de câmeras:
— Leandro Malan, vinte e cinco, África do Sul. Meu pai é dono da Malan Mineração e Petróleo. — Ele estufou o peito. — Então, naturalmente, eu sempre fui destaque onde quer que eu estivesse.
Cecília revirou os olhos tão forte que quase caiu para trás.
Foi então que o Rei levantou a mão, chamando nossa atenção de volta para o propósito de estarmos ali.
— Terão tempo para se conhecerem melhor. Agora, é hora de descobrir o que cada um de vocês trará para o nosso mundo.
O mago ao lado do trono deu um passo à frente. Seu rosto era marcado por rugas profundas, mas seus olhos brilhavam como carvão incandescente. Ele segurava uma almofada de veludo. Sobre ela, repousava um orbe cinza, completamente opaco, do tamanho de uma maçã.
— Este é o Arquimago Rufus Ardentus, responsável pela invocação — anunciou o Rei. — Ele guiará o ritual de identificação.
Rufus inclinou a cabeça com respeito. Seu olhar para mim era de estranha curiosidade.
— Colocarão a mão sobre o orbe. Ele revelará sua afinidade mágica ou seu dom único. Não tenham medo.
Meu coração deu pulos. O sistema de classes estava começando. Meu Isekai estava começando de verdade. A chance de ser algo mais do que um CLT.
Anthony, o gigante da NBA, foi o primeiro.
Ele colocou a mão sobre o orbe com a naturalidade de quem segura uma bola de basquete. O orbe não explodiu em cores ou em luz; em vez disso, runas de aço apareceram como brasas ascendentes, firmes, pesadas.
Rufus abriu um sorriso orgulhoso.
— Extraordinário! Seu corpo é totalmente imune a magia. Nenhuma magia ofensiva ou defensiva pode tocá-lo. E sua força física ultrapassa os limites humanos!
Anthony flexionou o braço, surpreso.
— Faz sentido… eu me senti mais forte desde que acordei aqui.
A plateia explodiu em aplausos, um coro de alívio e esperança.
Cecília foi a segunda.
Ela tocou o orbe com a firmeza de quem está prestes a desferir um golpe. Runas afiadas como lâminas de metal surgiram no orbe. A luz era fria e prateada.
— Habilidade extremamente rara! — declarou Rufus, com a voz embargada. — Ela pode criar armas temporárias a partir de qualquer objeto sólido, moldando-o. Destrutiva. Adaptável. Perfeita para combate!
Cecília apenas arqueou a sobrancelha, satisfeita.
— Interessante.
Leandro foi o terceiro. Ele já estava confiante, como se soubesse que seria o melhor.
Quando tocou o orbe…
— BOOM! —
O orbe reagiu com uma explosão de cores: azul, vermelho, marrom, verde. Um caos mágico, mas harmonioso. Os magos quase caíram para trás. A energia era palpável.
— Afinidade com os quatro elementos! — Rufus parecia uma criança encantada. — Água, Fogo, Terra e Vento… e um reservatório de mana gigantesco! Ele será um excelente mago.
Leandro abriu os braços como se estivesse recebendo aplausos no Oscar.
— Eu já era extraordinário antes… agora sou mais ainda.
Eu queria odiá-lo por ser tão arrogante, mas admito: foi épico.
Amélie passou na minha frente.
O orbe acendeu num dourado quente, suave, como o sol da manhã.
O mago suspirou com reverência.
— Magia Divina. Uma sacerdotisa! Dom de cura e bênçãos… essencial para qualquer grupo.
Amélie sorriu como quem recebe um prêmio.
— Magia divina para uma diva como eu… combina perfeitamente.
Aplausos. Muitos aplausos.
Marcus colocou a mão.
O orbe reagiu com padrões repetidos, como ondas sonoras de uma frequência exata.
— Fascinante… — disse Rufus. — Um dom de duplicação física. Ele pode criar múltiplas cópias de si mesmo.
Marcus arregalou os olhos.
— Criar cópias? Isso é estranho pra caramba… Mas vou me acostumar.
Lucian foi o sexto. O ar mudou. As asas dele abriram instintivamente, como se respondessem a uma força invisível.
Quando sua mão encostou no orbe, uma tromba de vento tomou o salão. As tochas tremularam, as cortinas se moveram e cavaleiros se seguraram nas colunas. O vento não era destrutivo, mas avassalador.
— Por todos os deuses… — Rufus murmurou, impressionado. — A mais alta afinidade com magia do vento que já vi! Seu potencial é… incrível.
Lucian fechou as mãos, decidido, a timidez sumindo sob o peso da responsabilidade.
— Farei o meu melhor. Por vocês. Por este mundo. Pela liberdade de todos que sofrem sob o Rei Demônio.
O salão explodiu. Ele já parecia um herói, digno daquelas asas.
Finalmente… era eu.
O último.
O menos impressionante.
O Arven.
Eu respirei fundo, sentindo o calor do meu rosto. A inércia do meu corpo de antes, o peso do meu passado inútil, era como um espectro nas minhas costas. Esta era a minha chance de exorcizá-lo.
Eu coloquei a mão sobre o orbe cinza.
O orbe iluminou-se.
Fraco. Amarelo. Quase apagado, como um fósforo que acabou de ser aceso. A luz era tão pálida que mal conseguia competir com o brilho das tochas da parede.
Rufus parou. Ele respirou fundo, tentando disfarçar a decepção. O silêncio era tão denso que eu podia ouvir o crepitar das tochas.
— Magia… de luz.
Meus olhos brilharam com esperança.
— Luz? Tipo… a magia que derrota trevas?! Tipo anjo?!
Rufus meneou a cabeça, triste. Sua voz era baixa, quase um lamento.
— Não. Apenas… iluminação. A luz de uma chama. É uma habilidade simples. Uma chama que pode ser acesa e mantida, como a de uma tocha.
O chão afundou sob meus pés. A euforia que me sustentava desmoronou em um milissegundo.
Leandro gargalhou tão alto que ecoou pelas paredes.
— HAHAHA! O herói da tocha! A arma secreta do reino: um lampião humano!
Os risos se espalharam entre nobres e soldados. Era uma risada nervosa, misturada com o desespero de ter investido tudo em um fracasso.
Meu peito apertou. O calor da vergonha subiu pelo meu pescoço, o mesmo calor que eu sentia quando Leo me zoava na frente de todos no refeitório. Aquele momento me atingiu com a força de um soco.
Marcus tentou me consolar.
— Ei… não liga para eles. Todo poder tem um propósito.
Mas sua voz traiu a preocupação.
Antes que eu pudesse responder, o Rei decretou, sem emoção alguma, o tom de quem está aceitando o inevitável:
— Muito bem. É o que temos.
E pronto. Meu destino foi selado naquele momento.
Eu, o herói da tocha.
O Rei Castran se virou para o salão, a capa vermelha ondulando num gesto firme.
— Melhor todos vocês irem descansar por enquanto. Amanhã teremos a reunião de guerra. Lionel.
Da lateral do salão, aproximou-se um criado. Ele era a imagem perfeita de um mordomo veterano: alto, magro, cabelos grisalhos penteados para trás, bigode fino, expressão séria e postura impecável. Sua presença era tão controlada quanto a de Cecília.
O criado inclinou-se em uma reverência elegante.
— Às suas ordens, Vossa Majestade.
Ele se voltou para nós.
— Por aqui, meus caros heróis. Terei a honra de acompanhá-los aos seus aposentos. Com licença.
Fizemos uma fila natural, quase como alunos sendo guiados por um professor rígido. Conforme passamos por Lionel, seu olhar avaliava cada um de nós com neutralidade…
…até chegar em mim.
Quando fui o último a passar, seus olhos mudaram. Não havia apenas desaprovação, havia repulsa profunda. Como se eu fosse uma sujeira indesejada no palácio impecável, um erro que ele teria que limpar antes da manhã.
Engoli seco e segui com o grupo, tentando encolher meu corpo.
Lionel nos guiou pelos corredores amplos, iluminados por tochas e adornados com tapeçarias que contavam histórias de reis e batalhas antigas.
Cada porta aberta revelava quartos luxuosos, com camas enormes, lareiras acesas e janelas que davam para jardins iluminados pela lua.
Os outros heróis entravam sorrindo, encantados com a opulência.
Quando chegamos ao quarto de Amélie, ela se virou e me ofereceu um sorriso, fiquei vermelho na mesma hora.
— Bom descanso Arven, parece que nós vemos amanhã.
— ela então entra em seus aposentos.
Logo depois, só restávamos eu e Lionel caminhando pelo corredor silencioso. O velho mordomo não disfarçava: seu olhar sobre mim era de puro desgosto.
Tentei puxar assunto, desesperado por informação, por companhia, por qualquer coisa que não fosse aquele peso de inutilidade.
— Nossa, é difícil acreditar que eu vim parar em outro mundo! Hã… existe algum livro de magia no palácio?
Lionel respondeu sem sequer olhar direito para mim. Ele olhava para a frente, fixo no infinito, como se eu fosse um móvel a ser ignorado.
— Sim. Contudo, são permitidos apenas a pessoas autorizadas e, mais importante, a pessoas que serão capazes de compreender e usar o conhecimento.
Eu ri, tentando quebrar o gelo. Era o meu mecanismo de defesa.
— Hahaha… bom, eu sou um herói invocado, então acho que tenho autorização, né?
Minha risada morreu quando vi a expressão dele: uma mistura de nojo e desaprovação. A forma como ele me olhava era a materialização de todos os meus medos sobre mim mesmo.
Ele suspirou, um som de puro tédio e desdém.
— Certamente o senhor terá autorização formal, Herói Arven. Contudo… sendo sincero… creio que não fará muita diferença. A biblioteca é vasta e o conhecimento arcano complexo. Um poder tão… básico quanto o seu não exigirá, e nem tirará proveito, de estudos aprofundados. Sua magia é, digamos, pouco útil, se comparada à dos seus companheiros.
O golpe foi seco e direto, como um tapa bem dado. O mordomo acabara de fazer o trabalho do Leo. Meu rosto esquentou, minha garganta fechou. Eu apenas assenti, sem forças para reagir ou sequer respirar.
Paramos diante de uma porta no fim do corredor.
Lionel perguntou com frieza:
— Precisa de mais alguma coisa, Herói... Arven?
Antes que eu pudesse formar uma frase, ele já dizia, impaciente:
— Se não deseja nada, retirarei-me. Minhas obrigações me chamam.
— S-sim… obrigado, senhor. — murmurei, sentindo-me o intruso mais indesejado da história dos isekais.
A porta se fechou com um clique seco, isolando-me do resto do mundo.
O quarto era imenso, um contraste cruel com o cubículo que eu dividia no meu apartamento.
O cheiro de cedro e seda dominava tudo, uma fragrância limpa e fresca que não tinha nada do papelão úmido e do óleo diesel da fábrica. A cama tinha o tamanho de um carro pequeno, com dossel e cortinas brancas, digna de um rei. Um tapete espesso aquecia o chão, e uma banheira de mármore brilhava no canto, refletindo a luz suave das velas.
— Nossa… como esse reino é rico… — murmurei.
Era luxo demais para alguém como eu.
Joguei a mochila na cama. O peso dela parecia maior do que antes, carregada agora não apenas com minhas coisas, mas a vergonha recente.
Eu estava em um mundo mágico, o sonho de todo otaku sonhador. Mas minha magia era só o de uma lanterna.
O desânimo caiu sobre mim como o ciclone que eu tinha visto no horizonte. Eu não era o mestre dos elementos. Não era um herói como nas histórias.
Eu era só… Arven.
O cara que quando queimar a luz da sala pode deixar ela iluminada.
Sentei na beirada da cama.
O toque suave da seda trouxe à tona algo dentro de mim. Peguei o celular na mochila. A tela estava preta. Tentei ligar. Nada. A tecnologia do meu mundo era inútil aqui. O objeto, antes uma âncora para a inatividade, agora era apenas um peso morto.
Eu me joguei de costas na cama. A seda era fina e morna. O silêncio era enorme.
Guardo celular e fones no fundo da mochila, com cuidado, como se estivesse enterrando meu último vínculo com o antigo mundo. Era um enterro silencioso.
Toquei meu cabelo branco e minhas orelhas pontudas, os únicos sinais de que eu havia mudado.
— O herói que o povo quer… não sou eu.
Mas… eu sou o que eles têm.
Eu senti a necessidade de fazer algo, qualquer coisa, para provar a todos, e principalmente a mim mesmo, que eu não era um fracasso invocado.
Mudar a vida era mais pesado do que muitas coisas.
Eu precisava começar de novo.
— Então… devo tentar. Ser corajoso. Ser útil. Ser… algo.
Olho para o teto, pela primeira vez desde que cheguei, o sorriso bobo havia sumido, substituído por uma determinação silenciosa, amarga.
— Amanhã vai ser um novo dia… Arven.
Vamos tentar de novo.
E fechei os olhos, adormecendo.