Chapter 3:

O Vento Sussurrou: O Embaixador

O Vento Que Sussurrou Teu Nome


O silêncio era muito denso. Eu dormi, surpreendentemente, o sono profundo e sem sonhos que a exaustão física e emocional proporciona. Meu corpo, embora transformado e levemente mais forte, ainda se recuperava do choque da invocação e da humilhação da noite passada.
O luxo da cama de seda, que eu temia ter profanado, me engoliu em conforto. Eu estava no meio de um sonho confuso em que eu estava em cima de uma paleteira usando-a como meio de locomoção e segurando uma espada na mão direita. Bizarro. Quando o som cortou o silêncio:
Toc. Toc. Toc.
Batidas suaves, mas insistentes, na porta pesada de carvalho.
Eu despertei com um pulo da cama. Um pulo instintivo, como se o alarme para acordar e ir trabalhar tivesse tocado. Meu coração acelerou. Quem era?
Eu corri até a porta. Eu estava muito ansioso, vestindo as mesmas roupas do dia anterior, já que não tinha recebido roupas novas.
Abri a porta de uma vez. A luz do corredor, agora uma luz suave da manhã filtrada pelas janelas altas, banhava o rosto da figura à minha frente.
Era uma jovem mulher, e ela vestia o uniforme típico de criada: um vestido longo, com um avental branco impecável e um pequeno gorro sobre os cabelos curtos, cortados na altura da orelha, de um castanho escuro e liso. Ela era pequena e parecia mais uma adolescente do que uma adulta.
Eu a encarei.
Eu a encarei por muito mais tempo do que o socialmente aceitável. Talvez fosse o choque da beleza simples e serena, que para mim superava qualquer atriz que já tivesse visto. Talvez fosse a surpresa de ver um rosto comum, não um nobre arrogante ou um herói de outro mundo. Ou talvez fosse apenas a minha completa falta de traquejo social.
Ela se assustou, dando um passo para trás. Seus olhos castanhos arregalaram, e a bandeja de prata que ela segurava, onde, pelo que pude observar, havia uma muda de roupas, tremeu levemente em suas mãos.
O choque dela me trouxe de volta à realidade. O rubor subiu ao meu rosto, e a vergonha me atingiu como um tapa.
— Meu Deus, me desculpe! — balbuciei, recuando um passo e cobrindo o peito com os braços, numa tentativa ridícula de cobrir o corpo. — Eu… eu não queria assustar você. Bom dia!
Ela respirou fundo, recuperando a postura de empregada, mas a desconfiança ainda pairava no ar.
— B-bom dia, Herói. Dormiu bem, senhor?
— Apesar de tudo o que aconteceu ontem, dormi muito bem! É a melhor cama que já tive na vida, sem dúvida. — Falei, voltando ao meu entusiasmo de Isekai, tentando quebrar o gelo. Era um hábito: usar a animação para disfarçar o nervosismo.
— Eu me chamo Arven, a propósito. Qual é o seu nome? — Estiquei minha mão, num gesto instintivo de cumprimento do meu mundo.
Ela olhou para minha mão estendida, depois para meu rosto, e então para a porta, sem devolver o cumprimento. A recusa era silenciosa, mas ensurdecedora. Ela apertou a bandeja contra o corpo.
— Tessa.
— Ah, legal! Prazer, Tessa.
Ela não disse nada em resposta. Apenas me encarou com os olhos ainda ligeiramente arregalados. Eu recolhi minha mão, sentindo-me um completo idiota.
— Com licença, Herói... Arven. Eu vim arrumar o quarto e trazer essas roupas.
Ela pediu licença e entrou, e começou a olhar tudo em volta. Olhou para o tapete, para a cama, para todos os cantos do quarto. Ela parecia surpresa.
Será que ela achou que eu iria destruir o quarto em uma noite? O pensamento me atingiu.
Ela terminou o tour de inspeção, então colocou a roupa em cima da cama e ficou me encarando por um tempo, as mãos juntas segurando a bandeja de prata sobre o avental.
— Bom, vejo que não vai precisar da minha arrumação aqui. Está tudo impecável. Eu irei me retirar.
Ela se virou para sair. Eu senti uma pontada de urgência. Se ela fosse embora, eu perderia a chance de fazer a única pergunta que realmente importava.
— Tessa, espere! — chamei.
Ela não parou. Apenas continuou andando para a porta.
— Tessa! — chamei de novo, mais alto.
Desesperado, dei um passo e estiquei a mão, tocando levemente seu ombro.
O que aconteceu em seguida foi um caos.
Tessa soltou um grito agudo, penetrante, que ecoou pelas paredes do quarto. O grito era tão carregado de puro terror que eu gelei. Ela se virou, os olhos cheios de lágrimas, e me deu um enorme e estrondoso tapa na cara.
O som do tapa era como um tiro, e a dor em minha bochecha explodiu. Eu fiquei petrificado, a mão no ar, o cérebro incapaz de processar.
— O que você pensa que está fazendo?! — gritou ela, a voz fina e tremida.
Eu mal tinha tempo de reagir quando a porta se abriu com um estrondo.
O Criado Lionel estava lá, sua expressão de desgosto natural agora transformada em fúria justificada. Atrás dele, dois guardas armados, suas armaduras polidas e lanças prontas.
Lionel olhou para mim, depois para Tessa, que chorava compulsivamente, os braços cruzados sobre o corpo, num gesto de defesa. O mordomo correu até ela, abraçando-a protetoramente.
— O que ele fez a você, minha jovem?! — perguntou Lionel, a voz carregada de ódio, mas destinada a ela.
Ele olhou para mim. O nojo era palpável.
— O que você fez a ela, seu selvagem?!
O "selvagem" em sua fala, a acusação, a cena toda... o Isekai épico que eu imaginava desmoronou em um julgamento sumário. Eu estava assustado e sem entender. Minha boca se abriu e fechou, mas eu não conseguia balbuciar quaisquer palavras.
— Essa sua raça… um bando de selvagens mesmo! — rosnou Lionel. — Guardas, peguem ele!
Imediatamente, os dois guardas apontaram suas lanças em minha direção. A ponta afiada do metal parecia gigantesca.
— Não! Eu não fiz nada a ela! — consegui dizer, levantando minhas mãos em rendição. — Tessa, diga a eles.
Ela nada dizia, apenas chorando assustada.
De repente, uma nova voz, firme e controlada, cortou a tensão.
— O que estão fazendo?
Cecília estava na porta, sua postura de instrutora de artes marciais mais forte do que nunca. Ela viu a cena: o herói "selvagem", as lanças apontadas, a criada em prantos nos braços de Lionel furioso.
— Esse selvagem tentou atacar uma das empregadas, Lady Cecília! — bradou Lionel, sem tirar os olhos de mim.
Cecília olhou para Tessa assustada. Ela não agiu com a histeria de Lionel. Em vez disso, deu um passo para dentro, ignorando as lanças e o mordomo, e se aproximou da criada.
— Me explique isso — disse ela, a voz baixa, mas autoritária.
Tessa tentou falar, engasgando com as lágrimas. Cecília tocou gentilmente o ombro não agredido de Tessa.
— Respire. Inspire. Conte-me o que aconteceu.
A calma de Cecília, a autoridade que vinha dela, parecia operar uma pequena mágica. Tessa respirou fundo, controlando o choro.
— E-ele… Herói Arven… me chamou e eu não ouvi. Aí ele me tocou no ombro… só isso! Eu só me assustei!
Eu relaxei. O ar voltou aos meus pulmões. O sangue na minha bochecha latejava, mas o alívio era maior.
Lionel, porém, não estava satisfeito.
— Mas não deveria tocar nela! Tenho certeza de que ele queria cometer atos selvagens com ela! Olhe o tipo de raça que ele é!
— É mentira! — protestei. — Eu só queria fazer uma pergunta! Uma pergunta!
Tessa interveio novamente, olhando para Lionel com uma nova firmeza.
— Herói Arven está certo. Ele não fez nada. Eu apenas me assustei. Só isso.
Cecília suspirou, um som de extremo cansaço, mas seus olhos mostravam alívio.
— Então, tudo não se passou de um engano.
Ela acenou para os guardas.
— Abaixem as lanças.
Eles obedeceram, relutantes. Cecília então se voltou para mim, seu olhar ainda sério.
— Arven, você não pode fazer isso a uma mulher. Tocar nela, mesmo que seja só o ombro e mesmo sem intenções ruins, é uma violação de espaço aqui. Você não deve fazer isso. Entendeu?
— Sim, entendi. Me desculpa, Tessa. Eu não queria lhe fazer mal, só queria fazer uma pergunta.
Tessa respondeu, a voz ainda um pouco trêmula:
— Eu que deveria lhe pedir desculpas, Herói Arven, por fazer essa enorme confusão. Me perdoe. E ainda lhe dei um tapa, por favor, me perdoe por isso.
— Não, não precisa disso. Vamos deixar tudo isso quieto, então.
Eu olhei para Lionel, que me devolveu um olhar de puro nojo. Ele não ia me perdoar. Ele não me via como um herói, mas como uma ameaça.
— Com licença, Heróis. Irei levar Tessa para respirar um ar fresco. — disse Lionel, virando as costas.
Cecília se pôs na frente dele, bloqueando a saída. Sua postura era inabalável.
— Você não vai a lugar nenhum antes de pedir desculpas ao Arven por tê-lo acusado de algo que ele não fez, Lionel.
— Lady Cecília, isso é… — tentei dizer, mas ela me interrompe.
— Precisa sim — disse ela, a voz baixa e tensa.
Lionel olhou para Cecília, para mim, e para os guardas, percebendo que perdera a batalha de autoridade. Em um tom mecânico, formal, cuspindo as palavras:
— Peço desculpas, Herói Arven.
Cecília olhou para os dois guardas. Eles se entreolharam, assustados com a determinação da inglesa, e fizeram o mesmo.
— Nossas desculpas, Herói.
O criado se retirou, levando a empregada e os dois guardas. O quarto, de repente, ficou silencioso e enorme.
Eu me sentei na cama, exausto, e agradeci a Cecília.
— Uau. Cecília, obrigado. Eu não sei o que teria acontecido se você não tivesse chegado. Eu não conseguia falar. Eu sou péssimo em confrontos.
— Não há de quê. — Ela ficou em pé, olhando para fora do quarto.
— Mas como você sabia o que estava acontecendo? E como chegou tão rápido?
Ela se virou, cruzando os braços.
— Todos os "heróis" — ela fez aspas com os dedos — estão reunidos em uma sala de reunião para o planejamento. Só faltava você. Ninguém havia te chamado.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— Ninguém me disse nada sobre reunião.
— Imaginei isso — ela continuou. — Na verdade, foi Lionel quem avisou um por um. Eu percebi os olhares das pessoas desse mundo em você ontem, a forma como te trataram depois da revelação do seu poder. Então, como dois e dois são quatro, pensei que tentariam te deixar de fora.
— Sim. Não sei o porquê. Leandro também é um elfo, mas não o tratam do mesmo jeito.
— Uma criada me disse algo quando perguntei a ela os motivos, já que te tratam de uma maneira hostil. — Cecília olhou para a porta, como se contasse um segredo. — Me parece que você é um elfo negro da floresta. Uma raça de elfo considerada selvagem e brutal demais. As pessoas têm um enorme preconceito quanto a isso.
O ar sumiu dos meus pulmões novamente. A peça final do quebra-cabeça do meu tormento se encaixava.
— Nossa. Não acredito que tive esse azar. — Eu ri, um som seco, sem humor. — Só poderia acontecer comigo. Além de inútil, eu sou alguém considerado selvagem e assustador nesse mundo. Eu sou o lampião selvagem que ataca criadas.
Cecília sentou-se ao meu lado. Ela me deu dois tapinhas nas costas. O gesto era surpreendentemente gentil, vindo dela.
— Vamos. Estamos atrasados, Arven.
Chegamos à sala de reuniões. A porta era maciça, mais um portal do que uma passagem.
Lá dentro, estavam o Rei Castran, Thurgan, Lady Carey, Sir Provolon e Rufus, o Arquimago. Todos os demais heróis invocados estavam sentados à mesa.
Quando Cecília e eu entramos, a cena quebrou. Todos estavam rindo e sorrindo, provavelmente por algo que Leandro havia dito.
Mas quando o Rei e os aliados me viram, o sorriso de todos congelou. O clima ficou sério, formal e frio. Eles me encararam.
— Ah, Arven. Está atrasado. — disse Leandro, com um tom de sarro.
— Desculpem. — murmurei, sentando-me numa cadeira vazia ao lado de Lucian.
Lucian, o anjo com asas, me cumprimentou educadamente com um aceno de cabeça. Eu retribuí o cumprimento.
Sir Provolon deu início à reunião. Ele explicou como funcionaria o treinamento.
— As forças de Unthor estão, neste momento, limitadas, Heróis. Vocês são nossa última esperança. Trabalharemos em regime de treinamento intensivo.
Ele olhou brevemente para mim e desviou rapidamente o olhar, como se não conseguisse me encarar por muito tempo.
A reunião terminou rapidamente. Eles foram dispensados para começar o treinamento imediatamente.
— Encontrem seus instrutores no pátio!
Os outros heróis se levantaram, animados. Lucian me deu um aceno de despedida. Cecília me deu um olhar de encorajamento.
Eu estava prestes a sair quando o Rei Castran me chamou.
— Arven. Um momento.
Ficamos apenas eu, o Rei e o Arquimago Rufus.
O Rei Castran me olhou, e o tom de sua voz mudou drasticamente. Não havia mais a formalidade condescendente; havia o peso de um líder desesperado.
— Arven, para ser totalmente sincero com você… querendo ou não, sua magia é inútil para o combate.
Eu abaixei a cabeça, a tristeza voltando a me apertar o peito. Eu sabia.
O Rei continuou, a voz mais baixa, mas firme.
— Porém… você pode nos ajudar em algo muito, muito mais importante.
Eu levantei a cabeça, animado. Meus olhos brilhavam de novo. É isso! Seria a chance de provar meu valor. Eu pensei: Será que me querem como estrategista? Ou algo assim?
— Na Floresta do Medo…


Opa. Floresta do Medo. Onde essa conversa vai chegar?


— É lá que vivem os Elfos Negros. A mesma espécie de você. Creio que você deve ter percebido os olhares de todos no palácio. Peço que não leve para o lado pessoal, mas essa raça de elfo é muito, digamos que… agressiva e selvagem. Eles já mataram muitos dos nossos que tentaram fazer alianças para beneficiar ambos os lados. Na verdade, para beneficiar bem mais a eles, já que, sendo selvagens, não têm muito a oferecer ao nosso reino, mas nós somos complacentes e queremos ajudá-los.


Eu olhava e ouvia muito atento. A história do meu novo povo era uma história de ódio.


— E é aí que você entra. Você será nosso Embaixador.


— Embaixador? Eu? — A palavra era pomposa e imponente.


— Sim, meu caro herói. Você terá a responsabilidade de formar uma aliança entre o reino de Unthor e os Elfos Negros da Floresta do Medo.


— Mas… por que eu? Eu nem sou diplomata!


— Você é o único capaz disso. — O Rei se inclinou, e sua voz se tornou um sussurro pesado de importância. — Como você se transformou na mesma raça que eles, você pode conseguir o que nenhum de nós pode, ou conseguiria, fazer. Este é o seu verdadeiro papel neste mundo. E é mais importante do que os dos demais heróis.


O chão tremeu sob meus pés.


— Mais do que derrotar o Rei Demônio? — perguntei, incrédulo.


— Claro que sim! — A resposta foi imediata, sem hesitação. — Mesmo todos os heróis juntos, exceto por você, eles não conseguirão formar laços de confiança com os Elfos Negros. A força bruta não vencerá esta. Só você é capaz. Apenas você.


Aquela fala ficou na minha cabeça. Apenas você. Eu não era o mais forte; eu era o único.


Rufus, o Arquimago, que estava quieto em um canto, deu um passo à frente.


— Herói Arven, peço que aceite esta missão. Sei que é pedir muito, mas precisamos de você para isso.


Então, Rufus se levantou e, para meu choque absoluto, se curvou diante de mim. Sua testa quase tocou o chão.


— Por favor, eu imploro.


Eu fiquei surpreso. O Rei até mesmo pareceu surpreso com a intensidade de Rufus.


— P-por favor, Rufus! Não precisa disso tudo! Eu ajudo, pode deixar comigo! Por favor, só se levante!


Rufus se levantou. Eu pensei: Serei muito útil. Um homem como esse Arquimago me pediu dessa maneira. Não posso decepcionar. Não sou mais inerte.


— Ótimo, Herói Arven. Então amanhã mesmo você irá até a Floresta do Medo.


— Mas já? Amanhã? Não deveriam me treinar um pouco para eu poder me defender?


— Não precisa. — O Rei sorriu, um sorriso estranho. — Iremos mandar os melhores soldados junto com você. E não se preocupe: os Elfos Negros não atacam seus iguais. É uma lei entre eles. Só atacam seres de outras raças.


— Mas assim eu não vou poder proteger os guardas que irão me acompanhar.


— Não será necessário, Herói. Os guardas que mandarei, como eu disse, serão os melhores. Garanto que eles não precisam de proteção.


— Os melhores? Mas vocês não ficarão desbancados com isso?


— Sua missão é de extrema importância. Mandar meus melhores guardas é apenas a prova disso. Quero que você se sinta muito seguro. Você é, sim, o herói mais importante dentre os sete que foram invocados.


— O mais importante? — perguntei, sentindo meu peito inflar com um orgulho que não sentia há anos.


— O mais importante. — O Rei Castran assentiu, com um sorriso em seu rosto. — Porém, não diga isso aos outros. Não quero que haja nenhum tipo de rivalidade. Mantenha isso em segredo.


Eu concordei, sentindo o peso do segredo e da importância. O Rei me deu um longo monólogo sobre responsabilidade e honra, o que me fez sentir como um protagonista de verdade.


— Você pode se retirar e conhecer o palácio, Herói Arven.


O Rei Castran olhou para um canto do cômodo onde Lionel estava quieto, esperando. Eu não o tinha visto antes e me assustei com sua presença silenciosa. O Rei continuou:


— Lionel, mande algum outro criado acompanhar nosso grande Herói Arven para ver tudo o que ele quiser no palácio.


Lionel estremeceu, mas se curvou.


— E, Majestade… eu posso ver a biblioteca do palácio?


O Rei Castran olhou para mim e sorriu.


— Claro que pode, meu jovem! Leia o que você quiser. Meus livros são seus livros também.


Eu fiquei muito contente. A biblioteca. A chave para a magia.


Lionel se aproximou e me chamou para acompanhá-lo.


Ele me levou até uma sala bem longe da de reuniões. Ele abriu a porta e entramos em uma sala onde havia vários criados, empregadas e criadas se alimentando. O barulho era alto, mas cessou quando o mordomo entrou.


Lionel chamou Tessa. Ela estava comendo uma maçã, mas se levantou imediatamente.


— Tessa, você acompanhará nosso Herói Arven até a Biblioteca Real. Ele tem autorização para ler o que quiser.


Ela assentiu, com a desconfiança ainda visível em seus olhos.


— Por favor, me siga, Herói Arven. — disse ela, voltando a si.


Eu assenti e a segui. Eu era o Herói da Tocha, o Embaixador de uma raça selvagem. E eu tinha acesso à biblioteca. Meu Isekai estava finalmente, e de uma forma muito estranha, começando.


Segui Tessa pelos corredores sinuosos do palácio, minha mente ainda girando com a revelação do Rei Castran.


O mais importante.


E, ao mesmo tempo, o mais dispensável em combate.


Eu era uma chave de fenda mágica em um arsenal de espadas flamejantes, mas era a única chave que podia abrir a porta de uma nova aliança. Eu precisava de informação, e rápido.


Tessa parou em frente a uma porta dupla de madeira escura, entalhada com símbolos de runas esculpidas. Ela hesitou antes de abrir, acho que simplesmente por respeito ao local.


Quando a porta se abriu, o ar me atingiu. Não era o cheiro frio da pedra ou o odor de incenso da sala de reuniões. Era o cheiro de história. Uma mistura inebriante de papel antigo, couro e madeira polida.


A Biblioteca Real de Unthor era overwhelming. Gigantesca. Estantes de carvalho subiam e desapareciam na escuridão do teto abobadado, algumas tão altas que exigiam escadas de rolamento complicadas para alcançar os volumes superiores. Janelas altas, estreitas e góticas permitiam que a luz da manhã entrasse em raios dourados, iluminando a poeira que dançava no ar. Mesas de leitura maciças eram equipadas com candelabros de bronze, penas de ganso e tinteiros de porcelana.


Não havia apenas livros. Havia pilhas de pergaminhos amarelados, amarrados com fitas de seda, muitos deles tão antigos que pareciam prestes a desintegrar.


Eu fiquei paralisado. Era como entrar no cérebro do mundo, e a minha fábrica inteira caberia ali dentro.


— Incrível… — Minha voz saiu num sussurro.


Eu não conseguia ficar parado. Meus olhos se moveram rapidamente, apontando para as prateleiras que exibiam títulos em grandes letras.


— História dos Reinos! — Apontei. — E ali… Bestiário de Criaturas Mágicas! E pergaminhos!


Corri para a mesa mais próxima. Peguei um dos pergaminhos; ele cheirava a séculos de negligência e poeira. A escrita era cursiva e elegante, ininteligível para mim, mas o cheiro de coisa antiga me trouxe um arrepio. Aquele lugar era real.


Tessa permaneceu parada na porta, meio sem saber se entrava ou se esperava instruções. Sua postura ainda era tensa, mas não defensiva, apenas cautelosa.


Eu voltei até ela, lembrando-me de meus modos.


— Tessa, muito obrigado por me trazer até aqui. Isso… isso significa muito.


Eu a agradeci de forma super educada e sincera. Pela expressão dela, percebi que criados raramente recebiam tal cortesia de um nobre, ou mesmo de um herói.


— Se precisar de algo… é só chamar, Herói Arven. Eu estarei ao lado de fora.


Sua voz estava mais suave do que antes. Ela ainda parecia um pouco tensa, mas já não me olhava como se eu fosse um monstro prestes a atacá-la. Eu era apenas um Elfo Negro esquisito e desorientado.


Antes de Tessa deixar o local, a chamei. Eu sabia por onde começar. Minha missão. Minha raça.


— Tessa… Você sabe onde ficam os livros sobre… elfos negros?


Ela hesitou visivelmente, engolindo em seco. Seus olhos se moveram para um corredor escuro e silencioso, mais afastado da área principal.


— Ficam naquela seção, senhor. É… é uma seção pouco visitada.


Ela me levou até lá. A estante estava cheia de volumes empoeirados e com capas gastas.


Eu examinei os títulos, e eles confirmaram instantaneamente o preconceito de Lionel e do reino.


Eu puxei o primeiro: “Relatos de Incursões na Floresta do Medo”.


O segundo: “Crônicas de Conflitos Fronteiriços: Os Elfos da Espada de Ébano”.


E, pior de todos, um livro com letras vermelhas e fortes: “Os Selvagens das Sombras”.


Abri “Os Selvagens das Sombras”. Em vez de informações culturais, o texto era um relato atrás do outro de brutalidade. Ataques noturnos, emboscadas de caravanas, mortes de soldados humanos. O autor usava adjetivos como "vorazes", "irracionais" e "serpentes traiçoeiras". Não havia quase nada sobre a cultura, os costumes, a língua ou a estrutura social dos Elfos Negros. Apenas propaganda de guerra disfarçada de história.


Eu senti um frio na barriga.


Se alguém só lesse isso aqui, eu também acharia que esses elfos negros são monstros. Se eu viesse de um mundo onde eles me atacaram e mataram meus compatriotas, eu veria a raça como algo a ser exterminado.


A questão é: pode ser um exagero da política do Reino de Unthor, ou é a realidade brutal? O Rei Castran estava usando meu sangue élfico para me enviar para o covil dos monstros que ele mesmo criou na narrativa do seu povo?


Aquilo plantou a dúvida, e a dúvida era a única coisa que eu tinha além da minha lanterna. Eu não estava indo apenas para uma missão de diplomacia; eu estava indo para uma missão de verdade.


Depois de anotar mentalmente os preconceitos (e sentir o peso da minha pele élfica), mudei de foco. Se eu ia para uma floresta cheia de selvagens, precisava ser mais do que uma lanterna.


Tessa ainda estava ali perto.


— Tessa, agora os livros de magia, por favor.


— Livros de magia arcana ficam ali… — Ela apontou para um grande semicírculo de estantes cheias de volumes de capa azul-marinho e dourado. — Mas só magos estudam isso normalmente.


Eu me aproximei da seção. Meu olhar vagou, perdido na vastidão do conhecimento arcano.


— Se me permite sugerir, Herói Arven — ela disse, apontando para um livro fino e com uma capa de linho desbotada. — Aquele ali tem meio que um resumo sobre todos os tipos de magia. Acho interessante começar por esse, só para saber o básico. Ajuda muito.


— Boa ideia, Tessa. Você já leu esse?


Ela deu um sorriso fugaz.


— Minha mãe tinha um livro parecido, na vila. Ela me ensinou a ler com ele. Mas… — Ela parou, a luz no olhar se apagando. — Se me dá licença, não vou mais atrapalhar o senhor.


— Não está… — Tentei dizer, mas ela já havia se afastado um pouco. Ela parou de costas para mim.


— Se precisar de mim, estarei ao lado de fora da biblioteca esperando.


— Tudo bem, Tessa. Obrigado.


Peguei o livro que ela havia sugerido: “Noções Fundamentais de Magia Arcana”. Abri-o com pressa.


Encontrei a seção de Magia de Luz.


Lá estava ele, o meu único poder, descrito em uma página:


Feitiço Básico de Iluminação (Lux Minima): Conjurar uma pequena chama/luz estável para substituir o uso de tochas. É o primeiro feitiço de concentração aprendido por usuários com essa afinidade. Classificada como Magia de Suporte de Aprendiz.


Senti um soco no estômago. Eu era o feitiço de primeiro semestre. O teste da primeira aula.


Então é isso que eu sou. Um feitiço de primeiro semestre. Enquanto os outros já estão no doutorado de combate, eu estou aprendendo a ascender uma lâmpada. Eu sou Arven, o Candeeiro.


Mas enquanto folheava a página, uma pequena nota de rodapé me chamou a atenção. Não estava na seção principal, mas em uma observação histórica sobre a origem dos elementos.


Interessante notar que, por mais simples que a conjuração elementar de luz possa ser, ela é uma derivação direta do tipo de magia aqui conhecida como Magia Branca. A Magia Branca, sendo a arte mais próxima da essência angelical, é rara.


Magia Branca. O rótulo "rara" era suficiente para me dar um pequeno pico de adrenalina. A minha lanterna não era apenas uma lanterna. Era um feitiço de aprendiz, mas com uma linhagem rara. Eu não entendia o que isso significava, mas era a primeira faísca de esperança genuína.


Passei para a seção de geografia e política. Precisava entender o território onde minha missão se desenrolaria.


Encontrei um grande mapa de Terranova. Desenrolado sobre a mesa, ele era maior do que eu. Era fascinante.


O continente parecia ser divido em poucas grandes potências.


O Reino de Unthor, com certeza, era o maior reino, pegando grande parte do território ao Oeste. O Rei Castran era o monarca do império.


Ao Oeste e nas montanhas ficava o Reino dos Anões, uma área mais compacta, mas que parecia inexpugnável.


Ao Noroeste, o Reino dos Elfos, Lythalorien.


Ao Sudeste, havia uma grande cicatriz no mapa: o Reino de Graverura, que fora o segundo maior reino do continente. Lembrei-me do que tinham falado na reunião: ele foi destruído nos primeiros cinco anos de guerra contra os demônios, quando os reinos se recusavam a formar alianças. Após a queda de Graverura, os três restantes, Unthor, Anões e Lythalorien, finalmente formaram uma aliança de sobrevivência.


Apesar de ser o segundo maior, Graverura não chegava nem perto do tamanho de Unthor. O reino de Castran era simplesmente vasto. Minha análise rápida do mapa me disse que cerca de 35% do continente era território de Unthor. Os outros reinos, incluindo Graverura, dividiam cerca de 25% do mapa em áreas menores e pequenos bosques.


E o restante?


Os gigantescos 40% do continente eram dominados pela Floresta do Medo. Era um mar verde-esmeralda e escuro no mapa, marcado com pouquíssimas informações. As regiões eram marcadas com avisos sombrios: “Perigo”, “Terras Mortas”, “Sem Retorno”.


Isso reforçava o perigo e a importância da minha missão. Eu não estava indo apenas para uma floresta; estava indo para uma vastidão inexplorada e aterrorizante, que era, em termos de território, tão grande quanto Unthor, e o lar dos meus "iguais".


Com toda essa informação, o ódio, a raridade da minha magia e o perigo da missão, eu estava pronto para a minha primeira aula.


Abri o livro novamente e foquei no Lux Minima.


A técnica: concentrar mana na ponta dos dedos, imaginar uma luz, respirar, focar.


Fechei os olhos, levantei a mão e tentei reproduzir a técnica. Nada. A mana era uma sensação estranha, fria e quente ao mesmo tempo, como eletricidade estática sob a pele.


Primeira tentativa: Falha. Onde está a mana?


Tentei de novo, respirando fundo, imaginando a luz dourada que eu tinha visto no meu corpo ao ser invocado.


Segunda tentativa: Uma minúscula faísca branca brilhou e apagou em menos de um segundo. Rápida, mas estava lá.


Eu ri, um som abafado de pura satisfação. Um som de vitória.


— Consegui! Consegui!


Na terceira tentativa, eu me concentrei mais. Puxei a sensação de eletricidade fria da ponta dos meus dedos até a palma de minha mão, visualizei o brilho.


Uma pequena luz dourada surgiu sobre a palma da minha mão. Fraca, tremida, como uma chama de vela prestes a apagar, mas estável.


Eu estava segurando a minha própria lâmpada. Eu não era inútil.


Nesse momento, Tessa, que não tinha me incomodado por horas, voltou para ver se eu precisava de algo. Ela entrou na sala e me viu sentado à mesa, com a palma da mão emitindo um brilho dourado fraco.


— Parabéns, senhor. O senhor já conseguiu um pouco — disse ela, o susto substituído por um sorriso.


Eu apenas sorri, orgulhoso, mas rapidamente voltei à minha humildade.


— Que nada, Tessa. Ainda estou muito longe. Comparado com os outros, isso é só uma magia simples.


— Mas é um começo.


Os sinos da cidade tocaram, anunciando a chegada da noite. A luz das janelas mudou de um dourado matinal para um laranja intenso de pôr do sol. Eu mal havia percebido o tempo passar.


Pedi a Tessa que não acendesse mais velas, pois usaria a minha magia de luz para ler e ir me acostumando com ela. A luz, apesar de fraca, era suficiente e, mais importante, era minha.


Horas depois, Tessa voltou, a bandeja de prata agora ostentando uma refeição.


— Herói Arven, já passou da hora do jantar. Trouxe algo para o senhor comer.


Na bandeja, havia uma refeição digna de um rei: carne assada, legumes coloridos, pães frescos e um copo de vinho tinto.


— Valeu mesmo, Tessa! — Eu disse, levantando-me e esticando as costas. — No meu mundo, isso aqui seria gourmet, viu?


Ela riu de leve pela primeira vez, um som musical e breve que me fez sentir um pouco menos como um alienígena.


— A senhora também já comeu? — Ofereci o prato a ela. — Quer um pouco?


Ela balançou a cabeça rapidamente.


— Não, senhor. Eu já me alimentei. E… eu não poderia comer algo tão caro quanto essa refeição. É para o senhor.


Eu insisti, mas ela recusou com firmeza, e eu achei melhor não ultrapassar a linha de novo.


— Tessa, me diz uma coisa: você trabalha há muito tempo no palácio?


— Sim, Herói Arven. Comecei bem nova. Faz uns dez anos, mais ou menos. Minha vila foi destruída pelos demônios. Foi o senhor Lionel que me trouxe para cá. Estar aqui já é… um privilégio.



— Sua vila foi… destruída pelos demônios? — repeti, sentindo um aperto no peito. — Nossa… isso é horrível. Sinto muito, Tessa. De verdade.


Ela pareceu surpresa por um instante. Seus olhos se arregalaram levemente, como se não estivesse acostumada a ouvir aquilo.


— O-obrigada, senhor… — respondeu, em voz baixa.


Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando entender se minhas palavras eram sinceras. Não havia desconfiança ali, apenas surpresa. E, aos poucos, seus lábios se curvaram em um pequeno sorriso tímido.


— É… é gentil da sua parte se preocupar — disse ela. — Poucas pessoas fazem isso.


Eu senti meu rosto esquentar.


— E-eu só… quer dizer… — pigarreei, desviando o olhar. — Bom, falando em outra coisa… essa comida vai esfriar, né?


Ela piscou, confusa por um segundo, e depois riu baixinho.


— S-sim, senhor… é melhor comer enquanto ainda está quente.


— É… Lionel. Ele não gosta nada de mim.


Ela hesitou, olhando para o prato de comida.


— Não diria que ele não gosta, senhor. Na verdade, ele é uma boa pessoa, mas…


— Mas eu sou um Elfo Negro dessa tal Floresta do Medo, e ele me acha uma ameaça. É isso, não é? — completei, sem amargura, mas com cansaço. — Mas eles não se lembram que eu vim de outro mundo. No meu, eu não sou um Elfo Negro. Não existem elfos no meu mundo.


Tessa me olhou com um olhar de pura curiosidade, esquecendo-se da hierarquia.


— Como era o seu mundo, Herói Arven?


Fiquei surpreso com a pergunta. Ninguém mais havia perguntado, e ninguém mais parecia se importar.


— Era… diferente. Não tínhamos magia. Não tínhamos demônios, dragões ou elfos. Tínhamos cidades feitas de concreto e metal, máquinas que voavam e faziam o trabalho de mil homens. Eu trabalhava em uma fábrica de peças, entende? Era um lugar barulhento, quente. Minha magia era apertar parafusos e empilhar caixas. Ninguém me chamava de herói, ou selvagem. Eu era só… Arven.


Eu resumi meu mundo em detalhes rápidos: a internet, os carros, a rotina tediosa. E quanto mais eu falava, mais ela relaxava.


Nós rimos. Rimos da ideia de "máquinas voadoras" e da minha "magia de apertar parafusos". O tempo voou.


Ela olhou para o relógio de sol sobre uma estante.


— Nossa! Já é muito tarde! Pelos deuses, como não vi o tempo passar!


— É o que acontece quando a gente se diverte, Tessa.


Ela dá um belo sorriso.


Ela disse que seria melhor eu ir descansar, e que ela iria arrumar a bagunça de livros e pergaminhos que eu havia espalhado pela mesa. Mas eu recusei.


— Não, não. Eu espalhei tudo. Eu ajudo.


E assim, passei a próxima hora ajudando Tessa a recolher os pergaminhos e a empilhar os livros, como se estivéssemos arrumando um estoque de fábrica. A diferença era que, em vez de me cansar e sentir-me inútil, eu me sentia bem.


Depois de muita leitura e de ajudar Tessa a arrumar a bagunça que eu fiz, voltei para o meu quarto.


Eu estava exausto, meus olhos ardendo pela leitura sob a luz fraca que eu conjurava. Mas a cabeça estava cheia de ideias, de estratégias e de informações que me davam um propósito real.


Fechei a porta do quarto e conjurei Lux Minima na palma da minha mão. A luz dourada era estável agora, o suficiente para iluminar a escrivaninha. Eu estava melhorando.


Deitei na cama de seda. O conforto não me acalmou; a urgência me manteve acordado.


Pensei no Rei: “Você é o mais importante, não conte aos outros”.


Pensei no Arquimago Rufus: “Eu imploro”.


Pensei nos livros: “Os Selvagens das Sombras”.


Pensei em Tessa: a criada assustada que riu da minha história e que agora me via apenas como um homem, não como um monstro.


Pensei na sensação de finalmente ser necessário, de ter uma missão que ia além da força bruta. Eu era a tocha, a luz. E a minha luz tinha que ser a tocha para os dois lados.


Eu era o embaixador.


Fechei meus olhos e adormeci, com a pequena luz dourada ainda acesa na minha mão.

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