Chapter 4:

O Vento Sussurrou: O Estrangeiro

O Vento Que Sussurrou Teu Nome


A tensão que me envolvia não era o frio da manhã, mas a pressão daquele título impronunciável: Herói Arven.Eu estava vestido com a indumentária do meu novo papel, peças trazidas por Tessa, a empregada: calças escuras, uma túnica de lã grossa que parecia feita para resistir aos ventos da montanha e botas de couro rústicas, cuja sola prometia uma realidade bem mais concreta do que os assoalhos polidos do palácio.
Enquanto atravessávamos os corredores em direção à Sala de Preparativos, notei a mudança sutil em Tessa. A formalidade rígida da noite anterior havia se dissolvido, substituída por uma estranha, quase íntima, cumplicidade. Ela já não mantinha a distância protocolar; sua cabeça estava erguida e, quando me olhava, havia reconhecimento. Era como se a história do meu mundo, tivesse, para ela, neutralizado a aura de "selvagem" que Lionel havia insistido em pregar em mim.
— É... Estou um pouco nervoso — confessei, mais para acalmar a vibração interna do meu peito do que para informá-la.
Eu, um homem de chão de fábrica, estava a caminho do Território dos Elfos Negros, carregando uma missão que o Rei chamava de "a mais importante". Meu pico de ansiedade geralmente era causado por um prazo apertado na esteira; agora, era a ameaça de um conflito inter-racial.Tessa sorriu de lado, um gesto pequeno e sincero que dissipou um pouco do meu temor.
— O senhor é um dos grandes heróis da profecia, Herói Arven. Eu sei que tudo dará certo. O senhor é alguém capaz.O elogio singelo me aqueceu mais que qualquer juramento vazio de um nobre. Eu era, sim, a lanterna, mas pelo menos a luz estava sendo notada por alguém.Ela parou diante de uma porta de madeira pesada, mais utilitária do que as portas ornamentadas do restante do palácio.— É aqui, Herói Arven. Boa sorte.A reverência que ela fez não foi a formalidade forçada de Lionel, mas em um tom que parecia vir do coração. Era o meu adeus, o último sorriso genuíno que levava do refúgio temporário do castelo.— Obrigado, Tessa. De verdade.
A Sala de Preparativos era um pequeno arsenal e um posto de comando. Sobre uma mesa central de madeira áspera, um mapa estava estendido, marcado por linhas e anotações em tinta vermelha, a geografia da minha missão.Dois oficiais aguardavam: Sir Provolon, em sua habitual postura de pedra e vestes militares, e as duas figuras que, soube logo, seriam meus guias e carcereiros.Sir Provolon não perdeu tempo com delicadezas.
— Herói Arven, estes são os responsáveis pela sua segurança e pelo sucesso desta missão diplomática — anunciou Sir Provolon, abrindo espaço para que os dois se aproximassem.
— Este é o Capitão Arthur, cavaleiro de nível Avançado — disse Provolon.
Arthur deu um passo à frente, parando diante de mim como uma muralha.
— Herói Arven. É uma honra acompanhá-lo em sua missão — declarou com voz firme.
Sua presença era uma parede de disciplina e aço polido. A armadura completa refletia o sol da manhã, as placas robustas nos ombros e peito realçando uma autoridade quase opressora. O elmo aberto deixava ver seu rosto sério e atento, marcado por sobrancelhas fortes e olhos verdes intensos que me analisavam com frieza militar.
A sensação era clara: para ele, eu não era um herói, eu era um dever pesado que ele carregava.
Sir Provolon fez um leve gesto convidando a segunda a se apresentar.
— E esta é a Maga Brianna. Uma prodígio da magia do vento. Só tem dezoito anos e já alcançou o nível Avançado.
Brianna deu um passo à frente… e quase tropeçou no próprio pé. Apertou o cajado com tanta força que parecia tentar esmagá-lo.
— H-h-h-herói Arven… é-é um p-p-prazer t-trabalhar… com v-você — disse, gaguejando, o rosto corado até as orelhas.
Ela inclinou a cabeça rapidamente, quase num reflexo de nervosismo.
Seus cabelos castanhos claros, levemente ondulados, balançaram sobre os ombros. Os olhos grandes e expressivos não me encararam por mais que um segundo antes de fugirem para o chão. A túnica branca com detalhes vermelhos, quase cerimonial, contrastava com as meias escuras e botas leves apropriadas para viagens. O cajado elegante azul-esverdeado tremia levemente entre seus dedos.
— E lá fora, nas carruagens, estão os oito guardas da infantaria, todos veteranos de fronteira — concluiu Sir Provolon.
Provolon começou a detalhar a logística, e a realidade da minha situação me atingiu como um trovão silencioso.
— A viagem durará quatro dias, Herói Arven. Quatro dias até a fronteira da Floresta do Medo. Sua segurança e, acima de tudo, o segredo da missão são primordiais.
Ele pegou um manto dobrado, um tecido grosso e escuro.
— O senhor nunca deve ser visto por aldeões sem este manto. As cortinas da carruagem devem sempre estar fechadas ao passar por qualquer assentamento. Se for estritamente necessário sair, usará o capuz.
Ele detalhou o comboio: duas carruagens (uma para suprimentos e outra, mais discreta, para mim e Brianna), dois guardas à frente de cada e cinco cavalos de montaria, um para Arthur e os demais guardas.
— A rota: atravessaremos a capital, seguiremos a estrada principal, passando por uma vila com ponte, e assim sucessivamente. Os pontos de parada foram pré-determinados e fortificados.
Arthur assentiu secamente. Brianna, tensa, tentou falar:
— E-eu... eu farei o meu melhor, S-Sir Provolon.
Provolon me entregou o manto, e eu o vesti, puxando o capuz para me acostumar com a sensação de obscuridade e exílio.
— E quanto a uma arma? — perguntei, sentindo-me nu. — Eu não deveria levar algo para me sentir mais seguro?Sir Provolon me encarou, como se eu tivesse feito uma piada de mau gosto.
— Não será necessário, Herói. Seu foco é a diplomacia, não o combate. Se precisar de combate, terá o Capitão Arthur e infantaria altamente treinada.
Brianna interveio, sua voz um pouco mais firme, agarrada ao seu papel.
— E tem a mim... Não se esqueça de mim.
— Eu insisto. Eu não sei usar magia de combate...
Provolon suspirou, o som de quem é forçado a tolerar uma inconveniência.
— O senhor sabe usar alguma arma?
Abaixei a cabeça. A verdade era inevitável.
— Não, senhor.
Provolon respirou fundo, e o que ele fez em seguida foi um ato de pura condescendência. Ele tirou uma adaga de seu cinto, uma peça pequena e elegante que ficava ao lado do pomo de sua espada. Quando estendi a mão, ele não a entregou. Antes olhou para mim.
— É assim que se segura uma adaga — instruiu, a voz cheia de desdém. — Ela é para combate de último recurso. Use-a apenas se estiver a um palmo do seu inimigo. Estocada, não corte.
Ele me entregou a adaga. Era fria e pesada, mais um peso de papel caro do que uma ferramenta de guerra. Guardei-a sob o manto.
A reunião terminou rapidamente.
Caminhamos até o pátio onde o comboio nos aguardava. No caminho, demos de cara com o criado Lionel, que nos esperava.
— Herói Arven — Lionel fez uma reverência exagerada, mas o tom era de alívio puro, de quem se livra de um fardo. — Desejo-lhe boa sorte e uma viagem de retorno muito, muito longa.
Ignorei o sarcasmo. Os guardas já estavam em seus postos. O Capitão Arthur montou em seu cavalo, uma figura imponente e silenciosa que parecia ter saído de uma gravura sobre disciplina.
Procurei com os olhos os outros seis heróis. Marcus, Cecília, Lucian...
— Se está à procura de seus amigos heróis, Herói Arven — disse Provolon, sem emoção. — Eles partiram ao amanhecer para um treinamento especial no fronte.Meu coração afundou. Eles haviam partido para a verdadeira guerra, para a glória, enquanto eu era enviado em uma missão diplomática disfarçada de exílio e banimento. Esforcei-me para parecer indiferente.
— Ah, entendo. Treinamento especial.
Brianna subiu na carruagem, e eu a segui. Ela estava visivelmente tensa.
Arthur deu a ordem, e o comboio se moveu.— Partir!
As rodas da carruagem rangeram sob o chão de pedra polida. O som do motor foi substituído pelo trote ritmado dos cavalos e pelo clic-clac das armaduras dos guardas. Passamos pelos portões internos e, em seguida, entramos nas ruas da capital, que fervilhavam de vida.
O ar da carruagem se tornou denso, carregado com a ansiedade de Brianna e a minha própria curiosidade esmagadora.
Peguei a adaga que Sir Provolon havia me dado. A peça era fria e pequena, a empunhadura lisa sob o meu capuz. Fiquei girando-a, testando o peso e a ponta afiada, sentindo-me, por um breve segundo, menos indefeso.
Quando levantei os olhos, o rosto de Brianna estava contraído. Ela estava pálida, os lábios apertados e os olhos fixos na adaga em minha mão. O nervosismo dela tinha se transformado em um medo silencioso e profundo.
Eu baixei a arma rapidamente, sentindo o rubor subir ao meu rosto sob o manto. Droga, pensei. Para alguém que tenta ser diplomata, exibir uma arma não é a melhor das ideias. Guardei a adaga sob o manto novamente:
— Oh, me desculpe! — disse, as bochechas queimando de embaraço.
Brianna apenas balançou a cabeça em negação, mas seu alívio era palpável.
Eu me senti imediatamente claustrofóbico, confinado, mas a curiosidade sobre o mundo real me venceu. Tinha que ver. Tinha que me lembrar pelo que estava lutando. Abri uma fresta minúscula na cortina.
A capital se revelou em uma onda de detalhes visuais. A arquitetura era imponente: edifícios de pedra calcária branca, com telhados íngremes de ardósia escura. As janelas eram estreitas e ornamentadas, e as lojas exibiaam toldos coloridos.
O barulho era ensurdecedor. Gritos de mercadores, o trote dos cavalos, o tinido de ferraria.
O comboio era uma anomalia nas ruas lotadas. Soldados gritavam ordens de maneira dura para abrir passagem, forçando pedestres e carrinhos de mão para os lados.
As pessoas tentavam ver quem estava na carruagem. Os cidadãos paravam, espremidos contra as paredes. Homens curvavam-se em curiosidade, mulheres levantavam a mão para proteger os olhos do sol forte.
Vi crianças subindo em muros e caixotes de madeira para ter uma visão melhor. Seus olhos arregalados, refletindo a luz da manhã, procuravam o herói misterioso.
Mercadores paravam seus carrinhos cheios de frutas e tecidos, o movimento da cidade parando momentaneamente para nos observar.
— Não! — Brianna guinchou, tentando fechar a fresta, mas eu a segurava, fascinado pela intensidade daquele mundo. A mão dela, pequena e surprisingly fria, roçava a minha enquanto ela lutava para cumprir a ordem de Provolon.
— Só um pouquinho — sussurrei. — Eu preciso ver.
Depois de algum tempo, passando pelas ruas da cidade, finalmente chegamos ao portões.E então, saímos dos portões da cidade. O Capitão Arthur deu um grito, e a velocidade aumentou. A capital ficou para trás, transformando-se em uma massa cinza de telhados.
O guarda gritou, avisando que estávamos entrando na estrada aberta. A paisagem mudou abruptamente para colinas verdes e plantações.
Alguns minutos depois, o guarda na frente gritou de novo.— Caravana se aproximando!
Brianna pulou.— Cortinas fechadas, Herói Arven! Agora!... digo... por favor.
Fechei a janela, mas a curiosidade me venceu. Abri uma fresta novamente.
A caravana de mercadores era longa e vibrante. Carroças pesadas eram puxadas por bois lentos e fortes, seus corpos grandes e brancos reluziam sob o sol. Penduradas nos arreios dos animais, pequenos sinos tilintavam em um ritmo melancólico e constante.
Acima das carroças, bandeiras coloridas de vários estandartes de guildas e brasões de cidades desconhecidas agitavam-se preguiçosamente.
Vi mercadores conversando, gesticulando animadamente. O que eles estariam falando? Senti uma pontada de inveja. Seria sobre algum novo produto? Algum novo tecido da rota oriental ou uma especiaria exótica?
Eu poderia fazer muito dinheiro sendo mercador e inventor nesse mundo, pensei de repente, uma ideia que iluminou a escuridão da carruagem. Usando meus conhecimentos do meu mundo... Eu poderia projetar um moinho de vento mais eficiente, um motor a vapor rudimentar. Eu seria um inventor bem-sucedido, não um herói inútil.
Enquanto essas fantasias de negócios preenchiam minha mente, a última carroça da caravana passou por nós. Ela estava carregada com barris e engradados de madeira. O mercador, um homem rechonchudo com um chapéu de feltro, ofereceu alegremente seus produtos aos nossos guardas.— Ei, rapazes! Bebida gelada para o caminho!
Nossos guardas se recusaram com um aceno, mantendo a formação. O Capitão Arthur, à frente, impaciente, parou seu cavalo.— Saiam do caminho! Sigilo!
— Certo, certo, meu senhor — disse o mercador, sem pressa.
Neste exato momento, o mercador virou a cabeça e seus olhos espertos pousaram na fresta por onde eu espiava. Eu estava com o capuz, mas ele viu o movimento.
Fechei rapidamente a pequena fresta.
BAM! BAM!
Uma batida forte na janela da carruagem me fez pular.
Abri a fresta hesitante e vi o mercador. Ele sorria largamente, um sorriso forçado e ligeiramente desconfiado.— Olá, meu jovem! Quer ver meus produtos? Tenho temperos raros...
Eu mal pude começar a responder e o mercador foi jogado para trás com força. O impacto do corpo do mercador contra o chão fez um som seco.
O Capitão Arthur, que havia descido do seu cavalo com a velocidade de um raio, estava lá. O mercador no chão, quando ia se levantar, é segurado pela gola da camisa.
— Eu não o permiti se aproximar ou falar com quem está na carruagem! — a voz de Arthur era baixa e perigosa, como o rosnado de um predador.
— Me desculpe, Senhor! — o mercador gaguejou, pálido, percebendo que havia cruzado uma linha.
O Capitão soltou-o com um empurrão que o fez cambalear.
— Saia daqui, e se aproxime de novo, e será por sua conta e risco!
O mercador sumiu dali.
Arthur, então, virou-se para a carruagem. Seus olhos verdes, cheios de frustração, encontraram a fresta. Senti que ele podia ver a minha alma. Ele não disse nada, mas a mensagem era clara.
Fechei a fresta da janela rapidamente, não queria ser o próximo a ser ameaçado.
O tempo da viagem foi passando, e eu e Brianna estávamos em silêncio. Por um instante o cajado que estava em seu colo escorrega e cai, então vou pegá-lo e sem querer pego em sua mão, já que ela o alcançou antes d emim. Puxei minha mão rapidamente me desculpado ao mesmo tempo.
Ficamos corados, sentados em silêncio no pequeno espaço, o constrangimento palpável. Senti a necessidade de quebrar aquele gelo. A viagem seria longa, e o isolamento já era pesado demais.
— Desculpe por ter te deixado desconfortável — eu disse.
Brianna gaguejou, balançando as mãos rapidamente. Seus olhos grandes se arregalaram em negação.
— N-não é que você me deixa desconfortável! É só... é só que eu estou ansiosa! É a minha primeira missão! E Sir Provolon foi muito claro sobre o sigilo.
Eu ri, um som sincero que me relaxou.
— E a minha também é a primeira, Brianna. E a minha magia é a mais inútil de todas. Acredite, eu sou o mais ansioso aqui.
O riso honesto a fez relaxar também.
— A sua magia não é inútil! Não sei se o senhor sabe, mas a magia de luz faz parte de um tipo raro de magia, a Magia Branca. Por mais simples que ela seja, ainda é uma magia rara. Mesmo que só sirva para fazer uma luz para iluminar como uma tocha...
— É o feitiço de tocha mais raro do mundo — completei, rindo.
— Mas... o tipo de magia! — Ela insistiu, batendo o cajado suavemente no chão. — Ainda é rara, mesmo sendo fraca!
— Agradeço a sua franqueza — eu disse, ainda rindo.
Ela ficou sem graça.
— Não quis ser grossa, não medi minhas palavras. Desculpe-me.
— Não se preocupe. Só estou brincando com você.
— Entendi. Que bom — ela disse, com as bochechas levemente avermelhadas.
A conversa fluiu entre nós, leve o suficiente para afastar o tédio enquanto o sol, aquele astro grande e alaranjado, começava a desaparecer atrás das colinas. Era a primeira vez desde que cheguei que o tempo parecia se mover em um ritmo humano, e não na velocidade absurda de um filme.
O som constante das carruagens sobre a estrada parou abruptamente quando o grito de comando, frio e cortante, do Capitão Arthur ecoou, marcando o fim da primeira etapa.
— Acampamento! Preparo imediato!
As carruagens saíram da estrada e seguiram para trás de um morro inclinado, onde a vegetação era mais densa e o terreno oferecia uma proteção natural contra o vento e os olhares curiosos. Assim que paramos, os guardas desmontaram dos cavalos com uma precisão militar que beirava a automação.
Em poucos minutos, tudo estava no lugar.
Barracas erguidas com a tensão exata das cordas.
Cavalos amarrados e recebendo cuidados rápidos.
Fogueira acesa com um círculo perfeito de pedras.
Equipamentos alinhados, prontos para serem usados.
Nada era desorganizado. Nada era lento. Era uma máquina de guerra em miniatura, e eu me senti a engrenagem enferrujada que não conseguia se encaixar.
Desci da carruagem, puxando o capuz para cobrir meu rosto e tentei encontrar alguma forma de ajudar. Senti que precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, para provar que eu não era um peso morto, para queimar a etiqueta de "inútil" que patrcua que havia colado em mim.
— Posso ajudar a descarregar alguma coisa? — perguntei, aproximando-me da carruagem de suprimentos, minha voz baixa e incerta.
Alguns guardas olharam para mim rapidamente, os olhos estreitos de quem vê uma ameaça disfarçada. Outros ignoraram completamente. A maior parte apenas desviou o olhar, como se minha simples presença fosse uma coisa suja e desconfortável que eles não queriam tocar.
— Se precisarem de mim, estarei perto da minha carruagem — murmurei, recuando, sentindo o rosto esquentar de vergonha.
Enquanto eu me afastava, fugindo do círculo de atividade, ouvi claramente o sussurro.
— Como se um elfo negro pudesse ajudar em algo.
Fiquei cabisbaixo, o peso e ser um elfo negro, afundando em meu peito, um rótulo que me fora imposto junto com uma magia fraca. Mas antes que a sensação de humilhação pudesse me engolir, a voz familiar de Brianna se ergueu com uma firmeza que eu não esperava, surpreendendo-me.
— Mais respeito ao Herói! Vocês devem respeito!
Os guardas se calaram. Arthur, por sua vez, não disse nada também sobre, mesmo ouvindo tudo. Continuou dando suas ordens, sério como sempre, como se nada tivesse acontecido, mas eu sabia que ele tinha ouvido.
A distribuição do acampamento, percebi, não era hostil no sentido de me deixar isolado, mas também não era acolhedora. Minha carruagem foi deixada um pouco afastada do círculo central, mas em um ponto onde os guardas circulavam carregando suprimentos ou montando guarda. Os olhares eram uma mistura de receio e, em alguns, de agressividade mal disfarçada.
Enquanto eu comia sozinho, escutei pedaços de conversas dispersas, levadas pelo vento noturno.
— Ele é um dos Sete Heróis. É o que dizem.
— Ainda assim… é um elfo negro. Por que o Rei confiaria em um?
— Não devemos julgar tão rápido. Ele não parece perigoso.
— Selvagens nunca parecem, até ser tarde demais.
Era impossível não ouvir, mesmo quando a conversa baixava de tom. O desdém deles era uma parede invisível me cercando.
Sentei-me em um tronco, observando as chamas, até que Brianna se aproximou, segurando um pedaço de pão e uma tigela.
— Ninguém deveria comer sozinho — disse ela com um sorriso tímido, que parecia uma pequena chama de calor em meio ao frio da noite.
Sorri de volta, profundamente grato por ter uma aliada em um mundo onde eu era o inimigo em potencial.
Quando a fogueira começou a diminuir para brasas e os guardas se espalharam para descansar, observei a organização militar. Metade deles deitou para dormir, enquanto a outra metade começava patrulhas circulares ao redor do morro. Eles se revezariam durante a madrugada, garantindo a segurança do sigilo.
Aproveitei o momento para tentar mais uma vez ser útil.
— Capitão Arthur, eu posso fazer parte das patrulhas — chamei, aproximando-me com cautela. — Não me importo de ficar acordado.
Arthur virou apenas parte do rosto na minha direção. Seu olhar, na semi-escuridão, era duro e inabalável.
— Negado, Herói Arven. Sua segurança é prioridade. Fique em sua carruagem.
— Mas eu posso—
— Ordem direta — respondeu ele, seco, sem sequer se virar por completo. — Seu papel não é vigiar. É chegar vivo à Floresta do Medo.
Ele se afastou para assumir seu posto, mantendo-se como sentinela silenciosa e imóvel perto dos cavalos, a armadura refletindo palidamente a luz da fogueira agonizante.
Com todos ocupados, decidi dar uma volta curta perto das carruagens. Nada demais, apenas alguns passos para espairecer. Quando ergui a cabeça para o céu, o mundo parou.
Eu fiquei sem fôlego.
O céu deste mundo era… simplesmente sublime, diferente de tudo o que eu conhecia, mas sublime. Nenhuma poluição luminosa, apenas o preto aveludado profundo, salpicado por estrelas maiores, mais próximas, mais nítidas. Trilhas de poeira prateada cortavam o céu como rios de luz.
Fiquei ali observando até que percebi que não estava sozinho. Brianna havia parado perto de mim, olhando para cima.
— Aquele grupo ali — disse ela, apontando com o cajado para um feixe de luzes em forma de arco — se chama As Flechas de Elora. Minha constelação favorita.
Olhei para ela com um sorriso, compartilhando o momento de admiração.
— No meu mundo existiam outras. Orion, Pegasus… mas nada tão bonito quanto isso aqui.
Ela sorriu, tímida.
— Gosto desse constelação porque dizem que elas protegem os viajantes durante a noite.
— Bom… nós estamos viajando — respondi, uma leveza inesperada em meu peito. — Acho que precisamos mesmo de proteção.
Ela corou um pouco e, com um aceno, voltou para perto da fogueira.
Fiquei mais um tempo ali, refletindo sob a imensidão estrelada.
Eu estava em outro mundo. Outra vida. Outra chance.
Meu lugar neste mundo era incerto.
Voltei para a carruagem e me deitei.
A luz dourada que conjurei, iluminou suavemente o interior, fraca, mas constante, refletindo nas costuras da lona escura.
Eu adormeci com ela na palma da minha mão.
A jornada para a Floresta do Medo tinha apenas começado, e eu só esperava que a minha pequena luz fosse suficiente para nos guiar através da escuridão.

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