Chapter 5:

O Vento Sussurrou: A Ponte

O Vento Que Sussurrou Teu Nome


O segundo dia de viagem despertou com uma sinfonia de cheiros: o aroma agridoce da grama úmida, o perfume penetrante da terra recém-revolvida e o indício inconfundível de fumaça de lenha e pão assado. A carruagem balançava num ritmo constante, uma canção de ninar monótona que embalava a alma. Eu observava o mundo pela fresta mínima que Brianna, após a reprimenda de Arthur na noite anterior, permitia manter aberta. O vento que entrava trazia vozes distantes, o cacarejar de galinhas, o latido de cachorros e a promessa de vida; sinais claros de que estávamos nos aproximando de uma vila.

De repente, o ritmo quebrou. A carruagem diminuiu a velocidade, o balanço mudou, tornando-se mais pesado, mais lento, até se arrastar com um gemido das rodas.

— Por que será que estamos parando? — murmurei, sentindo um arrepio de ansiedade. O sigilo era a prioridade, e paradas inesperadas significavam risco.

— Deve ter alguma coisa na estrada — Brianna respondeu, ajeitando o cajado no colo com as mãos trêmulas, visivelmente nervosa. Ela era a prodígio do vento, mas o medo a transformava em uma pena leve.

Meu corpo reagiu antes do cérebro, impulsionado pela frustração do isolamento e pelo instinto de engenharia que a paralisação repentina havia despertado. Abri um pouco mais a fresta da cortina, espiando para a frente.

O que vi não era um bloqueio comum. Um rio largo, forte, quase selvagem, corria furioso. No meio, como ossos expostos de um esqueleto gigante, jaziam os restos de uma ponte arrastados pela correnteza, pedaços de madeira boiando como cadáveres náufragos na água marrom. Perto da margem, o Capitão Arthur, a muralha de aço, discutia com um homem robusto, de meia-idade, coberto de suor e terra. O desespero pairava sobre a margem.

A curiosidade venceu o bom senso e o medo da repreensão. Eu precisava entender o problema.

Abri a porta da carruagem.

— H-herói A— digo… rapaz! Não saia! — gaguejou Brianna, quase derrubando o cajado. A voz dela era um sussurro desesperado, de quem sabe que está quebrando a regra fundamental. — Você não deve ser visto!

— Eu estou usando o capuz — respondi, puxando ainda mais o tecido sobre o rosto, sentindo o peso da adaga sob minha túnica. O manto era o meu disfarce e, por enquanto, a minha proteção. — Ninguém vai ver minha cara.

Ela estendeu a mão, a palma aberta, implorando.

— M-mas… mas…

— Relaxa. Só vou dar uma olhada. Não vou falar nada, prometo.

Desci. O silêncio que se seguiu à minha aparição foi quase doloroso.

O ar frio da manhã me atingiu junto com uma dúzia de olhares desconfiados, como se eu fosse um fantasma. Algumas crianças ali perto, ao lado de uma carroça de feno, pararam o que estavam fazendo para olhar na minha direção.

— Quem é esse encapuzado? — perguntou um dos garotos, a voz cheia de curiosidade infantil.

— Deve ser um mago — disse outro, com um sorriso cheio de dentes tortos, mas com um toque de admiração.

A menorzinha, de tranças loiras, me olhou como se eu fosse a própria morte. Seus olhos eram grandes, azuis e cheios de histórias de terror.

— Ou… um a-assassino…

As outras duas engoliram seco.

— Assassino!? — gritaram em coro, o medo transformando a brincadeira em pânico, disparando em direção a uma mulher que lavava panos perto do rio.

A mulher virou, viu as crianças agarradas à barra do vestido e, quando seguiu o dedo acusador da menor até mim, empalideceu. Seus olhos se arregalaram em horror.

— Atrás de mim, crianças! Atrás de mim!

Eu parei no meio do caminho e pisquei duas vezes por baixo do capuz. Sério isso?

Arthur girou sobre os calcanhares assim que me viu. Seus olhos eram brasas de fúria contida.

— Rapaz… por que você saiu? — a voz dele era baixa, irritada, quase um rosnado, o tom exato que eu imaginei que um general usaria com um recruta incompetente.

O olhar dele passou por mim e foi direto para Brianna, que vinha correndo atrás, uma nuvem de ansiedade.

— Eu t-t-tentei impedir, Capitão! — ela falou, agitando as mãos, vermelha. — M-mas ele é teimoso demais!

— E eu vim ver o que estava acontecendo — expliquei, tentando parecer um pouco menos culpado do que me sentia.

O homem robusto que discutia com Arthur me encarou com curiosidade. Ele não parecia assustado, apenas perspicaz. Mesmo sem ver meu rosto, talvez sentisse minha confusão.

— Quem é esse rapaz, Capitão? — perguntou, enxugando o suor da testa com o antebraço.

Arthur apertou a mandíbula.

— É só alguém sob minha responsabilidade. Um… — ele travou, procurando a palavra, evitando o título. — Um viajante.

O homem assentiu levemente, mas não pareceu satisfeito com a resposta. Deu um passo à frente, estendeu a mão para mim e sorriu, apesar da preocupação no olhar.

— Como vai, meu jovem? Meu nome é Lurbec Tandram, sou o líder desta vila.

Apertei a mão dele. Lurbec tinha uma força de costume, a firmeza de quem lida com o trabalho manual.

— Prazer, senhor Lurbec. Me chamo Arven. Sou… só um viajante que está em companhia deles — apontei com o polegar para Arthur, Brianna e os guardas.

Lurbec arqueou uma sobrancelha, um brilho de inteligência em seu olhar.

— Só um viajante? O senhor deve ser alguém até que importante, já que está acompanhado de uma maga e de guardas do reino. Não é barato ter esse tipo de proteção em viagem.

Esse cara é esperto, pensei, sentindo meu lado pragmático reconhecer a lógica dele.

Ele continuou, com um meio sorriso:

— Não é preciso ser um gênio para perceber. As armaduras deles são do reino de Unthor. Não são milicianos comuns.

— Tem razão, tá tudo bem na cara — admiti, rindo sem graça. — Mas sério, não sou tão importante assim. Sou só um homem que sabe umas coisas.

Antes que Lurbec pudesse insistir, Arthur se meteu entre nós, cruzando o caminho como um muro de aço em armadura.

— Chega de curiosidade, Lurbec. Ele volta para a carruagem agora. O senhor tem problemas maiores para resolver do que farejar segredos.

Lurbec levantou as mãos em sinal de rendição, mas seu sorriso permaneceu.

— Desculpe. Só me preocupo com quem entra e sai pela nossa estrada.

— Não foi nada demais — falei, tentando aliviar a tensão. — Mas… o que aconteceu aqui? — apontei para os destroços da ponte. — Alguém se feriu?

Lurbec balançou a cabeça.

— Pela graça dos deuses, não. Ela cedeu na madrugada, com o aumento da correnteza. Só ouvimos o estrondo. Quando chegamos, metade dela já estava rio abaixo.

— Isso ocorre com frequência? — perguntei, a mente de engenheiro já analisando o problema.

— Mais do que eu gostaria de admitir — ele suspirou, amargo. — A ponte normalmente dura entre nove meses e um ano, às vezes um pouco mais. Depois temos que reconstruí-la. Levamos semanas, dependendo de quantos braços temos disponíveis.

Eu franzi o cenho sob o capuz. Uma ponte que durava menos de um ano? Aquilo era um desperdício colossal de tempo, recursos e esforço humano. No meu mundo, a engenharia resolvia problemas assim há séculos.

Arthur cruzou os braços, olhando o rio como se quisesse intimidar a correnteza, ou o próprio problema.

— Então teremos que contornar o rio. Dois dias a mais de viagem, se tudo der certo. O atraso é inaceitável.

Brianna se aproximou, apertando o cajado com tanta força que eu temi pelo pobre pedaço de madeira.

— E-eu posso… posso tentar magia de vento — disse, a voz pequena, mas cheia de determinação nervosa. — Não forte o bastante para erguer tudo de uma vez, mas consigo levantar uma carruagem por vez, com as pessoas junto. E-err… a caravana de vocês. Vai gastar muita mana, mas eu consigo.

Arthur assentiu imediatamente. Ele desprezava o atraso mais do que o risco de expor a maga.

— Será nossa solução, então.

Ele virou-se na minha direção, o tom de comando retornando.

— Rapaz. Volte para a carruagem imediatamente. Não se envolva.

Eu nem respondi. A visão da ponte quebrada e a aceitação resignada de Lurbec me atingiram em cheio. Aquele era um problema que a minha pessoa moderna podia resolver.

Passei reto, caminhando em direção à margem do rio.

— Rapaz! — Arthur quase gritou. A voz dele era um trovão seco. — Aonde você pensa que está indo!?

Me agachei perto de um arbusto onde havia vários gravetos compridos, secos e retos. Comecei a pegá-los, um a um.

Lurbec veio atrás, confuso, observando meus movimentos.

— O que está fazendo aí, meu jovem?

— Tentando mostrar uma coisa — murmurei.

Comecei a montar a primeira miniatura. Dois gravetos em paralelo, depois outro atravessado, encaixando por cima e por baixo, travando o conjunto. Depois mais dois formando um arco simples. Cada peça se segurava na outra, como braços entrelaçados em um aperto firme. O princípio era o da ponte de Leonardo da Vinci, ou, como eu conhecia, a ponte autoportante.

Arthur franziu a testa, o desprezo evidente em seu tom, mesmo que tentasse disfarçar.

— Você está brincando de casinha? Estamos lidando com um problema real, vamos logo, herói…

Ele próprio travou na palavra "herói", lembrando-se da presença de Lurbec.

Silêncio. Um silêncio mortal na margem do rio.

Lurbec arregalou os olhos.

— Herói?

Ele voltou a olhar para mim, sério, a compreensão chegando em seu rosto.

— Você é um dos heróis da profecia?

Suspirei, sabendo que o segredo estava comprometido.

— Sou. Sim. Mas por favor, guarde segredo. Estou em... uma missão sigilosa.

— Claro, senhor Herói. Por isso esse capuz. Entendi!

— Sim — voltei ao que estava fazendo.

Terminei a miniatura e soltei as mãos. A pequena estrutura de gravetos continuou de pé, apoiada apenas nos próprios encaixes.

Lurbec se aproximou, abaixando-se ao meu lado.

— Isso… isso está em pé sozinho?

— Está — respondi. — É uma ponte autossustentável. As peças se encaixam de um jeito em que o peso de uma trava a outra. Quanto mais peso é colocado, mais firme ela fica, porque a força empurra tudo pra baixo e aumenta o atrito entre as madeiras. Sem pregos, sem cordas. Só o ajuste certo.

Ele esticou a mão com cuidado e pressionou um pouco a estrutura. Os gravetos tremeram, mas continuaram firmes.

— Incrível… — sussurrou. — Posso…?

— Pode.

Ele forçou um pouco mais. A miniatura resistiu. Lurbec soltou uma risada surpresa.

— Isso é uma ótima ideia! — Lurbec murmurou. — Mas… para ter certeza… poderíamos fazer uma versão maior?

Meu lado engenheiro de YouTube acendeu como uma lâmpada. Ali estava o meu propósito, não na adaga ou na diplomacia inútil, mas na solução de problemas concretos.

— Podemos, sim. Vamos precisar de madeira mais grossa. Como não dá pra usar as vigas prontas da ponte antiga, vamos cortar umas árvores mais finas. Aquela ali, por exemplo — apontei para um grupo de troncos altos e esguios. — Parece um tipo de eucalipto, ou algo com a mesma densidade.

Lurbec abriu um sorriso discreto.

— Homens! Tragam machados! Vamos cortar algumas daquelas árvores!

Enquanto ele dava ordens, senti uma mão de aço, fria mesmo através da manga, prender meu braço. Arthur.

— Volte agora para a carruagem — disse ele, em tom cortante e baixo, para que Lurbec não ouvisse. — Eu já falei que não é para se envolver nisso. Sua missão é mais importante do que uma ponte de aldeões.

Olhei para ele, juntando toda a coragem que a frustração e o novo propósito me davam.

— Não puxe meu braço assim. Eu não sou uma criança, Capitão. Só vou ensinar. Vai ser rápido.

— Não. — O olhar dele endureceu, tornando-se gelo puro. — Volte. Agora.

Nós dois ficamos nos encarando, a tensão palpável, nenhum de nós querendo ceder. Eu, o Herói da Tocha, desafiando o Capitão de Infantaria.

— P-por favor, não briguem! — Brianna se meteu entre nós, quase tropeçando no nervosismo. Ela era o mediador mais improvável. — Capitão Arthur, por favor… vamos deixá-lo tentar. Não vai demorar muito…

Arthur olhou para ela, depois voltou a me encarar. Eu mantive o olhar firme, mesmo com o coração batendo na garganta. Ele estava medindo o risco contra o atrasos na missão.

Depois de alguns segundos que pareceram uma eternidade, ele soltou meu braço.

— Tudo bem. Mas assim que acabar, continuamos a viagem.

Assenti.

— Combinado.

Olhei para Brianna e lhe dei um pequeno sorriso de agradecimento. Ela desviou o olhar com as bochechas coradas. Ela não era apenas uma maga prodígio; era a minha ponte para a sanidade.

Em pouco tempo os trabalhadores voltaram com troncos mais finos cortados, mas resistentes. Com a ajuda deles, comecei a montar uma versão maior da ponte, em tamanho médio, mas grande o bastante para suportar peso de pessoas. Os troncos formavam um arco, encaixados em cruz, cada peça travando a seguinte. Era como montar um quebra-cabeça de madeira gigante, e o trabalho manual me acalmava.

Trabalhamos rápido, o suor escorrendo pelo meu rosto sob o capuz. Em pouco tempo, a estrutura estava pronta, uma obra de arte da geometria e da física.

— Certo… hora do teste — murmurei, sentindo a adrenalina.

Subi devagar por um lado da pequena ponte. Ela rangeu, um som de tensão, mas não cedeu. Apoiei um pé, depois o outro. O peso inteiro do meu corpo passou para a estrutura. Ela balançou levemente… mas permaneceu firme, como um arco tenso.

— Isso vai cair! — uma voz de criança gritou ao longe.

Não caiu.

Lurbec arregalou os olhos, maravilhado, a incredulidade em sua face.

— Não pode ser…

Ele subiu também, ao meu lado. A ponte gemeu, mas continuou de pé. As crianças, que antes fugiam de mim, correram rindo e subiram numa lateral da estrutura, como se fosse um brinquedo de parque, confiando instintivamente na estabilidade da construção.

A menorzinha, de tranças, olhou para mim, brilhando.

— Tio, isso é muito legal! Como se chama?

— Ponte autossustentável — respondi, rindo.

— Não, não! — ela insistiu, rindo também. — Eu quis dizer… como você se chama?

Demorei um segundo para entender. Eu tinha um nome. Um nome que não era “Herói” ou “Viajante”.

— Ah. Meu nome é Arven.

— Que legal, tio Arven!

Quando percebi, metade dos camponeses estava sorrindo, e a outra metade murmurava, impressionada. Lurbec, então, quase gritou:

— Isso é incrível, meu caro herói...

Ele parou, colocou a mão na própria boca, tarde demais.

— Herói? — completou um sussurro.

Os trabalhadores ao redor falaram quase em uníssono:

— Herói?

Todos começaram a me encarar como se eu tivesse acabado de sair de uma lenda. Fiquei imóvel por um instante, suando por baixo do capuz. O segredo havia saído, não por um deslize meu, mas pelo espanto de um líder de vila.

Olhei para Arthur. Ele passou a mão pela testa, balançou a cabeça em negação e suspirou pesado, aceitando o inevitável.

A próxima meia hora virou uma sequência de cumprimentos e agradecimentos. Mãos calejadas apertavam a minha. Eu apenas ia apertando mãos, dizendo frases como “não foi nada” e “apenas estou retribuindo o esforço de todos vocês”, enquanto internamente pensava: eu só vi um vídeo disso uma vez no YouTube... O que o Capitão Arthur pensaria se soubesse que a sabedoria de mil anos veio de uma rede social? Mas ele nem sabe o que é jsso, óbvio.

Quando finalmente consegui respirar de novo, voltei a conversar com Lurbec, desta vez com a ponte ainda nos pés.

Peguei um graveto e apontei para partes específicas da estrutura.

— Isso aqui é a ideia básica — expliquei. — Mas, se quiserem algo que dure muito mais do que alguns anos, podem reforçar. Se unirem essas vigas principais com encaixes mais firmes, tipo espiga e cavilha, elas não vão se mover com o tempo.

Apontei outra parte.

— Se colocarem travessas diagonais aqui e aqui, vão impedir que a ponte balance com o vento ou com o peso dos animais. O maior inimigo dessas pontes é o balanço lateral, a fadiga.

Depois, a base.

— E nunca deixem a madeira encostar direto no solo úmido. Coloquem grandes pedras como base. Assim a água não vai apodrecer as vigas tão rápido, por capilaridade.

Lurbec me ouvia como se eu estivesse revelando um segredo dos deuses.

— Se fizerem tudo isso… quanto tempo essa ponte pode durar?

Pensei por um segundo, considerando a manutenção e o tipo de madeira local.

— Se fizerem tudo direitinho… ela pode durar mais do que todo mundo que está vivo hoje. Talvez mil anos, com manutenção simples a cada século.

Um silêncio absoluto caiu sobre o grupo. Até o rio pareceu ficar mais quieto, em reverência.

— M-mil anos…? — repetiu Lurbec, quase sem voz, processando a longevidade.

— Sim. É totalmente possível. Vai dar trabalho, mas é possível.

Ele deu dois passos para trás, respirou fundo e sorriu de um jeito que eu não estava acostumado a ver em adultos: como uma criança que acabou de ganhar o brinquedo dos sonhos.

— Rapaz… você nos deu esperança. Todos os anos perdemos semanas e homens nessa maldita ponte. Se o que disse for verdade…

— O resto é com vocês — completei, levantando as mãos. — Só ensinei o básico.

As pessoas se reuniram mais uma vez, agradecendo com abraços, apertos de mão, bênçãos e desejos de boa sorte.

— Que os deuses o protejam, Herói Arven! — disse Lurbec, apertando minha mão pela décima vez. — Sempre acreditei que os heróis viriam para salvar este continente. E o senhor… confirmou minhas crenças.

Eu realmente me senti bem com aquilo. Pela primeira vez, parecia que eu tinha feito algo que um herói deveria fazer.

Arthur montou em seu cavalo, respirando fundo, claramente impaciente, mas o frio em seu rosto estava ligeiramente temperado por algo que parecia... respeito forçado.

— Vamos seguir — ordenou.

Brianna veio até mim, ainda ofegante pela agitação toda, os olhos brilhando como estrelas.

— Você… é incrível, sabia?

— Eu? — ri. — Não. Isso é só engenharia simples. A sua magia é que vai nos tirar daqui.

Ela abriu um sorriso tímido.

— Simples para você.

Arthur a chamou:

— Brianna, prepare-se. Vamos atravessar.

Ela endireitou o cajado, respirou fundo e me lançou um olhar rápido, misturando nervosismo e orgulho.

— Minha vez de brilhar — disse, corando.

Mostrei o polegar para ela.

Ela caminhou até um ponto mais aberto da margem, fincou o cajado no chão e fechou os olhos. O vento, que antes apenas passava preguiçoso, começou a girar ao redor dela. Primeiro como uma brisa, depois como uma corrente firme, levantando sua capa e fazendo seu cabelo ondular em um halo de movimento.

A pressão no ar mudou drasticamente. Até os camponeses se calaram, em reverência ao poder da Magia do Vento.

Aos poucos, a carruagem em que eu estava, a de suprimentos, os cavalos e os guardas começaram a ser envoltos por uma corrente de vento em espiral, densa e luminosa. O chão pareceu se afastar. As rodas saíram do solo, os cascos dos cavalos perderam o contato com a terra.

Nós estávamos flutuando.

Olhei pela janela e vi o rio abaixo, correndo furioso, enquanto nós cruzávamos o espaço entre as duas margens, suspensos apenas pela magia de uma garota de dezoito anos. A força que ela irradiava era inegável; ela estava carregando o peso de todo o comboio, desafiando a gravidade e o tempo.

— Isso é… inacreditável… — murmurei. A engenharia era lógica; a magia era sublime.

Do outro lado do rio, a magia foi diminuindo. As rodas tocaram o chão com um solavanco leve. Os cavalos relincharam, nervosos, mas não em pânico.

Eu desci da carruagem assim que parou e corri até Brianna.

— Foi incrível! — falei, ainda sem fôlego. A exaustão dela era visível, mas a vitória também.

— O-obrigada… — ela tentou responder, mas a voz falhou, quase um sussurro.

Vi seu corpo vacilar. Em câmera lenta, como uma marionete com os fios cortados, ela tombou para o lado.

Consegui segurá-la antes que batesse no chão.

— Brianna! — chamei, sentindo o peso leve do corpo dela em meus braços. Ela estava fria e mole. — Você está bem? Ei!

Ela tentou abrir os olhos, murmurou algo ininteligível sobre "vento" e "muito peso", e apagou.

— Capitão! — gritei. — Ela desmaiou!

Arthur aproximou o cavalo rapidamente, descendo com um impulso só. Tocou o ombro dela, avaliando.

— Ela usou magia demais de uma vez só — disse, sério, mas sem o tom cortante de antes. — Eu disse para levar uma carruagem por vez, mas a imprudência dela é maior que o poder. Não exigiria tanto esforço ao ponto de desmaiar. Menina imprudente…

Eu olhei para o rosto dela, tranquilo agora, adormecido, com as bochechas ainda rosadas pelo esforço, e não consegui evitar um sorriso de admiração.

Brianna, você é incrível mesmo.

— Por favor, leve-a de volta para a carruagem, Herói Arven — ordenou Arthur, a voz um pouco mais suave ao se referir a mim pelo título. — Ela precisa descansar.

Assenti.

— Pode deixar comigo.

Carreguei Brianna até a carruagem, com cuidado, e a deitei no banco acolchoado, ajeitando o cajado ao lado dela, como se fosse um bicho de pelúcia. Puxei o capuz que tinha saído um pouco de volta sobre meu rosto, sentei no meu lugar e deixei que o balanço da carruagem tomasse conta do resto, observando o peito dela subir e descer.

Quando olhei pela fresta da cortina, vi, do outro lado do rio, Lurbec e os camponeses já discutindo medidas, apontando para troncos, organizando homens. A ponte quebrada continuava lá, mas, pela primeira vez, parecia apenas um problema em transição, não uma condenação.

A carruagem retomou o caminho.

A ponte ainda não existia.

Mas a vila que ficou para trás em breve teria uma nova, mais forte, mais duradoura, a ponte que duraria mil anos.

Eu me recostei no banco, exausto, mas com uma sensação estranha de satisfação no peito.

Talvez eu não tivesse matado monstros, nem empunhado uma espada lendária. Mas, naquele dia, ajudei uma vila inteira a não perder mais semanas, e vidas, todo ano. A engenharia do meu mundo havia se encontrado com a magia deste, e o resultado era esperança.

Pela primeira vez desde que cheguei a esse mundo, senti que tinha feito o trabalho de um herói. Mesmo que fosse o herói da tocha… e de uma ponte que ainda nem existia, mas que agora, existia na mente e nas mãos daqueles aldeões. Minha Lux Minima havia iluminado uma solução.

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