Chapter 1:

Dores Passadas

Falso Céu


Mais um dia que acordo vivo.

Levo a mão ao lugar onde ele tocou.

— Quantas vezes vou rever isso...

Murmuro para mim mesmo. Estou suado e meu coração está acelerado. Meus braços tremem contra minha vontade.

— Talvez eu devesse limpar esse quarto. Deve ajudar a esquecer.

Puxo o ar para os pulmões e me levanto da cama. Há papéis e lixo espalhados pelo chão. O cheiro do quarto está horrível, preciso resolver isso.

Fico alguns minutos limpando o lixo. Quando termino, meu rosto está suado.

— Eu deveria sujar menos meu quarto. — Passo a mão pelo rosto, limpando o suor.

Já fazem dez anos e ainda tenho pesadelos com essa cena. Minha mãe nunca sequer ousou falar sobre esse assunto, porém não posso julgá-la por isso. Ele não merece nossa atenção.

Caminho em direção à porta já aberta, e vejo uma bela mulher de longos cabelos.

— Mãe, você sempre deixa minha porta aberta...

Seu olhar foca em mim por um breve momento.

Theia — Desculpa, filho. Fui checar se você já tinha acordado, mas, já que não estava, saí do seu quarto.

Fios prateados caem sobre suas grandes asas que a envolvem. Sua pele albina contrasta os olhos prata, que brilham em minha direção.

— Deixa eu adivinhar. Foi me checar enquanto estava cozinhando e quase queimou o almoço?

Sua resposta foi silenciosa.

Não é surpresa, afinal não é a primeira vez.

Gentilmente me aproximo dela e a envolvo em meus braços. Não posso perdê-la.

A sombra do passado ainda acompanha meus passos, é uma pena. Gostaria que ele estivesse conosco, mas ao mesmo tempo... não posso perdoá-lo.

Eu mesmo irei matá-lo.

Theia — Pode se sentar, filho. O lanche está pronto.

Sento ao lado dela em uma pequena mesa circular. Nosso lar é simples, mas acolhedor.

À direita uma sala com um sofá e uma pequena escrivaninha. À esquerda, a cozinha onde minha mãe faz suas deliciosas comidas. À frente, nossos dois quartos.

Não preciso de mais do que isso. Só preciso dela. Enquanto eu a tiver ao meu lado, posso ser feliz.

Um sorriso se forma em meu rosto. É fraco, mas sincero.

Certas vezes me questiono onde ele pode estar. Será que ele ainda lembra de nós?

Eu e minha mãe comemos juntos. A carne suculenta desmancha na boca, um gosto agridoce — afinal, ela sabe que adoro esse tipo de comida.

Theia — Há alguns dias você me perguntou se eu poderia te inscrever na escola de luta.

Franzo a testa com a abrupta informação.

Theia — Achei que isso poderia te fazer bem, então eu te inscrevi na escola de Celestia.

Meus olhos se arregalam.

— M-mãe?! — Me levanto apoiando minhas mãos na mesa circular. — Você sabe o quão caro é?! Celestia é uma das maiores escolas do Céu, não precisa.

Theia — Não se preocupe, Aldric. Já está tudo resolvido. Suas aulas começam amanhã.

Não consigo me mover. O coração palpita como se o sangue explodisse dentro do meu corpo. Esse é único jeito? Passo a maior parte do tempo lendo, não é difícil saber sobre Celestia. A escola intitulada como a criadora de deuses.

— Mas desse jeito eu vou precisar ficar longe de você, mãe.

Theia — Meu filho, sei dos seus sonhos. E não irei prendê-los pelo meu egoísmo. Não precisa se preocupar, posso ir visitá-lo.

Isso é o mesmo que abandoná-la? Não, eu realmente preciso ficar mais forte se quero protegê-la. É uma chance incrível, mas o custo... merda.

— Eu aceito. — Parei por um momento. — Mas, não ouse pensar em deixar de me visitar.

Resmunguei com certa raiva de sua decisão. Um aviso prévio impediria toda essa discussão.

Terminamos a comida, então voltei até meu quarto. Algo está errado... melhor eu tomar um banho, não adianta pensar nisso agora.

No espelho vejo os restos do meu pesadelo: marcas de queimadura espalhadas pelo braço e pelo peito.

Já não dói tanto assim. Comecei a limpar-me no chuveiro, um dos únicos locais onde não pensava tanto. Mas as vozes... Ah, essas malditas vozes.

— Eu... mereço isso?

Não tomo muitos banhos, pois lavar esses ferimentos é algo doloroso, mas preciso mudar esse hábito, meu cheiro está ficando péssimo.

A água desliza em meu corpo, percorrendo as cicatrizes que foram deixadas. O silêncio era cortado pelos gritos dos inocentes.

Realmente valeu a pena sobreviver? As famílias me acompanham mesmo após o fim. Desliguei o chuveiro e comecei a secar-me.

Não é minha culpa.

Sorri para o espelho. Comecei a vestir-me. Eu preciso tomar ar fresco.

Retirei-me do meu quarto e despedi-me de minha mãe.

— Preciso sair um pouco, mãe. Volto depois!

Ergui a voz em minha despedida e acenei levemente com a cabeça.

Theia — Se cuide, Aldric! Volte antes do almoço.

Como se eu pudesse ficar longe de você.

Caminhei pelo belo "Céu" que tanto vangloriam. As nuvens se afastavam para que houvesse espaço para o sol.

— Huh, até mesmo você quer fingir que nada aconteceu?

Sorrio da minha própria piada. Deito no chão para descansar.

— Odeio admitir, mas esse lugar de merda tem uma ótima vista.

Estendi meus braços em direção às nuvens. Sempre me perguntei do por quê demônios e anjos se julgam tanto.

Qual a diferença entre eles? Um tem chifre e o outro não?

Uma breve risada fugiu de meus lábios.

— Mas não há como definir se algo é bom ou mal sem saber o motivo por trás, não é?

Nesse caso, sou um hipócrita? Eu julgo ele sem ter noção do motivo por trás...

Por que ele teria nos abandonado? Não, ele feriu uma criança, ele não pode ser alguém bom.

Toco minha cicatriz.

— Você realmente é um desgraçado.

Levo a mão até o ferimento na cabeça.

— Por que Artória? Ele realmente me odeia ao ponto de não lembrar meu nome? Velho maldito.

Uma pequena lágrima escorre em minha face.