Chapter 2:

Celestia

Falso Céu


O sol se despediu do céu, permitindo que a lua o ocupasse. Continuei deitado no chão, contemplando a bela vista. O céu é belo à noite — talvez porque, no escuro, as falhas não sejam tão visíveis.

Levanto-me, ainda observando o céu. Se realmente vou estudar em Celestia, preciso me preparar. Sempre tive certo apreço por lutas, mas nunca entrei em uma. Grande parte do meu tempo foi dedicada aos livros.

Não me arrependo. Graças à leitura, conheço diversas informações úteis sobre o céu. Ele é dividido em três reinos principais: Elytherion, Astraelum e Valkyrios. Minha mãe e eu vivemos em Elytherion, longe do centro.

— Celestia fica no reino principal

Sussurro ao vento.

Ela vai ficar bem, tenho certeza. É a deusa da luz. Talvez eu atrapalhe mais do que ajude.

Sigo o caminho até meu lar.

— Vai ser divertido lutar com anjos.

Abri a porta de casa. Silêncio. Já é tarde. Caminho até meu quarto e deixo o corpo desabar na cama. Amanhã será um grande dia; preciso descansar.

Minhas mãos suam, minha mente não descansa e meus olhos se recusavam a fechar.

— Maldito corpo, facilite minha vida.

Reviro-me na cama diversas vezes. Cerca de uma hora se passa e meus olhos finalmente cedem.

Nunca tenho paz em meus descansos... então por que tudo está tão quieto?

Um lugar onde a luz não existe.

Lentamente, algo se ergue do próprio nada. Uma imensa sombra me analisa. Olhos vermelhos como sangue. Um sorriso perturbador.

— Por que nunca fala nada? Vai continuar só me olhando?

Por um breve momento, o sorriso cessa. Não posso vê-lo além dos olhos e da boca.

??? — ...Não está pronto.

A voz da entidade percorre meu corpo como gelo. Gotas de suor gelado escorrem pelo meu rosto.

Essa é nova.

Sua voz rasga o ambiente — um sussurro que atravessa o vazio.

Sua mão toca minha cicatriz. O peso desaparece. As cores voltam ao mundo. Rapidamente sento-me na cama ao perceber que as cores estão normais. Minha respiração é pesada, semelhante a sensação daquela noite.

— Não sei o que é pior, as vozes ou esse desgraçado.

Passo as mãos pelo rosto suado. Por que está gelado? Meu quarto não está frio.

A porta se abre.

Theia — Já está acordado, Aldric? Você precisa comer antes de ir para Celestia!

Seu rosto irradia sua luz natural. O frio não resiste à sua presença.

— Tudo bem, mãe. Já estou indo.

Sentamos novamente à mesa. Talvez fosse a última vez por um longo tempo. Os olhos prateados dela se fixam em mim.

Theia — Está animado para seu primeiro dia, filho?!

— Parece animada... está tão feliz assim que vou morar longe?

Balbucio de forma resmungona.

Theia — Nem vem! Você sabe muito bem que só estou feliz porque irá seguir seu sonho.

Sorri ao ouvir suas palavras. Como sempre, pensando nos outros mesmo após tudo.

— Você continua a mesma.

As palavras escapam sem que eu percebesse.

Theia — Não há motivos para eu mudar, não é?

— Tem razão. Não gostaria que a pessoa que mais amo mudasse.

O silêncio paira por um instante.

Theia — Você é realmente meu maior orgulho, filho.

Ela me puxa para um abraço apertado. Isso é o verdadeiro paraíso.

Theia — A viagem é longa, mas um amigo irá nos levar. Não deve faltar muito para que ele chegue. É melhor esperarmos lá fora.

Assenti com a cabeça. Já terminamos a comida, então saímos para aguardá-lo. Os pássaros cantam e o vento empurra meu passado para um lugar que não posso ver.

Se o tempo não pode parar, eu também não vou.

??? — Ei, Theia, quanto tempo.

Desperto dos pensamentos ao ouvir uma voz diferente.

Theia — Sim! Os dias estão corridos. Não é tão fácil quanto antes.

Ela sorri para o homem de cabelos azuis.

Theia — Ah! Aldric, este é Caelion, meu primo!

Um homem de cabelos e olhos safira, fios caindo até os ombros. Um manto branco oculta parcialmente uma blusa preta justa.

— Seu sangue realmente é abençoado, não é, mãe?

Caelion — Que nada, garoto! Grande parte foi para ela.

Rimos enquanto entrávamos na carroça.

Caelion — Vai demorar algumas horas... sejam pacientes.

— Não precisa se preocupar.

Caelion — Não estou preocupado com você, só com minha prima que é impacien— Ai!

Geme ao ser interrompido por um leve soco na cabeça desferido por minha mãe.

Theia — Você realmente não mudou nada.

Me aproximo do ouvido dele.

— Ela acabou de provar seu ponto.

Sussurro, temendo ser o próximo.

Ele tenta conter a risada. Não consegue.

Nunca mais brincarei sobre minha mãe.

A carroça mergulha no silêncio.

Agora, tanto na minha cabeça quanto na dele, há um calo. Estou sentado ao lado do próprio demônio. Ou do que minha mãe chama de primo.

Caelion — Poderia ser pior, Aldric...

Ele murmura com olhos tristes voltados para mim.

— Será mesmo?

Os sussurros cortam o ar. Não podemos acordar a fera novamente.

Ele parece pensar, mas hesita.

Caelion — Melhor se encostar. Não falta muito para chegarmos.

— Afirmativo, capitão!

Ele abre um grande sorriso.

Caelion — PFFF, tudo bem, soldado. Descansar.

Rimos da própria idiotice. Caelion é realmente incrível. Gostaria de ter mais tempo para conhecê-lo.

Encosto-me na parede da carroça e afundo-me em pensamentos.

Li muitos livros, mas obras sobre mana são raras no interior. Além disso, não sei lutar.

Minhas asas entram em meu campo de visão — uma negra, outra branca.

Mestiços são anomalias no céu.

E o céu nunca foi gentil com anomalias.

Ergo o punho direito, ainda olhando para o teto da carroça.

— Ei, Caelion.

Caelion — Pode falar, Aldric.

— Tem alguma dica sobre mana?

Ele toca o queixo, olhando para o céu. O silêncio dura poucos segundos.

Caelion — O máximo que posso dizer é que suas magias são baseadas em criatividade. — Vira em minha direção. — Por exemplo, se você usar magia de fogo e tiver bom controle de mana, basta imaginar uma lança de fogo... e ela será criada.

— Criatividade... e qual é o seu poder?

Ele ergue a mão. Pequenos relâmpagos envolvem seu braço direito.

Caelion — Uma aula prática. — Fechou os olhos. — Se eu pensar em uma esfera...

Uma esfera de raios surge em sua palma.

— Isso não significa que não posso alterar a magia depois de criada. Posso reutilizar a mana da esfera e transformá-la em algo do mesmo porte.

A esfera torna-se uma pequena pirâmide.

Caelion — Mas... se você tentar transformá-la em algo que exige mais mana...

Uma pequena guarda de espada se forma.

— Não será exatamente o que imaginou. Apenas a parte possível.

Nossos olhares se encontram.

— E se eu colocar mais mana na esfera antes de mudar sua forma?

Ele para por um momento.

Caelion — Se usar mais mana do que o possível, pode sobrecarregá-la... e ela explodirá.

— Isso acontece se eu não controlar a parte exterior da esfera, certo?

Ele franze a testa.

— Se eu reforçar a camada externa... posso fazer com que ela suporte mais mana em seu interior?

Seus olhos se arregalam com a pergunta. Tentou dizer algo, mas falhou.

Foi preciso alguns minutos para que pudesse continuar.

Caelion — De certa forma sim, Aldric, mas claro o custo de mana e o seu controle devem ser imensos.

— E se eu reforçar seu exterior, porém quando lançá-la enfraquecer apenas a parte de fora?

Caelion — Talvez a esfera explodiria em grande escala de mana.

Sussurra a resposta para si mesmo.

A guarda de mana em suas mãos desapareceu, enquanto sorri para mim.

Caelion — Você tem potencial, Aldric. Não use isso de forma imprudente.

— Mesmo com essas informações, ainda não sei como usar mana.

Fico com uma cara emburrada encarando seus olhos, enquanto deixo meu corpo deslizar na parede, caindo gentilmente no chão.

Caelion — Tudo no seu tempo. Você deveria focar em algo que você já consegue: fortalecer seu corpo.

Ele tem razão, meu corpo ainda é fraco. Do que adianta aprender a utilizar mana se meu corpo é frágil.

— Você já foi um soldado do reino, Caelion?

Seco.

Seu corpo fica parado em minha frente, não há respostas.

Caelion — Foi pela roupa?

— Sua explicação. Você ensina como alguém muito experiente. Não faria sentido ser apenas um morador.

O único som vem das rodas da carroça esmagando galhos pelo caminho.

— Sinto muito, não precisa explicar.

Caelion — Obrigado.

Ao meu lado escuto um pequeno bocejo.

Theia — Caramba, esse sono foi maravilhoso. Já estamos chegando?

Caelion — Sim, senhora!

Gritou como um soldado ao seu general.

Theia — Ótimo!

Ela passa as mãos por cima de seus olhos, enquanto volta seu olhar para mim.

Theia — Comprei algo para você, Aldric. Quero que guarde com você.

De seus bolsos retira um pequeno pingente. Um desenho de uma estrela. Suas colorações combinam com meus cabelos e minha asa negra.

— É... lindo, mãe. Muito obrigado.

Agarro seu presente como a maior das relíquias. Mesmo em Celestia, minha mãe vai estar comigo.

Caelion — Vejam, chegamos!

Quando sua voz ecoa pela carroça, olho para frente.

As rodas cessam.

Casas imensas detalhadas em ouro, diversos anjos caminham nas ruas e um enorme castelo ao fim da cidade.

Será uma longa jornada.

E eu não sei se vou sobreviver a ela.